Negócios

As chamas não venceram a Matrona

Quando uma casa pega fogo, mas a comunidade não deixa as chamas vencerem

Em novembro de 2025, a Casa da Matrona viveu o seu momento mais difícil. Um incêndio atingiu o espaço e colocou em risco não apenas uma estrutura física construída ao longo dos anos, mas também um projeto que se tornou referência de acolhimento, convivência e colaborativismo na cidade de São Paulo.

Para muitos, seria o fim da história. Para Ivan Alatxeve, criador da Casa da Matrona, essa possibilidade foi real.

“Quando percebi a dimensão do incêndio, entendi que aquele acontecimento poderia ser o ponto final da nossa jornada”, relembra.

A sensação não surgiu apenas por causa do fogo. Segundo Ivan, a Matrona já havia atravessado outros períodos difíceis ao longo de sua trajetória.

“Antes do incêndio também passamos por muitos momentos áridos em que eu havia perdido a esperança. Depois do incêndio, acolhi a ideia de que aquilo poderia realmente acontecer.”

Mas o que aconteceu nas horas e dias seguintes mostrou que a Casa da Matrona já não pertencia apenas aos seus fundadores. Ela pertencia a uma comunidade.

Quando a Matrona deixou de ser apenas um negócio

A resposta veio rapidamente. Apenas um dia após o incêndio, Ivan percebeu algo que talvez nem ele próprio tivesse compreendido totalmente até então.

“Foi no dia seguinte que vi a mobilização das pessoas. Naquele momento entendi que a Matrona era maior. O espírito e a alma do negócio também habitavam o espírito e a alma de clientes que se tornaram advogados da marca.”

Campanhas surgiram espontaneamente. Amigos, clientes, parceiros e frequentadores passaram a oferecer ajuda financeira, apoio emocional e trabalho voluntário. A reconstrução não começou com tijolos. Começou com pessoas.

Histórias que o dinheiro não compra

Quando perguntado sobre o que o incêndio levou e que jamais poderá ser recuperado, Ivan não fala sobre equipamentos ou móveis. Ele fala sobre histórias.

“O fogo levou 200 metros quadrados de histórias, peças decorativas únicas e participações de pessoas que não estão mais no projeto.”

Mas em meio às perdas, surgiram demonstrações de afeto que transformaram a dor em significado. Uma delas marcou profundamente o fundador da Matrona.

“A ajuda mais inesperada veio de uma amiga e cliente que havia acabado de perder o pai naquele mesmo período. Ela decidiu doar algumas bonecas da infância dela para deixar na Matrona como memória afetiva do pai.”

Pequenos gestos como esse ajudaram a reconstruir algo muito maior do que paredes.

O sentimento que reconstruiu o estabelecimento

Ao ser questionado se as pessoas estavam ajudando a reconstruir um estabelecimento ou um sentimento, Ivan não hesita.

“Os dois. Mas foi o sentimento que impulsionou o estabelecimento.”

Talvez essa seja a explicação para algo que diferencia a Matrona de tantos outros negócios. Muitos estabelecimentos têm clientes. A Matrona tem uma comunidade.

“Eu atribuo isso à alma do negócio, ao colaborativismo, à proximidade, à vida real. À Casa.”

A palavra “casa” aparece várias vezes durante a conversa. E não por acaso. Em um mundo cada vez mais acelerado, digital e mediado por telas, a Matrona parece representar algo que muitas pessoas sentem falta: pertencimento.

As lições da crise

Toda crise deixa cicatrizes. Mas também deixa aprendizados. Para Ivan, uma das principais lições foi entender que nem tudo precisa estar sob seu controle.

“Ficou mais evidente que eu preciso entregar o controle. Sou orgulhoso e controlador. É uma luta que travo há 15 anos, tentando ser melhor. Preciso permitir que as pessoas façam.”

Outra mudança importante foi a forma de tomar decisões.

“Durante muito tempo fui guiado por projetos e planos de negócio. Nos últimos anos também passei a ouvir meu coração e minha intuição. Em momentos em que a razão não encontrava respostas, a paz no coração me ajudou muito.”

Talvez por isso seu conselho para empreendedores que enfrentam perdas aparentemente irreversíveis seja diferente do que normalmente se ouve em palestras de negócios.

“Ouçam e vejam os sinais. Às vezes é a vida dizendo: chega. Às vezes é a vida dizendo: dê uma pausa. E às vezes é a vida dizendo: vai ser diferente.”

A reabertura que parecia uma celebração

Em abril, as portas da Casa da Matrona voltaram a se abrir. A emoção ainda transparece quando Ivan fala daquele dia.

“Foi muito foda. Muito foda ver nossos amigos e amigas celebrando. Cada pessoa que ofereceu ajuda, apoio emocional, trabalho físico ou dinheiro estava ali. Foi uma celebração e uma resposta à dor.”

A nova fase trouxe também mudanças internas. Uma delas talvez não existisse sem o incêndio.

“Hoje existe uma descentralização maior dos negócios.”

A crise obrigou a rever processos, responsabilidades e formas de gestão. Mas, acima de tudo, reforçou aquilo que já existia desde o início: ninguém constrói algo significativo sozinho.

Ainda há espaço para relações genuínas?

Em uma época em que a vida acontece cada vez mais nas telas, a experiência da Matrona parece apontar para outra direção.

“Não apenas acho que existe espaço para relações genuínas, como defendo isso. Existem pessoas que estão de saco cheio do mundo plástico, da imagem e da prisão que o mundo digital impõe.”

Talvez seja justamente essa busca por conexões reais que explique por que tantas pessoas decidiram ajudar a reconstruir a Casa da Matrona. Porque, no fundo, elas não estavam apenas salvando um restaurante, um café ou um espaço cultural. Estavam protegendo um lugar onde a vida real ainda acontece.

E quando pergunto o que ele diria se pudesse reunir todas as pessoas que ajudaram na reconstrução em uma única mesa, Ivan faz uma pausa. A resposta não vem em forma de discurso.

“Acho que eu apenas choraria e olharia nos olhos de cada uma.”

Às vezes, a gratidão não precisa de palavras. E talvez seja exatamente isso que a história da Casa da Matrona ensina: quando existe comunidade, até o fogo encontra limites.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo