Inteligência Artificial

Por que tantas empresas investem em tecnologia e continuam sem crescer?

Tecnologia não gera crescimento sozinha, afirma autor de “Código não é Produto”

Empresas investem bilhões em tecnologia todos os anos. Inteligência artificial, automação, análise de dados, transformação digital. Nunca se falou tanto sobre inovação. Mas uma pergunta continua sem resposta para muitos gestores: por que tantas iniciativas tecnológicas fracassam ou simplesmente não geram o crescimento esperado?

Para o executivo e escritor Bruno Salles, CPTO da Accesstage, a explicação está em uma confusão bastante comum dentro das organizações: acreditar que tecnologia e produto são a mesma coisa.

Essa reflexão é o ponto de partida do livro “Código não é Produto – Como a tecnologia e os novos produtos criam crescimento real para as empresas”, lançado recentemente. Na obra, Bruno defende que excelência técnica, por si só, não garante sucesso no mercado.

“Percebi isso ao longo da minha carreira ao acompanhar diversos projetos que eram, do ponto de vista técnico, absolutamente impecáveis, mas que simplesmente não encontravam espaço no mercado”, afirma.

Segundo ele, muitas empresas investem tempo e recursos na construção de soluções sofisticadas, mas deixam de lado uma pergunta fundamental: qual problema real do cliente estamos resolvendo?

“Ficou claro que existe uma distinção fundamental que muitas equipes ignoram: código é um meio, produto é percepção de valor”, explica.

O erro de começar pela solução

Na avaliação de Bruno, um dos erros mais caros cometidos pelas empresas é se apaixonar pela tecnologia antes mesmo de compreender o problema.

“O erro mais caro é começar pela solução antes de entender profundamente o problema”, afirma.

Segundo ele, a tecnologia não corrige falhas estratégicas. Pelo contrário. Ela amplia aquilo que já existe.

“Se o problema está mal definido, você não resolve. Você amplia.”

As consequências podem ser significativas: desperdício de investimentos, desalinhamento entre áreas, baixa adesão dos usuários e produtos que não conseguem gerar resultados concretos.

A inovação que serve apenas para parecer inovadora

Outro ponto abordado pelo autor é o que ele chama de “inovação performática”. Para Bruno, algumas empresas estão mais preocupadas em construir uma imagem de modernidade do que em gerar impacto real para seus clientes.

“Existe uma espécie de fetiche da inovação. Muitas empresas estão mais preocupadas em parecer inovadoras do que em serem relevantes de fato.”

Laboratórios de inovação, estruturas sofisticadas e uma coleção de buzzwords podem criar uma narrativa atraente, mas não necessariamente resolvem problemas importantes.

“Não é sobre adotar o novo. É sobre gerar valor.”

Inteligência artificial: revolução real ou corrida do ouro?

Quando o assunto é inteligência artificial, Bruno acredita que estamos vivendo dois fenômenos simultaneamente.

Por um lado, existe uma transformação tecnológica legítima, capaz de mudar profundamente a forma como produtos são criados e utilizados. Por outro, há uma corrida oportunista que leva muitas organizações a implementarem IA apenas porque o mercado está fazendo o mesmo.

“Estamos diante das duas coisas ao mesmo tempo”, resume.

Para ele, a inteligência artificial só faz sentido quando melhora processos, aumenta a qualidade das decisões, reduz atritos na experiência do usuário ou gera resultados claramente superiores.

“Caso contrário, ela vira apenas complexidade adicional com baixo retorno percebido.”

O que as empresas ainda não entendem sobre seus clientes

Mesmo em uma era dominada por dados, Bruno acredita que muitas empresas continuam sem compreender verdadeiramente seus consumidores.O problema, segundo ele, está em confundir comportamento com motivação.

“Muitas empresas sabem exatamente o que o cliente faz. Mas não entendem por que ele toma essas decisões.”

Embora métricas e análises sejam importantes, elas não substituem observação, escuta ativa e empatia.

“Produto não nasce de dados isolados. Ele nasce da combinação de observação, escuta ativa, interpretação e empatia.”

O segredo do crescimento sustentável

Para que um produto cresça de forma consistente, Bruno aponta três pilares fundamentais.

O primeiro é gerar valor claro para o cliente. O segundo é possuir um modelo de negócio economicamente viável. O terceiro é a capacidade de adaptação constante diante das mudanças do mercado.

“Crescimento sustentável não é apenas crescer. É crescer com consistência, eficiência e direção clara.”

Saber desistir também é estratégia

Uma das reflexões mais interessantes do livro envolve a dificuldade das empresas em abandonar projetos nos quais já investiram muito dinheiro.

Para Bruno, insistir apenas porque houve investimento anterior pode ser um erro ainda maior.

“Interromper um projeto não é fracasso. É uma decisão estratégica para redirecionar recursos para onde realmente importa.”

Segundo ele, organizações maduras entendem que foco é mais importante do que insistência.

O futuro continua sendo humano

Apesar de trabalhar diretamente com tecnologia e inteligência artificial, Bruno acredita que algumas competências humanas permanecerão insubstituíveis nos próximos anos.

“Entendo que a capacidade de gerar, interpretar e sentir emoções será o mais relevante para conseguir resultados acima da média.”

Para ele, a tecnologia continuará evoluindo em velocidade impressionante, mas caberá às pessoas definir propósito, contexto e significado.

“A IA pode sugerir, automatizar e agilizar. Mas o humano define propósito, direção e significado.”

Em um momento em que a tecnologia ocupa o centro das discussões corporativas, a principal provocação de Bruno Salles talvez seja também a mais simples: antes de perguntar qual tecnologia usar, talvez as empresas precisem voltar a perguntar qual problema realmente desejam resolver.