Saúde

Quando a dor se torna insuportável


Dá uma forte gastura ouvir alguém dizer que não consegue mais levar adiante a vida.
Se a pessoa é jovem, dói porque a sociedade não está conseguindo iluminar para ela, sem enfeites, aquilo que ela vê como trevas e pavor.


Se é velha, a dor ganha outra dimensão.


Tantas coisas já foram vividas. Tantas perdas, mudanças, recomeços, alegrias e decepções. Tanta experiência acumulada. E, ainda assim, pode chegar um momento em que nada disso consegue trazer alento suficiente para continuar.


É difícil chegar ao coração de quem sofre com frases sobre a beleza da vida ou com a certeza de que tudo passa. Para quem está mergulhado na dor, essas palavras podem soar distantes, quase ofensivas.
Talvez a pergunta precise ser outra.


O que tornou essa vida tão pesada?


Que perdas se acumularam? Que solidão foi se instalando? Que violência, abandono ou falta de cuidado fizeram o sofrimento parecer maior do que a esperança? Perdas emocionais podem abalar profundamente uma pessoa. Às vezes, atingem lugares tão íntimos que nem mesmo tudo o que já se viveu consegue trazer alento.


Costumamos tratar o suicídio como um drama íntimo. Ele é. Mas também revela fracassos coletivos. Quando uma pessoa idosa chega ao ponto de desejar a morte, não estamos diante apenas de uma história individual. Estamos diante de uma sociedade que naturaliza a solidão, tolera a pobreza, invisibiliza o sofrimento psíquico e trata a velhice como um tempo de resignação.


Prevenir o suicídio não pode ser apenas convencer alguém a continuar vivendo.


É criar condições para que a vida volte a parecer habitável.


Isso exige olhar para além da pessoa que sofre. Uma rede de relações não se constrói apenas com boa vontade. É preciso pensar em cidades que favoreçam encontros, serviços públicos que não abandonem quem envelhece, acesso a tratamento, condições materiais de existência e possibilidades reais de participação.


Não se trata de prometer uma vida sem dor. Trata-se de não aceitar como inevitável tudo aquilo que produz sofrimento.


Nem toda dor pode ser evitada. Mas muitas das condições que a tornam insuportável podem — e devem — ser transformadas.

Minha tia provavelmente não pensava em nada disso quando interrompia os arrependimentos com o ditado da nonna.


Mas talvez soubesse uma coisa que levei muitos anos para entender:
não há como mudar o que foi. Há, ainda, o que fazer com o que foi. E o que vem ali adiante.

Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco  décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.