Marketing e Comunicação

Por que a Jovem Pan investiu em TV aberta?

Colagem editorial com identidade da Jovem Pan, rádio de madeira, celular com símbolo da internet e televisão antiga

A Jovem Pan chegou à TV aberta em 2026 e ampliou sua presença em diferentes cidades brasileiras. Poucos meses depois, anunciou cortes de pessoal e mudanças na programação. A estratégia merece uma pergunta: fazia sentido buscar novos canais de televisão enquanto a emissora já havia construído uma posição importante no rádio e na internet?

Eu não assisto à TV aberta desde 2011. Faz quinze anos que o meu consumo de notícias, entrevistas e entretenimento acontece principalmente pela internet. Não digo isso para sugerir que todo mundo viva como eu. Mas é impossível trabalhar com comunicação e não perceber a transformação do hábito de assistir: cada vez mais pessoas querem escolher o que ver, em qual horário e em qual tela. É por isso que acompanhei com estranhamento a decisão da Jovem Pan de investir na distribuição de sua programação pela TV aberta.

Sempre fui admirador do modelo da Jovem Pan. Da capacidade de produzir jornalismo em tempo real, da força do rádio, do seu jeito de conversar com o público e, principalmente, da forma como conseguiu ocupar espaço no YouTube muito antes de tantos grupos tradicionais compreenderem a importância do vídeo na internet. Por isso mesmo, minha crítica não nasce de rejeição à marca. Nasce da impressão de que uma empresa que soube enxergar o futuro pode estar olhando demais para uma plataforma do passado.

O que a Jovem Pan foi buscar na TV aberta?

A expansão começou em outubro de 2025, com transmissões em Cuiabá, e ganhou destaque em janeiro de 2026, quando a Jovem Pan passou a transmitir também em São Paulo, Campinas e Santa Inês, no Maranhão. Segundo a própria emissora, a entrada ocorreu por meio de parcerias com redes de televisão, entre elas a Rede Mais Família. Em outubro de 2026, a programação já estava disponível em 12 praças de nove estados, conforme levantamento do Meio & Mensagem. Não foi, portanto, uma simples estreia isolada: tratou-se de uma iniciativa deliberada de ampliar o alcance nacional.

A explicação da empresa tem lógica comercial. Em entrevistas à imprensa especializada, seus executivos argumentaram que o sinal aberto permitiria alcançar pessoas de outras faixas etárias e classes sociais, somando esse público à audiência mais jovem do YouTube e à presença na TV paga. A Jovem Pan apresenta a televisão aberta como complemento de um modelo que já reúne rádio, vídeo e plataformas digitais. Essa justificativa merece ser considerada: distribuir conteúdo para mais pessoas pode aumentar audiência, reconhecimento de marca e oportunidades publicitárias.

O problema é que distribuir não significa necessariamente conquistar. O fato de uma emissora estar disponível gratuitamente no controle remoto não garante que ela se torne um hábito. Para transformar cobertura em audiência, é preciso investir em divulgação, programação, tecnologia, equipes e relacionamento com anunciantes. E é aí que entra a pergunta que considero mais importante: qual é o custo de oportunidade de perseguir novos telespectadores enquanto a relação com o público que já acompanha a marca pode estar perdendo atenção?

A TV aberta não morreu. Mas isso não encerra a discussão

Seria exagerado afirmar que ninguém mais assiste à TV aberta. Uma pesquisa Kantar TGI de 2025, reproduzida em material institucional do Governo de São Paulo, apontava 48,1% de preferência pela TV aberta entre as modalidades analisadas, contra 33,4% de streaming e 18,5% de TV paga. São números que impedem tratar a televisão tradicional como um meio sem público. Nas grandes cidades também há milhões de pessoas que continuam acompanhando notícias, esportes e programas de entretenimento pela TV.

Mas há uma diferença entre existir audiência para TV aberta e ser vantajoso para a Jovem Pan ampliar sua operação nesse mercado. A televisão aberta já é ocupada por grupos com décadas de relacionamento com o público, presença na rotina familiar e operações comerciais estruturadas. Entrar no sinal pode ser mais simples do que convencer alguém a abandonar o programa que assiste há anos para descobrir um novo canal de notícias.

Em áreas onde a conexão à internet é limitada, cara ou instável, a TV aberta ainda tem um valor evidente: basta receber o sinal. Em cidades pequenas, isso pode fazer diferença. Mas também seria errado supor que só o interior assiste à TV ou que o interior está fora da internet. O Brasil tem hábitos de mídia diversos, e uma estratégia nacional precisa considerar essa complexidade em vez de se apoiar em uma única ideia sobre onde a audiência está.

O rádio tinha algo que a televisão não consegue reproduzir tão facilmente

Minha principal crítica, contudo, nem é a TV aberta. É a relação da Jovem Pan com o ouvinte. O rádio sempre teve uma característica que o tornou especial: a sensação de proximidade. O ouvinte não era apenas alguém contabilizado numa pesquisa; era uma pessoa capaz de ligar, mandar mensagem, participar de uma promoção, conversar com o apresentador e sentir que fazia parte da programação.

