Um gibi feito com folhas de exercícios de datilografia, um peixinho que abriu as portas do jornalismo e um jornal de humor que transformava o leitor em capa. A carreira de Érico San Juan começou cedo e nunca coube em um único formato.
Natural de Piracicaba, no interior paulista, o ilustrador e caricaturista encontrou no desenho uma forma de se apresentar ao mundo. E não se leva tão a sério a ponto de esconder o prazer de aparecer: “Meu modo de parecer natural é me exibindo com desenhos e conversas”, diz, com o humor que acompanha suas histórias.
O artista é o primeiro personagem da Younik Select, série de perfis dedicada às pessoas por trás de suas escolhas, projetos e realizações. Na entrevista, ele revisita o início nos jornais, uma ruptura decisiva na carreira e os caminhos que encontrou para continuar desenhando, escrevendo e conversando com o público.
O primeiro gibi veio antes do primeiro emprego
Érico desenha desde a infância. Aos seis anos, produziu uma revista em quadrinhos artesanal usando folhas de exercícios do curso de datilografia da mãe. Naquele período, suas referências misturavam as histórias do Tio Patinhas e do Pato Donald, os cadernos infantis dos jornais de Piracicaba, os desenhos do Pica-Pau e de Charlie Brown e livros de João Carlos Marinho e Monteiro Lobato.
O contato com o papel impresso não ficou apenas na leitura. Em 7 de junho de 1987, Érico e o irmão Fábio apareceram em uma reportagem do O Diarinho, página infantil do extinto jornal O Diário, de Piracicaba. No ano seguinte, em 8 de maio de 1988, começaram a publicar desenhos no suplemento, alternando as participações. Érico estreou com a tirinha do peixinho Leco; Fábio publicou O Português na semana seguinte.

Das tirinhas ao Jornal de Piracicaba
Foi o personagem Leco que abriu sua primeira oportunidade profissional. As tirinhas passaram a ser publicadas no suplemento infantil Jornalzinho, do Jornal de Piracicaba, em março de 1990. Em janeiro de 1991, Érico foi contratado pela publicação.
Havia algo de circular nessa conquista. Quando criança, tinha sido leitor daquele mesmo suplemento. Anos depois, estava do outro lado da página, criando desenhos para novos leitores.
Em 1993, começou a publicar no jornal a tirinha Dito, o Bendito, fora do caderno infantil em que trabalhava. A decisão, que parecia apenas mais uma frente criativa, seria importante quando a carreira sofreu um corte inesperado.
A demissão que não interrompeu os desenhos
Érico aponta a saída do Jornal de Piracicaba como uma virada decisiva. Foi demitido em 1997, mas o trabalho autoral que havia desenvolvido continuou abrindo portas. Em outubro daquele ano, quatro meses depois da demissão, a tirinha Dito, o Bendito voltou às páginas do diário.
Ele descreve o retorno como consequência de algo que já havia construído por conta própria: “Um trabalho sem patrão”. A experiência consolidou uma convicção que atravessa seu depoimento. Intuição, persistência e inconformismo, para ele, não são conceitos de palestra; nasceram de dificuldades que exigiram encontrar uma saída.
A partir dali, o desenho continuaria sendo sua linguagem principal, mas os formatos mudariam várias vezes.
Caricatura, salões de humor e um jornal que era a cara do leitor
Quando sentiu que as tirinhas chegavam a um ponto de esgotamento, Érico se voltou para caricaturas destinadas a concursos e salões de humor. Entre os primeiros reconhecimentos dessa etapa, cita a seleção para o livro Noel é 100, dedicado a Noel Rosa, e um convite para a Bienal Internacional da Caricatura do Rio de Janeiro.

A experiência também deu origem ao Caricaras, jornal de humor concebido e editado por ele. O tabloide circulou durante quatro anos em eventos e teve sete edições, com mil exemplares cada.
O detalhe mais original estava na capa. Parte dela permanecia em branco até que alguém comprasse o jornal. Naquele espaço, Érico desenhava ao vivo uma caricatura do próprio leitor. O slogan sintetizava a proposta: “Um jornal que é a sua cara”.
Mais que vender uma publicação, o caricaturista criava um encontro. Cada exemplar saía diferente porque carregava o rosto de quem o levaria para casa.
Capiau: o humor impresso continua vivo
Hoje, Érico acumula atividades que vão além da ilustração. É editor e autor do jornal de humor Capiau, encarte mensal do diário A Tribuna Piracicabana, com presença digital no Instagram @capiau.humor.

O projeto também ganhou um podcast, no qual entrevista nomes do cartum e dos quadrinhos brasileiros. Em vídeo, Érico atua como apresentador, roteirista e caricaturista do programa semanal Caricatura Também é Cultura.
As produções audiovisuais são gravadas nos estúdios da Younik. O artista também destaca as ilustrações publicadas em livros de Fernando Vítolo e a parceria nos quadrinhos Desenha Resenha, trabalhos que considera alegrias recentes e duradouras.
A passagem do papel para o microfone e para a câmera não significou abandonar o desenho. Ao contrário: foi uma maneira de levá-lo a outros públicos.
“O humor acabou”: o olhar irônico de Érico San Juan
Questionado sobre uma opinião capaz de provocar discordâncias, Érico não hesita: “O humor acabou.” A frase vem acompanhada de uma provocação sobre o risco de cancelamento para quem pratica humor diante de grandes audiências. A resposta combina ironia e crítica, sem perder o tom de quem passou décadas desenhando justamente sobre as contradições humanas.
O olhar curioso aparece também fora da prancheta. Érico recomenda dois filmes para quem deseja ampliar a formação cinematográfica: Meu Tio, de Jacques Tati, e Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder. Conta ainda que costuma acordar pouco depois das cinco da manhã, convocado pelas patadas de sua gata.
E os cem reais mais bem gastos recentemente? Três CDs de cantoras pouco conhecidas ou pouco valorizadas, segundo ele. A compra é uma pequena declaração de gosto pessoal e, sobretudo, de tolerância ao diferente.

Continuar sendo reconhecido pelo próprio traço
Para o futuro, Érico quer seguir combinando arte e comunicação. Sabe que os suportes mudam e que a circulação digital ocupa cada vez mais espaço. Ainda assim, enxerga uma continuidade entre o gibi montado na infância, os jornais impressos, os salões de humor, o podcast e os vídeos.
A preocupação central não é preservar um formato a qualquer custo, mas manter a identidade daquilo que cria. Se alguém se identifica com o trabalho, a história deixa de ser apenas do autor e passa a fazer parte da experiência do público.
É essa independência que aparece no conselho dado a quem deseja começar na área. Primeiro, ele recomenda desconfiar de conselhos fáceis. Depois, admite que encontrar a própria direção pode ser difícil, irregular e nem sempre rentável. Ainda assim, acredita que vale a pena.
Ao responder à entrevista, Érico termina com uma confissão bem-humorada: pensava ser tímido e de poucas palavras. As respostas mostram o contrário. Talvez seja apenas mais uma maneira de fazer o que sempre fez: contar histórias enquanto desenha a própria.
Érico San Juan é ilustrador e caricaturista de Piracicaba (SP). Acompanhe o trabalho do artista em @ericosanjuan.
Imagem de destaque: retrato editorial produzido digitalmente para a Younik Select, a partir de fotografias autorizadas pelo entrevistado.
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