O pedido para afastar empresas de apostas da Lei Rouanet é coerente; transformar os cassinos digitais na explicação para o esvaziamento dos shows já exige uma fé digna de apostador
Paula Lavigne fez dois argumentos diferentes durante uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um deles é coerente e merece ser levado a sério. O outro ainda precisa passar pela conferência dos fatos — de preferência antes do fechamento das apostas.
A produtora afirmou que, em 40 anos promovendo espetáculos, nunca havia presenciado tantas plateias vazias. Em seguida, associou o fenômeno ao avanço das plataformas de apostas no Brasil.
“As plateias estão vazias, vazias”, disse Paula, segundo registraram Veja e Pleno.News.
A produtora também observou que, quando o show é gratuito, o público comparece e lota o espaço. Eis uma informação que talvez explique mais sobre o problema do que todo o restante do discurso: quando não há ingresso para comprar, desaparece a dificuldade de comprar o ingresso.
Ainda assim, as bets foram apresentadas como protagonistas do esvaziamento.
Pode ser que parte do dinheiro antes destinado ao lazer esteja realmente terminando nas plataformas de apostas. É uma hipótese plausível e digna de investigação. Mas, nas declarações divulgadas, não foi apresentado estudo, levantamento de bilheteria ou pesquisa de consumo que demonstre essa relação direta.
Entre existir uma epidemia de apostas e concluir que ela esvaziou os shows há uma distância razoável — justamente aquela que costuma separar uma hipótese de um fato.
A variável inconveniente chamada preço
Nas redes sociais, parte do público sugeriu explicações menos sofisticadas.
Tulio Mota citou ingressos na faixa de R$ 300 e comparou o peso desse valor sobre a renda do brasileiro com o custo relativo de apresentações de Beck, David Byrne e Bob Dylan em seus países. Independentemente da precisão da conta para cada show, a questão levantada é pertinente: quanto do salário de uma pessoa é necessário para ocupar uma cadeira na plateia?
Outro internauta resumiu o cenário dizendo que o dinheiro “mal dá para o mercado”. Um terceiro questionou se todos os shows estariam vazios e considerou falaciosa a associação automática entre apostas e queda de público.
Comentários de redes sociais não substituem pesquisa econômica. Mas a fala da produtora também não trouxe uma.
Preço elevado, perda de poder de compra, inflação dos serviços, taxas de venda, excesso de oferta, mudança de hábitos e concorrência com o entretenimento digital são explicações que não podem ser eliminadas da conta simplesmente porque as bets se tornaram — com bastante merecimento — as vilãs da vez.
Culpar o cassino no celular por todo lugar vazio na plateia é tentador. O cassino não divulga nota sobre o preço do ingresso nem pede meia-entrada.
Onde Paula está certa
O trecho completo da fala esclarece que Paula não estava pedindo o uso da Lei Rouanet para socorrer grandes artistas. Seu pedido era outro: caso o governo não consiga impedir a atuação das bets no Brasil, que pelo menos não permita que essas empresas utilizem a Rouanet como instrumento de patrocínio e promoção de marca.
“Se o senhor não conseguir impedir que tenha bet no Brasil, não deixe que essas bets usem isso”, pediu ela, referindo-se à lei.
Nesse ponto, seu raciocínio é consistente.
Paula argumentou que nomes como Caetano Veloso, Marisa Monte, Anitta e Emicida possuem força para recusar um patrocínio. O artista pequeno, sem a mesma independência financeira ou poder de negociação, pode não ter essa escolha: aceita o dinheiro ou não realiza o espetáculo.
Como a própria produtora lembrou, o patrocínio pela Rouanet oferece retorno de imagem. A definição está de acordo com a explicação do Ministério da Cultura: a empresa patrocinadora pode associar sua marca ao projeto selecionado e utilizar o investimento em sua estratégia de comunicação. O funcionamento é detalhado pelo próprio ministério.
Permitir que empresas de apostas usem esse mecanismo significaria oferecer-lhes uma forma de vincular suas marcas à cultura com recursos provenientes de renúncia fiscal. Também colocaria pequenos artistas diante de uma escolha delicada: associar sua imagem ao setor ou perder uma oportunidade de financiamento.
Portanto, discutir uma vedação é legítimo. Dinheiro de patrocínio nunca chega sozinho; costuma trazer a marca pela mão.
A contradição está no próprio modelo
A fala de Paula também ilumina um problema mais amplo da Lei Rouanet.
A aprovação de um projeto pelo Ministério da Cultura não significa que o artista receberá dinheiro. Ela apenas concede autorização para captar. Depois disso, cabe ao próprio proponente procurar pessoas ou empresas dispostas a financiar a proposta.
O portal oficial do governo é explícito: nessa etapa, o Ministério da Cultura não interfere. O artista precisa apresentar seu projeto às empresas e buscar o patrocínio. A descrição do processo pode ser consultada no serviço oficial da Lei de Incentivo à Cultura.
Em outras palavras, o Estado autoriza, mas o departamento de marketing escolhe.
E qual projeto tende a oferecer retorno de imagem mais imediato: o de um artista desconhecido, sem estrutura comercial, ou aquele associado a um nome que já chega com público, imprensa e milhões de seguidores?
A lei não proíbe o pequeno de captar. Apenas o coloca para disputar a atenção das empresas com organizações e produtores muito mais conhecidos. É uma competição perfeitamente aberta, no mesmo sentido em que uma corrida entre uma bicicleta e uma Ferrari também pode ter a largada aberta para todos.
Paula declarou que os grandes artistas citados por ela “realmente não usam Lei Rouanet”. Por isso, seria incorreto afirmar, sem examinar projetos específicos, que o atual show de Caetano Veloso seja financiado pelo mecanismo.
A crítica mais sólida não depende dessa afirmação. O problema está em um sistema no qual a capacidade de captar recursos é influenciada pela visibilidade, pelos contatos, pela estrutura profissional e pelo interesse promocional do patrocinador.
Se a política pública pretende ampliar a diversidade cultural, deveria criar proteções e canais de financiamento ainda mais fortes para iniciantes, pequenos produtores, artistas periféricos e projetos realizados longe dos grandes centros. Autorizar todos a buscar patrocínio não significa oferecer a todos a mesma chance de encontrá-lo.
Nem toda cadeira vazia fez uma fezinha
Paula está certa ao alertar para a dependência dos pequenos artistas e para o risco de transformar a cultura em vitrine das casas de apostas. Também é razoável defender que empresas desse setor não se beneficiem de renúncia fiscal para promover suas marcas.
Mas isso não prova que as bets sejam responsáveis pelas plateias vazias.
Para demonstrar essa relação, seriam necessários dados sobre venda de ingressos, perfil do público, renda disponível, preços e despesas com apostas. Sem isso, temos uma hipótese — não um diagnóstico.
As bets podem ser um horror e, ao mesmo tempo, o ingresso pode estar caro. Uma coisa não absolve a outra.
Antes de pedir ao governo uma solução para as cadeiras vazias, talvez seja útil consultar quem deveria estar sentado nelas. O público pode até apostar. Mas, quando olha o preço do show e decide ficar em casa, sua decisão talvez seja bem menos misteriosa.










