Chef e sócia da Belka Cafeteria Russa, em São Paulo, ela fala sobre imigração, maternidade, choques culturais e o desafio de apresentar os sabores russos sem perder a própria identidade
No início de 2022, Yulia acordou, olhou para as duas filhas e entendeu que a vida de sua família precisava mudar. Não havia um destino definido, um plano perfeito ou qualquer garantia de que tudo daria certo. Havia apenas a convicção de que era necessário buscar um futuro diferente.
“Lembro de acordar em um dia comum e perceber que o mundo que conhecíamos havia mudado drasticamente da noite para o dia. Naquele instante, olhando para as minhas filhas, tive a certeza absoluta de que precisava buscar um futuro seguro e livre para elas”, conta.
A chegada ao Brasil aconteceu quase por acaso. Outros caminhos chegaram a ser considerados, mas foi aqui que a família encontrou acolhimento e decidiu reconstruir a vida. A adaptação, entretanto, cobrou um preço alto.
Na Rússia tinham uma casa confortável, negócios estruturados durante anos de trabalho e, principalmente, familiares e amigos. Yulia sente saudade dos pais e vive preocupada com o irmão, que continua no país.
“Recomeçar do zero, sem uma rede de apoio, sem parentes por perto e reaprendendo a construir laços de amizade foi o maior desafio que já enfrentei”, afirma. “Toda a nossa história ficou na Rússia, mas a nossa esperança e o nosso futuro estão sendo construídos aqui.”
Um recomeço servido em camadas
Confeiteira e empreendedora, Yulia transformou a gastronomia em uma ponte entre os dois países. Na Belka Cafeteria Russa, da qual é chef e sócia, ela começou a apresentar aos brasileiros receitas tradicionais russas e europeias.

O primeiro desafio foi compreender um paladar bastante diferente daquele com o qual estava acostumada.
Segundo Yulia, grande parte da confeitaria brasileira tem como base sabores intensamente doces, com ingredientes como leite condensado e doce de leite. Apesar de se considerar apaixonada por sobremesas, ela conta que, quando chegou ao país, muitas vezes não conseguia terminar um doce por causa da quantidade de açúcar.
Ainda assim, precisava conquistar os clientes sem descaracterizar suas receitas. A solução foi encontrar um ponto de encontro entre as duas culturas.
A primeira aposta foram os Oreshki, pequenos doces russos em formato de noz. A massa menos açucarada era combinada com um recheio de doce de leite bem cozido, sabor já conhecido e querido pelos brasileiros.
A estratégia funcionou.
Com a boa recepção, Yulia ganhou confiança para apresentar o Prianik, bolo tradicional de mel semelhante ao pão de mel brasileiro. Aos poucos, outros produtos foram entrando na vitrine da cafeteria.
Nesse processo, ela também precisou aprender a interpretar o comportamento dos clientes paulistanos.
“Perguntar diretamente se a pessoa gostou quase nunca funciona. Por educação, os brasileiros sempre dizem que está tudo maravilhoso. Então, o meu verdadeiro termômetro passou a ser o caixa: observar o que esgotava e o que sobrava na vitrine”, explica.
Foi assim que o Zefir, uma espécie de marshmallow russo feito à base de maçã, acabou retirado do cardápio. A textura causava estranhamento e o produto não tinha uma boa saída.
Outros doces percorreram o caminho oposto. O Medovik, bolo de mel em camadas, e o Napoleão, preparado a partir de uma antiga receita de família que Yulia promete jamais revelar, tornaram-se clássicos da casa.
Ao mesmo tempo, a Belka passou a criar suas próprias tradições brasileiras. Aos sábados, a cafeteria oferece um bolo de cenoura com calda de caramelo salgado de laranja. Segundo Yulia, há clientes que atravessam a cidade especialmente para buscá-lo.
Mesmo diante das exigências comerciais, ela estabeleceu um limite: não aumentaria a quantidade de açúcar das receitas originais apenas para agradar ao público.
“A filosofia da Belka é justamente o oposto. Os clientes vêm até nós procurando esse equilíbrio europeu, com menos açúcar. O nosso trabalho é um eterno laboratório.”
Quando o choque cultural deixa de ser engraçado
Nas redes sociais, Yulia costuma abordar com humor as diferenças entre russos e brasileiros. O abraço no primeiro encontro, as combinações no prato e as formas de demonstrar afeto são alguns dos temas que aparecem em seus vídeos.

Nem toda experiência, porém, virou uma lembrança divertida.
Pouco depois de a família se mudar para uma nova casa, uma festa durante a madrugada provocou um conflito com um vizinho. Como precisavam acordar às 5h, o marido de Yulia foi pedir que o volume fosse reduzido.
Segundo ela, o vizinho reagiu de maneira agressiva e fez uma denúncia falsa à polícia, afirmando que o marido estaria armado. Por volta da meia-noite, policiais chegaram à residência e abordaram o casal.
“Fomos surpreendidos com policiais armados na nossa porta, com lanternas no rosto. Fomos tirados de casa e revistados no meio da noite. Foi um verdadeiro trauma”, recorda.
De acordo com Yulia, os policiais compreenderam a situação e evitaram acordar as meninas. Ela conta que também recebeu a orientação de não confrontar diretamente vizinhos em situações semelhantes, recorrendo às autoridades para mediar o problema.
A experiência mudou seu entendimento sobre segurança e sobre a maneira como conflitos cotidianos podem ser tratados no Brasil. Em uma ocasião mais recente, diante de outro episódio de barulho, a família acionou a polícia diretamente e a situação foi resolvida sem confronto.
Duas filhas e um futuro em português
Entre todas as conquistas da nova vida, nenhuma parece emocionar Yulia mais do que a adaptação das filhas.
A mais velha, de 18 anos, é descrita pela mãe como artística e criativa. Ela dominou o português, está terminando a escola com bons resultados e vive o momento de escolher os próximos caminhos profissionais.
A caçula, de 12 anos, conquistou uma bolsa de estudos graças ao desempenho acadêmico. A professora de português chegou a dizer que, em algumas avaliações, a menina escreve melhor do que muitos alunos brasileiros.
Para Yulia, acompanhar o crescimento das filhas é a confirmação de que o sacrifício de deixar a Rússia valeu a pena.
“Tenho um orgulho imenso delas. Passar por um processo de imigração e adaptação é extremamente pesado para qualquer adulto e, para uma criança, o desafio é dobrado. O Brasil abriu horizontes maravilhosos para o futuro das duas.”
Na cozinha e fora dela, a história de Yulia é construída por combinações improváveis. O doce de leite brasileiro encontrou uma massa russa. O bolo de cenoura ganhou caramelo salgado de laranja. As receitas de família passaram a ser explicadas em português. E duas meninas que precisaram deixar um país para trás agora escrevem o próprio futuro em uma nova língua.
“Nossas filhas são o nosso maior tesouro e a maior certeza de que todo o esforço valeu a pena”, conclui Yulia.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










