Política

Por que Lula mudou o tom sobre segurança?

Ilustração editorial com viatura policial, orçamento, cofre e Congresso Nacional, representando o debate sobre os custos do novo Ministério da Segurança Pública

Depois da reeleição e da aprovação da PEC da Segurança Pública, Lula anunciou que pretende criar um ministério dedicado exclusivamente ao combate ao crime. A proposta, que já aparecia em campanhas anteriores, ganhou força num momento em que a população cobra respostas contra facções e violência. Mas a criação de mais uma pasta resolve o problema? E, principalmente, quem vai pagar essa conta?

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu criar o Ministério da Segurança Pública por meio de medida provisória, após a aprovação da PEC da Segurança pelo Senado em 3 de novembro de 2026. Numa transmissão ao vivo no dia 5, Lula afirmou que o passo seguinte seria discutir a nova estrutura e o dinheiro necessário para colocá-la em funcionamento. Falou também em fortalecer o combate ao crime organizado, ampliar a integração entre as forças policiais e criar uma nova guarda de atuação nacional. É um anúncio importante para um país que convive diariamente com a violência. Mas a pergunta mais importante não é o nome da nova pasta. É o que ela conseguirá fazer de diferente.

Eu vejo a decisão com uma mistura de expectativa e desconfiança. Expectativa porque segurança pública deveria estar entre as prioridades de qualquer governo brasileiro. Desconfiança porque já nos acostumamos a assistir à criação de novas estruturas, programas e secretarias enquanto problemas antigos continuam sem solução. Um ministério pode organizar melhor o trabalho. Mas pode também virar mais um gabinete, mais uma equipe de assessores e mais uma despesa cujo resultado concreto a população terá dificuldade de enxergar.

O que Lula quer mudar com o Ministério da Segurança Pública?

A proposta é separar a segurança pública do Ministério da Justiça e criar um órgão federal específico para coordenar políticas contra facções, milícias e outras organizações criminosas. A ideia anunciada pelo governo é intensificar o compartilhamento de inteligência, articular operações com estados e municípios, ampliar o alcance de forças federais e investir no combate às finanças do crime. Não se trata, portanto, apenas de colocar uma nova placa na porta: a intenção declarada é construir uma estrutura de coordenação nacional.

Isso tem uma justificativa institucional. A Constituição de 1988 distribui responsabilidades de segurança entre diferentes órgãos e atribui aos estados grande parte do policiamento cotidiano. A PEC 18/2025, aprovada pelo Senado em 3 de novembro, busca fortalecer a cooperação entre União, estados e municípios e dar maior estabilidade constitucional ao Sistema Único de Segurança Pública. O texto também amplia determinadas competências federais e estabelece garantias para fundos destinados à área. A nova pasta faria parte desse arranjo, embora o conteúdo exato da medida provisória ainda precise ser conhecido.

O problema é que cooperação não nasce automaticamente com a nomeação de um ministro. É preciso estabelecer quem decide, quem executa, quais informações serão compartilhadas, como os estados participarão e quem será responsável por cada resultado. Se a União ampliar sua presença sem organizar essas responsabilidades, poderemos trocar a falta de coordenação por uma disputa de competências.

De onde vai sair o dinheiro?

Aqui está o ponto que considero mais importante. Em diversas áreas, o governo argumenta que enfrenta restrições orçamentárias. Quando surgem cobranças por melhorias nos serviços públicos, a resposta costuma passar pelos limites de recursos, pelas regras fiscais e pela necessidade de escolher prioridades. Agora, para a segurança, a promessa é de um orçamento mais robusto, com equipes, sistemas, operações e novas atribuições. Tudo isso custa dinheiro.

Segundo o levantamento da Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados, o Ministério da Justiça e Segurança Pública contou com uma dotação de aproximadamente R$ 23,3 bilhões no orçamento de 2026. Mas é importante não confundir esse valor com dinheiro livre para policiamento: a estrutura reúne despesas de diversas áreas, órgãos e atividades, e parte dos recursos está comprometida com obrigações específicas.

O próprio Lula afirmou, em fevereiro e abril, que o Fundo Nacional de Segurança Pública dispunha de cerca de R$ 2 bilhões e que seria necessário criar um orçamento mais forte para a União atuar de maneira efetiva. Também mencionou ampliação de efetivos e uma possível nova força nacional. São compromissos que não podem ser avaliados apenas pelo discurso: precisamos saber quantos profissionais serão contratados, quais despesas serão permanentes, quais serão temporárias e quais resultados se pretende alcançar.

Criar um ministério desmembrando outro não significa, necessariamente, elevar os gastos na mesma proporção. Há estruturas, servidores, contratos e dotações que podem ser transferidos do Ministério da Justiça. A reportagem da Folha de S.Paulo de 3 de novembro indicou, inclusive, que o governo discutia o redirecionamento de recursos e uma transição operacional para 2027. O valor efetivo do custo adicional, porém, depende da estrutura final, da eventual criação de cargos e da expansão de programas. Até aqui, não foi apresentado publicamente um orçamento detalhado que permita calcular a conta completa do novo ministério.

O contribuinte merece respostas objetivas: quanto custará a administração da pasta? Quanto será transferido de estruturas existentes? Quanto será recurso realmente novo para investigações, inteligência, policiamento e prevenção? O financiamento virá de remanejamentos, de aumento de arrecadação, de novos créditos orçamentários ou da redução de outras despesas? E o mais importante: como vamos saber se o investimento valeu a pena?

Mas o Brasil tem dinheiro para isso?

A resposta exige um pouco mais de cuidado do que simplesmente dizer sim ou não. O Brasil é uma economia grande, com uma estrutura expressiva de receitas e despesas públicas. O problema está em como o orçamento é comprometido, na pressão de despesas obrigatórias e no espaço para novas prioridades. Segundo o Tesouro Nacional, até agosto de 2026 o Governo Central acumulava um déficit primário de aproximadamente R$ 97,1 bilhões. Esse resultado, por si só, não prova que um novo ministério seja inviável, mas ajuda a dimensionar a necessidade de escolhas fiscais.

Há também uma distinção que precisa ficar clara: dinheiro destinado a um novo ministério não é necessariamente um gasto novo do mesmo tamanho. Se os recursos forem transferidos de áreas que já fazem o trabalho, o custo incremental pode ser menor. Por outro lado, se o governo anunciar mais efetivos, equipamentos, unidades operacionais e ações nacionais, será preciso financiar tudo isso de maneira contínua. Gastos permanentes não podem depender de soluções improvisadas.

A PEC aprovada no Senado reforça a proteção de recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública e do Fundo Penitenciário Nacional, com mecanismos de repasse obrigatório e restrições ao contingenciamento. Isso pode dar previsibilidade a políticas de segurança. Mas proteger o uso de um fundo não é o mesmo que criar, por si só, todo o dinheiro necessário para uma expansão da atuação federal. É preciso explicar as fontes e os valores.

Younik: escrever e publicar seu livro

Por que essa preocupação parece ter ganhado tanta força agora?

Essa é uma pergunta legítima. A segurança pública ganhou enorme destaque na campanha de 2026, e o debate sobre facções e a atuação federal passou a ocupar o centro das discussões eleitorais. Lula também passou a utilizar uma linguagem mais direta ao prometer proteção aos trabalhadores e punição aos criminosos. O discurso recente transmite uma disposição de assumir protagonismo numa área tradicionalmente associada às atribuições dos governos estaduais.

Mas seria incorreto afirmar que o assunto nunca fez parte de suas campanhas. Em 2002, o programa de Lula já previa reformas das instituições policiais, integração entre forças e a construção de um Sistema Único de Segurança Pública. Em agosto de 2022, conforme registro feito pelo g1, ele chegou a defender expressamente a criação de um Ministério da Segurança Pública. E, na campanha de 2026, o projeto voltou a aparecer no programa de governo. A proposta, portanto, não surgiu depois da reeleição.

O que merece ser cobrado é a distância entre as propostas antigas e sua implementação. Lula governou de 2003 a 2010 e voltou à Presidência em 2023. Ao longo dessas gestões, houve programas e iniciativas na área de segurança. A existência dessas medidas impede dizer que nada foi feito. Mas também não encerra a discussão sobre o quanto a União assumiu ou deixou de assumir responsabilidades.

Um estudo publicado pela Câmara dos Deputados sobre segurança pública recorda que o plano apresentado por Lula em 2002 previa uma atuação federal mais articulada, mas não foi integralmente executado. O texto cita a avaliação de Luiz Eduardo Soares, que participou da gestão da área no início daquele governo, segundo a qual o Palácio do Planalto recuou diante do peso político de assumir maior responsabilidade pelos resultados da segurança. É uma avaliação histórica atribuída a um ex-integrante da gestão, não uma explicação automaticamente válida para todas as decisões posteriores.

Agora, mais de duas décadas depois daquela primeira eleição, a segurança volta ao centro de um projeto de reorganização federal. É natural perguntar por que a mudança institucional demorou tanto. O governo argumenta que precisava antes definir melhor as atribuições da União por meio da PEC. Esse argumento tem fundamento jurídico e administrativo. Mas não elimina o dever político de explicar o ritmo das escolhas feitas anteriormente.

O crime organizado não espera a criação de um ministério

A discussão é urgente porque o problema não é pequeno. O Atlas da Violência 2026, do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 42.590 homicídios em 2024, o menor patamar da série oficial iniciada em 2014, com queda de 7,4% na taxa em relação ao ano anterior. É uma melhora que merece ser reconhecida. Ao mesmo tempo, os pesquisadores alertaram para dificuldades de classificação de mortes violentas e para a existência de homicídios não identificados corretamente nos registros.

Os indicadores não permitem resumir a segurança pública à sensação de que tudo piorou, mas tampouco autorizam comemorar como se o problema estivesse resolvido. O país enfrenta facções com presença em diferentes regiões, crimes financeiros, tráfico de armas e drogas, violência contra mulheres, além de desafios relacionados à investigação e ao sistema penitenciário. O enfrentamento exige políticas de prevenção, repressão qualificada, inteligência e responsabilização efetiva.

Criar um ministério pode ajudar a integrar informações hoje dispersas. Mas não adianta anunciar combate às facções sem investir em investigação, tecnologia, controle de fronteiras, rastreamento de recursos ilícitos e cooperação entre policiais e órgãos de Justiça. O crime organizado já trabalha de forma articulada. O Estado precisa conseguir fazer o mesmo, respeitando a lei e os direitos dos cidadãos.

Mais um ministério ou mais segurança para a população?

Se a nova pasta conseguir organizar estratégias, reduzir sobreposições de tarefas e aumentar a eficiência dos recursos existentes, haverá uma razão administrativa concreta para sua criação. Se gerar apenas novos cargos, discursos e disputas políticas, o resultado será mais uma estrutura sustentada pelo contribuinte. É por isso que a decisão deveria vir acompanhada de metas públicas e indicadores verificáveis.

Eu gostaria de saber, por exemplo, em quanto tempo o governo pretende ampliar a capacidade de investigação financeira contra facções, qual será o impacto esperado na resolução de homicídios, como será medida a integração entre forças estaduais e federais e de que maneira os repasses chegarão aos municípios mais vulneráveis. Não basta medir o número de operações ou prisões. É necessário avaliar se as ações de fato reduzem a violência e tornam a vida da população mais segura.

Também seria saudável que a prestação de contas separasse gastos administrativos de investimentos operacionais. Quanto custará manter o ministério funcionando e quanto chegará à ponta, onde trabalham policiais, peritos, analistas e servidores responsáveis pela prevenção e investigação? São perguntas simples, mas fundamentais para impedir que o anúncio seja mais importante do que o resultado.

O que mudou: a prioridade ou o momento político?

Não tenho como afirmar que Lula tenha decidido tratar segurança com maior ênfase exclusivamente por conveniência eleitoral. A aprovação da PEC, a pressão social e o avanço do debate sobre crime organizado são fatores concretos que ajudam a explicar o momento. Também é verdade que governos respondem às prioridades dos eleitores e ajustam suas estratégias conforme a realidade política. Isso faz parte da democracia.

A cobrança, portanto, precisa ser mais útil do que atribuir intenções sem prova. O presidente tem uma oportunidade de demonstrar que a nova preocupação será convertida em planejamento, dinheiro bem utilizado e resultados mensuráveis. O que não pode acontecer é transformar uma demanda legítima da população em uma disputa de narrativas sobre quem fala mais duro contra a criminalidade.

O Brasil não precisa apenas de um presidente que prometa enfrentar o crime. Precisa de um governo que explique quanto vai gastar, de onde virá o dinheiro, quem será responsável pela execução e como saberemos se a violência diminuiu. Se o Ministério da Segurança Pública cumprir essa função, será uma mudança que vale discutir. Caso contrário, teremos criado mais uma pasta sem resolver a pergunta que realmente importa: o brasileiro estará mais seguro?

Fontes e referências

Agência Brasil: anúncio de criação do ministério, 5 de novembro de 2026; Folha de S.Paulo: transição e orçamento da nova pasta; Câmara dos Deputados: Raio X do Orçamento 2026; Tesouro Nacional: relatório fiscal de 2026; g1: propostas de Lula na campanha de 2022; Câmara: histórico da política nacional de segurança pública; Ipea: Atlas da Violência 2026; Agência Gov: PEC da Segurança Pública.

Fernando Vítolo é comunicador, jornalista, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo