Em entrevista ao podcast Você Está Contratado, Maria Emilia Velloso explica por que salário, cargo e sucesso profissional nem sempre são suficientes para construir uma vida com sentido
Um bom emprego, salário competitivo, estabilidade e uma carreira que avança. Visto de fora, tudo pode parecer estar funcionando perfeitamente. Mas isso significa que aquela vida faz sentido para quem está vivendo?
Essa foi uma das discussões centrais da participação de Maria Emilia Velloso no podcast Você Está Contratado, apresentado por Marcelo Nóbrega e Jederson Beck. Pesquisadora de bem-estar, felicidade e sentido no trabalho, ela defende que a resposta começa muito antes da escolha de uma profissão: começa pelo conhecimento sobre quem somos e sobre aquilo que realmente valorizamos.
Maria Emilia chama atenção para uma pergunta que quase todo mundo ouviu na infância: “O que você quer ser quando crescer?”. Embora pareça uma pergunta sobre identidade, normalmente espera como resposta uma profissão. Médico, advogado, engenheiro, professor. Aprende-se desde cedo a pensar sobre o que fazer, mas muito menos sobre quem ser.
O problema aparece quando essa lógica continua pela vida adulta. Sem clareza sobre valores, desejos e limites, é fácil adotar como próprias as definições de sucesso construídas pelos outros: trabalhar em determinada empresa, alcançar determinado cargo, ganhar determinado salário. E aí surge também a comparação. O amigo que já foi promovido, o colega que ganha mais, a pessoa que mudou de emprego três vezes enquanto você continua no mesmo lugar.
Para Maria Emilia, o risco é construir uma carreira que atende a todos os critérios tradicionais de sucesso e ainda assim produzir uma sensação persistente de vazio.
Quando o sofrimento vira normal
Durante a conversa, Maria Emilia utiliza o conceito de normose para falar da normalização daquilo que não deveria ser normal. Trabalhar permanentemente esgotado, sentir culpa ao descansar, reclamar todos os dias do trabalho ou conviver constantemente com ansiedade podem se tornar hábitos tão comuns que deixam de ser questionados.
Isso não significa que um dia ruim seja sinal de que é hora de pedir demissão. A própria entrevista reforça a importância de identificar o que está provocando o incômodo antes de tomar decisões. O problema está no padrão.
Se todos os dias terminam em frustração, irritação ou sensação de esgotamento, talvez a pergunta não seja simplesmente “como aguentar mais?”, mas “o que exatamente está errado aqui?”.
A resposta pode estar na empresa, na liderança, na atividade exercida ou até nas expectativas que a própria pessoa criou sobre carreira e sucesso.
Trabalho é importante. Mas não pode ser tudo
Maria Emilia também questiona a ideia de que todo o sentido da vida precisa vir do trabalho. A carreira tem um papel importante na construção de identidade, realização e reconhecimento, mas se ela se torna a única fonte de significado, qualquer crise profissional ganha uma dimensão muito maior.
É por isso que relações, saúde, aprendizado, interesses pessoais e momentos de pausa também precisam existir.
E talvez um dos sinais mais claros de como nossa relação com produtividade se distorceu seja a culpa por parar.
“Hoje a gente se sente culpado por parar e não tem como a gente performar, o nosso corpo, a nossa mente, se a gente não tiver momentos que quebrem esse ciclo que a gente vive”, afirma Maria Emilia.
A pausa, segundo ela, não precisa ser algo grandioso. Pode ser ler um livro, praticar um esporte, respirar por alguns minutos ou encontrar um amigo. O importante é criar momentos capazes de interromper o piloto automático e abrir espaço para reflexão.
No fim, talvez a pergunta mais importante sobre carreira não seja apenas quanto você ganha, qual cargo ocupa ou onde trabalha.
É mais simples e provavelmente mais difícil de responder:
A vida que você construiu funciona. Mas faz sentido para você?