Ao longo dos anos, a Jovem Pan construiu essa relação com programas, comunicadores e formatos que estimulavam a participação. A expansão do vídeo trouxe recursos interessantes, mas, do ponto de vista de quem acompanhou essa evolução, a proximidade do rádio parece ter perdido espaço para uma comunicação mais centrada na exibição de conteúdo e no comentário político.

É justamente aí que a internet deveria ser uma aliada. O WhatsApp permite participação em tempo real. Um aplicativo próprio pode reconhecer ouvintes frequentes e reunir comunidades. As transmissões no YouTube podem integrar perguntas, enquetes, comentários e trechos enviados pelo público. O rádio pode continuar ao vivo no carro, no celular e no alto-falante inteligente. Por que não fazer da audiência uma comunidade, em vez de tratá-la apenas como um número que precisa crescer?

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A Jovem Pan tinha uma avenida aberta na internet

A emissora percebeu cedo que o rádio não precisava desaparecer quando ganhasse uma câmera. O áudio poderia continuar importante, enquanto o vídeo abriria novas possibilidades de distribuição, recortes de entrevistas, programas completos, transmissões ao vivo e conteúdos consumidos sob demanda. Esse foi, para mim, um de seus maiores acertos.

Uma transmissão publicada na internet não depende de o espectador estar disponível naquele minuto. Pode ser descoberta por busca, recomendação, compartilhamento ou pelo corte de uma entrevista que circulou nas redes. E cada canal pode alimentar os demais, desde que a linguagem seja pensada para a plataforma e que haja equipes dedicadas a desenvolver o relacionamento com o público.

Se eu estivesse diante da decisão estratégica, teria concentrado mais recursos na experiência digital, na participação dos ouvintes, em produtos de áudio, na qualidade dos cortes, na distribuição sob demanda e em iniciativas capazes de criar receitas menos dependentes da publicidade tradicional. Não porque a TV seja inútil, mas porque a Jovem Pan já tinha uma vantagem construída exatamente nesse ambiente.

Demissões, programas cancelados e a discussão sobre crise financeira

A discussão ganhou urgência com as notícias recentes. Em 30 de outubro de 2026, reportagens informaram que a Jovem Pan havia iniciado uma reformulação com demissões e encerramento de programas de entretenimento. Em 4 de novembro, a CartaCapital noticiou outra rodada de desligamentos, incluindo o diretor Fernando Pelegio e mais 15 profissionais da área técnica. Veículos especializados também relataram saídas em junho e julho.

O presidente do grupo, Roberto Araújo, negou que a empresa esteja em crise financeira. Segundo ele, os cortes fazem parte de uma reorganização de prioridades, com encerramento de formatos que não atingiram a sustentabilidade econômica esperada e maior concentração no jornalismo. Essa resposta foi publicada por veículos como o Notícias da TV. É importante registrar a versão da empresa, porque demissões, por si sós, não comprovam insolvência nem permitem calcular suas condições financeiras.

Também não há dados públicos suficientes para afirmar que o investimento na TV aberta provocou as demissões. Os acordos de distribuição foram feitos por parcerias, e os custos detalhados não foram divulgados de maneira que permitisse estabelecer essa relação. O que podemos dizer é que as duas coisas aconteceram no mesmo período: a expansão da cobertura televisiva e o enxugamento de parte da operação. Isso é suficiente para discutir prioridades, mas não para decretar a causa dos cortes.

Mais canais ou mais relacionamento?

Essa é uma dúvida que ultrapassa a Jovem Pan. Empresas tradicionais de comunicação passaram anos tentando colocar o mesmo conteúdo em todas as telas, como se a presença física ou digital garantisse, automaticamente, a preferência do público. Não garante. As pessoas podem encontrar uma marca em dez lugares diferentes e, mesmo assim, não sentir vontade de acompanhá-la em nenhum deles.

A rádio que ouve seu público, o programa que responde a perguntas, o apresentador que reconhece a comunidade e o conteúdo que circula porque alguém realmente deseja compartilhá-lo têm algo que nenhum acordo de distribuição consegue comprar sozinho: vínculo. É essa relação que faz uma pessoa escolher um conteúdo quando existem milhares de opções disputando sua atenção.

Talvez a TV aberta ainda ofereça retornos comerciais relevantes à Jovem Pan. Talvez os acordos sejam economicamente vantajosos e encontrem uma audiência nova. É possível. Mas espero que, na busca por esses telespectadores, a emissora não continue perdendo aquilo que ajudou a torná-la especial para tanta gente: sua identidade de rádio, sua velocidade e a proximidade com quem estava do outro lado.

Eu continuo torcendo para que a Jovem Pan acerte. Só acho curioso que uma empresa tão pioneira na internet tenha escolhido avançar em direção à televisão aberta justamente quando deveria estar perguntando, com mais insistência, como recuperar a conversa com quem já a escutava. Em comunicação, aumentar o alcance é importante. Mas ser encontrado não significa ser escolhido.

Fontes consultadas

Jovem Pan: anúncio oficial da TV aberta em janeiro de 2026; Meio & Mensagem: expansão para 12 praças em outubro de 2026; Meio & Mensagem: explicação dos executivos sobre a TV aberta; Notícias da TV: demissões e posicionamento da Jovem Pan; CartaCapital: desligamentos de novembro de 2026; Kantar IBOPE Media: Inside Video 2025.

Fernando Vítolo é comunicador, jornalista, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo