Heródoto Barbeiro relembra arenas construídas no país e questiona o destino de estruturas que custaram bilhões aos cofres públicos
Eles foram apresentados como símbolos de modernização, grandes obras capazes de deixar um legado para o esporte e para as cidades brasileiras. Anos depois, alguns dos estádios construídos ou reformados para grandes eventos esportivos passaram a ser lembrados por outro nome: elefantes brancos.
Na coluna, Heródoto Barbeiro recupera essa expressão para questionar o destino de grandes arenas construídas no Brasil e o tamanho dos investimentos feitos em estruturas que, em alguns casos, enfrentam dificuldades para alcançar uma utilização compatível com o custo de construção e manutenção.
“Os nossos elefantes brancos continuam esperando para ver para que manada eles vão ser levados”, brinca o jornalista ao final da reflexão.
Obras que custaram bilhões
Um dos exemplos citados por Heródoto é o Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília.
Construído para a Copa do Mundo de 2014, o estádio passou por uma grande reconstrução e se tornou uma das arenas mais caras do país. O custo da obra ficou próximo de R$ 1,6 bilhão, valor que provocou questionamentos desde antes da inauguração.
Outro exemplo lembrado pelo jornalista é o Estádio Arthur Marinho, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, citado como uma estrutura que chegou a enfrentar períodos de abandono.
Heródoto também menciona a Arena da Amazônia, em Manaus, construída para a Copa de 2014. O estádio custou centenas de milhões de reais e foi projetado para receber partidas da competição internacional, além de outros eventos.
O problema apontado pela coluna não é simplesmente o fato de os estádios terem sido construídos para uma Copa do Mundo.
A questão é o que acontece depois que o grande evento termina.
O que fazer com uma arena depois da Copa?
Grandes eventos esportivos têm uma característica inevitável: são temporários.
A Copa do Mundo passa. As Olimpíadas passam. O investimento, porém, permanece.
Um estádio construído para receber dezenas de milhares de torcedores precisa encontrar uma função econômica e esportiva que justifique sua existência nos anos seguintes.
Quando isso não acontece, surge o chamado “elefante branco”: uma obra monumental, cara de manter e utilizada muito abaixo de sua capacidade.
É essa conta que preocupa.
Não basta construir. É preciso saber quanto custará manter a estrutura, quem vai utilizá-la, quantos eventos conseguirá receber e quais receitas serão capazes de sustentar sua operação.
O contraste com um estádio no Texas
Heródoto estabelece ainda uma comparação provocativa com um estádio nos Estados Unidos.
Segundo ele, a arena localizada no Texas teria custado cerca de R$ 1,8 bilhão — valor semelhante ao de algumas das grandes arenas brasileiras.
A diferença, porém, estaria na estrutura oferecida.
O estádio norte-americano possui teto retrátil e sistema de climatização. Em uma região onde as temperaturas externas podem chegar a cerca de 40 graus Celsius, o ambiente interno pode ser mantido em aproximadamente 23 graus.
A comparação levanta uma questão importante: não é apenas quanto uma obra custa, mas o que ela entrega pelo dinheiro investido.
Uma construção cara pode ser considerada um investimento se tiver utilização intensa, gerar receitas, movimentar a economia local e cumprir uma função para a população.
O problema aparece quando bilhões são investidos em estruturas que, depois do evento que justificou sua construção, passam boa parte do tempo subutilizadas.
O legado que ficou
A expressão “legado” foi uma das palavras mais utilizadas para justificar grandes investimentos em infraestrutura durante os preparativos para megaeventos esportivos.
A promessa era que as cidades não receberiam apenas partidas de futebol ou competições internacionais, mas também equipamentos capazes de continuar sendo utilizados pela população.
O desafio é medir esse legado.
Quanto um estádio recebe de eventos por ano? Quanto arrecada? Quanto custa para funcionar? Quem paga pela manutenção? A estrutura consegue gerar recursos suficientes para sua própria operação?
São perguntas que deveriam fazer parte da avaliação de qualquer grande obra pública.
Porque o custo de um estádio não termina quando a construtora entrega as chaves.
Há funcionários, segurança, energia, manutenção do gramado, conservação da estrutura, limpeza, reformas e outros gastos permanentes.
O verdadeiro tamanho do “elefante”
A provocação de Heródoto Barbeiro vai além dos estádios.
Um “elefante branco” não é necessariamente uma obra que não recebe ninguém. É uma obra cujo tamanho, custo ou capacidade não encontra correspondência na demanda que deveria atender.
E esse conceito pode ser aplicado a qualquer grande investimento público.
A pergunta fundamental deveria ser feita antes — e não depois — da construção:
Para que essa estrutura servirá quando o evento acabar?
No caso dos estádios brasileiros, essa pergunta continua relevante.
Porque uma arena pode ser moderna, gigantesca e impressionante.
Mas, se passa a maior parte do tempo vazia e exige recursos públicos para continuar funcionando, o problema deixa de ser apenas arquitetônico ou esportivo.
Passa a ser uma discussão sobre planejamento, dinheiro público e prioridade.
E é justamente aí que os elefantes brancos brasileiros continuam à espera de uma manada que lhes dê alguma utilidade.










