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“Morte Acidental de um Anarquista”: a peça que fez Henrique Stroeter escolher a profissão

Em cartaz no Teatro Estúdio, montagem celebra 11 anos e o centenário de Dario Fo com uma comédia sobre poder, Justiça e a fabricação de versões oficiais.

Henrique Stroeter tinha 16 anos e ainda não sabia o que faria da vida quando assistiu a Antonio Fagundes em “Morte Acidental de um Anarquista”. A experiência não terminou quando as luzes do teatro se apagaram. Ficou guardada — e acabou determinando sua escolha profissional.

“Foi ali que nasceu a semente de eu querer ser ator. Aquilo ficou maturando dentro da minha cabeça, como um vinho. Eu estudei jornalismo, mas aquilo sempre me rondava. Foi determinante para eu ser ator.”

Décadas depois, Stroeter não apenas integrou a obra à própria trajetória: está no elenco desde a estreia, em 2015, da montagem dirigida por Hugo Coelho. Agora, o espetáculo retorna ao Teatro Estúdio para celebrar 11 anos de temporada e o centenário de Dario Fo, vencedor do Nobel de Literatura de 1997.

Escrita por Dario Fo e Franca Rame no início dos anos 1970, a comédia nasceu de um caso ocorrido em Milão, em 1969. Um anarquista acusado de envolvimento em atentados morreu ao cair de uma janela durante um interrogatório policial. As versões contraditórias apresentadas pelas autoridades tornaram o episódio ainda mais nebuloso.

Na ficção, um homem conhecido como Louco é detido por falsidade ideológica e consegue se passar por um juiz corregedor. Mais esperto que os policiais, ele conduz uma investigação tão absurda quanto reveladora, expondo incoerências, abusos e tentativas de manipulação da verdade.

De escândalo em escândalo

Mais de meio século após sua criação, o texto parece dialogar diretamente com o noticiário contemporâneo. Para Stroeter, essa atualidade não é exclusividade brasileira, mas consequência da forma como a obra investiga a relação do ser humano com as leis e as instituições.

“Ela é atual porque trata, sobretudo, da Justiça: de como o ser humano lida com as leis e de como ela é manipulada. Os escândalos vão pontuando uma época da civilização e vamos pulando de um escândalo para outro.”

Se o Brasil oferece exemplos abundantes, o ator observa que o fenômeno ultrapassa fronteiras. “O Brasil é um centro de escândalos. Mas não só o Brasil: o mundo todo. Tudo o que está acontecendo no mundo tem muito a ver com o que Dario Fo escreveu”, afirma.

Além da direita e da esquerda

Em uma época marcada pela polarização, Stroeter rejeita a ideia de que o espetáculo fale somente a uma plateia politicamente convertida. Segundo ele, a crítica proposta por Dario Fo não se limita a um campo ideológico específico.

“Essa peça não é de convertidos de nenhum lado. Ela não fala de direita nem de esquerda; fala da política acima de tudo isso. Satiriza a relação do homem com a polícia e com a Justiça.”

A montagem reforça essa aproximação ao receber o público ainda no hall e contextualizar o episódio real antes do início da trama. Durante a apresentação, a plateia é convidada a participar e ajuda o Louco a desmontar a versão construída pelos policiais. O jogo permite que fatos e comentários sobre a realidade política e social do país entrem em cena.

Com Marcelo Laham à frente do elenco — atuação que lhe rendeu o Prêmio Prio de Humor em 2023 —, a produção já ultrapassou 450 apresentações, passou por 27 cidades e foi vista por mais de 250 mil espectadores. Números que ajudam a dimensionar a força de uma comédia nascida de uma tragédia e mantida viva pela repetição histórica de seus temas.

Para Stroeter, o segredo da longevidade está justamente no alvo escolhido por Dario Fo. Governos e escândalos mudam; a disputa por poder permanece. “Isso, infelizmente, não muda: a relação do homem com o poder e com a política.”

SERVIÇO

EspetáculoMorte Acidental de um Anarquista
LocalTeatro Estúdio
QuandoTerças e quartas-feiras, às 20h
IngressosR$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia), pela Sympla
ClassificaçãoNão recomendado para menores de 12 anos

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo