Conhecido pela narração brasileira de Todo Mundo Odeia o Chris, dublador afirma que sua voz foi disponibilizada na plataforma Fish Audio sem consentimento e utilizada por empresas, políticos e criadores de conteúdo.
A voz que milhões de brasileiros conhecem pela narração do seriado Todo Mundo Odeia o Chris virou motivo de preocupação para o dublador Philippe Maia. Em um vídeo publicado no Instagram, o artista denunciou que sua voz foi clonada por inteligência artificial e disponibilizada sem autorização na plataforma Fish Audio. Segundo ele, a reprodução digital de seu trabalho vem sendo utilizada em vídeos, anúncios comerciais e conteúdos de diferentes segmentos, sem qualquer pagamento ao profissional.
A popularidade da narração, que se tornou uma tendência nas redes sociais, levou milhares de usuários a reproduzir o estilo característico do seriado em vídeos sobre situações cotidianas. O problema, segundo Maia, é que parte dessas publicações utiliza uma versão artificial de sua voz, criada sem seu consentimento.
“Tem muita gente monetizando em cima da minha voz, que é o meu instrumento de trabalho. Eu só ganho dinheiro com isso, não tenho salário”, afirmou o dublador na gravação.
Maia explicou que trabalha de forma autônoma e depende diretamente das contratações de locução e dublagem para obter renda. Ele relata que vendedores de cursos, políticos, profissionais do mercado financeiro, clínicas e estabelecimentos comerciais estão entre os responsáveis pelo uso de sua voz em conteúdos promocionais.
O artista afirma não ter vendido os direitos sobre sua voz nem recebido qualquer remuneração pela utilização da versão sintética.
Plataforma oferece modelo identificado com o nome do dublador
Uma consulta à Fish Audio identificou uma página pública intitulada “Philippe Maia – Dublador”, na qual a plataforma oferece a possibilidade de gerar falas por inteligência artificial a partir de textos digitados pelos usuários.
Na página consultada, o serviço apresentava um contador de 5.070 utilizações do modelo (consultada dia 30/10/2026), número informado pela própria plataforma e sujeito a alterações. O site também anunciava recursos de download e uso comercial. A existência dessa página, porém, não esclarece quem forneceu o material original nem comprova que houve autorização do artista.
Em suas orientações gerais, a Fish Audio afirma que cabe aos usuários assegurar os direitos e consentimentos necessários para clonar uma voz e utilizar os conteúdos produzidos.
Maia, por sua vez, classifica a disponibilização de sua voz como ilegal e informa que já tomou medidas judiciais contra a plataforma e pessoas que teriam explorado comercialmente sua identidade vocal.
“Quem quer contratar uma narração vai até o profissional e faz a contratação”, declarou.
Outros dubladores também relatam o uso indevido de suas vozes

O caso de Philippe Maia está longe de ser isolado. Na própria gravação, ele cita a veterana Selma Lopes, conhecida por dar voz à personagem Marge Simpson, como outra profissional que estaria enfrentando problemas semelhantes.
Dois outros nomes conhecidos da dublagem brasileira já haviam tornado públicos episódios de uso não autorizado de suas vozes.
Em outubro de 2024, Wendel Bezerra, famoso por interpretar Goku em Dragon Ball, revelou ter registrado um boletim de ocorrência após descobrir que sua voz havia sido reproduzida por inteligência artificial para a realização de comerciais sem sua autorização.

Já Manolo Rey, conhecido por dublar o Homem-Aranha interpretado por Tobey Maguire, relatou em entrevista publicada em abril de 2025 que também havia tomado medidas legais depois de identificar sua voz modificada por inteligência artificial em uma ferramenta online.
Os casos reforçam a preocupação de profissionais que veem suas interpretações sendo reproduzidas digitalmente sem que necessariamente participem das novas produções.
Um comentário na publicação de Philippe Maia acrescentou outra denúncia. O internauta @eusaimonlima afirmou que vozes atribuídas a Wendel Bezerra e Manolo Rey estariam sendo utilizadas em transmissões ao vivo no TikTok para receber presentes virtuais convertidos em dinheiro. Esse relato específico sobre as lives, contudo, ainda carece de confirmação independente.
Fish Audio já foi alvo de cobrança internacional
A preocupação com a plataforma citada por Philippe Maia também ultrapassou as fronteiras brasileiras.
Em junho de 2026, o sindicato britânico de artistas Equity anunciou ter enviado uma cobrança formal à Fish Audio, exigindo a remoção de modelos de voz disponibilizados sem autorização de seus integrantes.
Na ocasião, a entidade informou que acompanhava reclamações envolvendo 22 profissionais e solicitou esclarecimentos sobre o tratamento, a distribuição e a possível exploração comercial de gravações e dados dos artistas.
O episódio mostra que a discussão envolve questões de consentimento, remuneração e controle sobre a identidade vocal dos profissionais, especialmente quando ferramentas de inteligência artificial permitem reproduzir características reconhecíveis de uma pessoa.
Internautas cobram regulamentação e responsabilização
A publicação de Philippe Maia também provocou manifestações de apoio de internautas preocupados com os efeitos da inteligência artificial sobre o trabalho artístico.
“Precisamos urgentemente de regulamentação!”, escreveu @marciodondi.
Outro usuário, identificado como @haru_, defendeu a responsabilização dos envolvidos e sugeriu que dubladores atingidos pela reprodução não autorizada de suas vozes poderiam buscar medidas judiciais coletivas.
A discussão toca em uma questão que interessa a locutores, narradores, apresentadores, atores e outros profissionais da comunicação: quem pode autorizar a reprodução digital de uma voz e em quais condições ela poderá ser utilizada comercialmente?
Embora a tecnologia permita novas formas de produção de conteúdo, a facilidade de gerar uma narração artificial não substitui, por si só, a necessidade de respeitar os direitos de quem teve a voz utilizada como referência.
Philippe Maia pede que vídeos sejam apagados
No encerramento de seu pronunciamento, o dublador fez um apelo para que usuários deixem de utilizar sua voz artificial em publicações e retirem do ar conteúdos já produzidos.
Aos responsáveis pela exploração comercial, reforçou que medidas legais estão sendo tomadas.
“Hoje sou eu que estou sendo vítima”, afirmou, antes de mencionar outros colegas da profissão.

O artista também pediu que admiradores, profissionais de televisão e integrantes do setor de dublagem compartilhem sua denúncia.
O caso expõe uma contradição: enquanto a inteligência artificial permite que uma voz conhecida seja reproduzida em poucos segundos, o profissional responsável por torná-la reconhecível pode perder o controle sobre onde, como e por quem ela será utilizada.
Para Philippe Maia, as consequências já são concretas. A voz que ajudou a construir sua carreira agora estaria sendo usada por terceiros sem sua autorização.
Assista ao pronunciamento completo de Philippe Maia no Instagram.
Fontes complementares: Fish Audio, Omelete, VTV News e Equity.










