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Literatura

Philip Hallawell: ‘A mudança constante da imagem resulta numa perda de identidade’

Criador do conceito de visagismo apresenta a teoria Image ID e defende que a aparência não apenas comunica aos outros, mas também interfere na maneira como nos percebemos

“Você acabou comigo!” A frase, dita por uma mulher ao se olhar no espelho depois de uma adequação de imagem, revelou a Philip Hallawell que uma mudança na aparência pode fazer muito mais do que alterar a percepção dos outros: ela pode derrubar uma persona inteira.

A experiência aconteceu em 2006. A cliente queria aprender a se impor melhor, mas, segundo Hallawell, havia desenvolvido uma forma infantilizada de falar e de pedir as coisas como proteção psicológica. Depois da mudança visual, sua voz engrossou e a reação surgiu de maneira direta e agressiva. O marido, que acompanhava a consultoria, se espantou. Para o artista e pesquisador, aquela máscara havia ruído antes que a mulher estivesse preparada para viver sem ela.

O episódio ajuda a explicar a tese central de “Image ID: A ciência e a arte do design na imagem pessoal”, novo livro de Philip Hallawell, publicado pela Editora Senac São Paulo: toda imagem comunica e também age sobre quem a sustenta. Criador do conceito de visagismo, Hallawell agora reúne em uma obra a teoria que desenvolveu ao longo de décadas, associando linguagem visual, psicologia, neurociência e antropologia.

Muito além do visagismo

Hallawell conta que começou a desenvolver a Teoria de Image ID entre 1971 e 2001, enquanto buscava compreender como transformar uma ideia em imagem com harmonia e estética. O processo não nasceu em um ambiente acadêmico. Surgiu de sua prática como artista e arte-educador e da tentativa de ajudar cada aluno a libertar a criatividade e descobrir o que desejava expressar — e como fazer isso.

Parte desse conhecimento apareceu publicamente na série e nos livros “À mão livre — a linguagem do desenho”, da TV Cultura, com a associação entre elementos visuais e símbolos arquetípicos. Em 2003, ele estabeleceu o conceito de visagismo, incorporando o princípio de que a composição de linhas, formas, cores, luz, sombra, projeções e peso visual cria significado e estabelece uma identidade. Os conceitos ligados à psicologia da imagem, porém, apareceram apenas parcialmente em obras anteriores.

O novo livro, afirma o autor, apresenta a teoria e seu método de forma completa, somando experiências e conhecimentos acumulados nos últimos 17 anos. Hallawell também critica a redução do visagismo a uma técnica de equilíbrio de formas e harmonização de cores. Para ele, essa leitura deixa de fora justamente a dimensão mais transformadora da proposta: compreender o que uma imagem expressa e se essa mensagem está alinhada à identidade e aos objetivos da pessoa.

O julgamento acontece antes do pensamento

Segundo Hallawell, o significado dos elementos visuais é percebido de maneira inconsciente e emocional. Antes mesmo de o cérebro reconhecer racionalmente o que está vendo, linhas, formas, cores, luzes e sombras já provocam sensações. Por isso, afirma, o julgamento de uma imagem acontece antes de sua compreensão consciente.

Isso não significa, porém, que todas as pessoas interpretarão uma aparência exatamente da mesma maneira. Hallawell sustenta que os estímulos visuais podem provocar sensações universais, mas a reação a elas é particular: depende de memórias emocionais, temperamento, experiências e gostos. O desafio está em separar a intenção de quem constrói a imagem daquilo que ela efetivamente desperta em quem observa.

Padrões e estereótipos construídos ao longo de séculos também continuam presentes na aparência de homens e mulheres. Na avaliação do autor, eles podem dificultar a adaptação às mudanças sociais, aos novos papéis de gênero e às transformações nos relacionamentos. Como grande parte dessa leitura é inconsciente, ele defende que o domínio da linguagem visual permite investigar se a imagem está ou não em sintonia com aquilo que a pessoa deseja expressar.

O risco de fabricar um personagem

A discussão ganha outra dimensão em uma época dominada por Instagram, filtros e personagens cuidadosamente construídos. Para Hallawell, toda imagem pessoal é, em alguma medida, uma persona. O problema começa quando ela é manipulada apenas para alcançar determinado resultado e se distancia de quem a pessoa é.

“A autenticidade é fundamental para a saúde emocional, porque a imagem também age sobre a psique da própria pessoa”, afirma. Ele alerta que mudanças constantes podem enfraquecer a percepção da própria identidade e, com ela, os rumos que orientam escolhas e comportamentos. Nesse sentido, parecer extremamente coerente por fora não significa necessariamente estar inteiro por dentro.

Quando alguém finalmente se sente visto

Outra experiência reforçou essa percepção. Durante um curso, a esposa de Hallawell atendeu uma jovem que dizia nunca ter sido verdadeiramente vista. Ela se sentia invisível, pouco apreciada e relatava um histórico de abusos. Segundo o autor, a participante chegou a dizer que aquele curso representava sua última esperança.

Depois da consultoria, a jovem procurou um profissional para adequar a aparência às orientações recebidas e passou a aplicar o que havia aprendido. Algumas semanas mais tarde, telefonou para contar que as pessoas começaram a olhá-la com apreço na rua, que os clientes elogiavam sua imagem e que ela também havia começado a trabalhar como modelo.

Para Hallawell, relatos como esse demonstram o poder da imagem quando ela é trabalhada com domínio da linguagem visual e atenção à identidade. Não se trata apenas de ficar mais bonito, seguir tendências ou produzir uma embalagem convincente. Trata-se de reconhecer que aquilo que mostramos ao mundo pode nos aprisionar em um personagem — ou ajudar a tornar visível algo que sempre esteve em nós.

Livro e exposição

O lançamento de “Image ID: A ciência e a arte do design na imagem pessoal” acontece em 14 de setembro de 2026, na Galeria de Arte André, em São Paulo, junto à abertura da exposição “Philip Hallawell: Image ID”. A mostra reúne cerca de 30 pinturas e desenhos e retoma a relação do artista com a galeria, onde realizou sua primeira individual há 50 anos.

SERVIÇO
Exposição: Philip Hallawell: Image ID
Abertura e lançamento do livro: 14 de setembro de 2026, das 18h às 22h
Período: de 14 de setembro a 10 de outubro
Galeria de Arte André — Rua Estados Unidos, 2.280, Jardim Paulistano, São Paulo

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo