Geopolítica

O que a China entendeu que o Brasil ainda não entendeu?

Após uma imersão no país asiático, Marcelo Nóbrega e Danilo Dias conversam com Rafa Braz, no podcast da IBRA, sobre tecnologia, inteligência artificial, RH, liderança e a velocidade chinesa para transformar ideias em realidade

Robôs circulando por hotéis, carros elétricos dominando as ruas, pagamentos feitos praticamente sem dinheiro ou cartão e aplicativos que concentram boa parte da vida cotidiana. A tecnologia naturalmente chamou a atenção de Marcelo Nóbrega e Danilo Dias durante uma recente imersão na China, mas a experiência trouxe uma provocação maior para a conversa com Rafa Braz no podcast da IBRA: o que separa China e Brasil talvez tenha tanto a ver com velocidade, escala e capacidade de execução quanto com acesso à tecnologia. A pergunta aparece já na abertura do episódio: “E se o problema do Brasil não for falta de tecnologia? E se for falta de velocidade, falta de escala, falta de disciplina na execução?”.

Os executivos, ambos com longa trajetória em Recursos Humanos, percorreram cidades e visitaram empresas, universidades e outras instituições. Para quem já havia estado na China anos atrás, a transformação foi particularmente visível. O relato destaca cidades modernas, infraestrutura, digitalização e uma integração da tecnologia ao cotidiano que surpreende justamente porque muitas soluções deixaram de parecer novidade. Pagamentos, reservas, compras e serviços são realizados pelo celular, enquanto os chamados super apps reúnem funções que no Brasil normalmente estão distribuídas entre diversas plataformas.

Um dos exemplos mais curiosos veio dos hotéis. Em vez de o entregador de comida esperar o hóspede descer até a recepção, o pedido pode ser colocado em um robô que segue sozinho até o quarto. O episódio é usado para ilustrar uma característica percebida durante toda a viagem: a busca por reduzir esperas, etapas e atritos. A tecnologia aparece ligada a problemas bastante objetivos do dia a dia e ao ganho de tempo de quem trabalha ou consome.

A capacidade de execução também apareceu longe das máquinas. Durante um imprevisto no roteiro, um grupo de cerca de 30 pessoas chegou atrasado para o almoço e precisou mudar os planos. Sem uma estrutura previamente combinada, a guia encontrou um restaurante e, segundo o relato, em cerca de dez minutos a refeição estava organizada. Para os visitantes, situações como essa ajudaram a desfazer a ideia de que a disciplina chinesa significaria necessariamente rigidez. Eles encontraram também disposição para improvisar, testar, adaptar e resolver problemas rapidamente.

Quando a conversa passa para gestão de pessoas, surgem diferenças igualmente interessantes. Os executivos perceberam grande valorização da formação técnica e de conhecimentos ligados a engenharia, robótica e tecnologia, enquanto temas comportamentais e programas de desenvolvimento de liderança pareceram menos presentes em algumas das empresas visitadas. A estrutura hierárquica também foi percebida como mais forte, acompanhada por uma orientação muito clara para execução. Ao mesmo tempo, o grupo encontrou profissionais bastante jovens ocupando posições relevantes em empresas de tecnologia.

A inteligência artificial aproxima ainda mais a experiência chinesa das discussões atuais dentro das empresas brasileiras. Em uma das organizações visitadas, profissionais de Recursos Humanos já utilizavam agentes de IA em tarefas da área, incluindo recrutamento e seleção. O caso chamou a atenção porque pessoas sem formação em engenharia ou programação passaram a desenvolver soluções que anteriormente dependeriam diretamente dos departamentos de tecnologia. Para o RH, isso aponta para uma mudança importante: conhecer profundamente o problema pode se tornar tão relevante quanto dominar tecnicamente as ferramentas usadas para solucioná-lo.

A viagem também deixou uma ressalva recorrente durante o episódio. China e Brasil têm histórias, culturas e formas de organização muito diferentes, e os próprios participantes lembram que não é possível interpretar aquela realidade simplesmente aplicando os referenciais ocidentais. A imersão representa ainda um recorte limitado de um país gigantesco e complexo. Mesmo assim, a comparação produz perguntas úteis para empresas e profissionais brasileiros, principalmente quando se observa a combinação chinesa de planejamento de longo prazo, formação técnica, investimento e velocidade para colocar soluções em prática.

Ao longo da conversa, China e Brasil aparecem com virtudes diferentes. Os brasileiros são associados à capacidade de relacionamento, diversidade e cuidado com pessoas; os chineses impressionaram principalmente pela execução e pela disposição de avançar rapidamente. O ponto de encontro talvez esteja justamente aí. Em um cenário no qual inteligência artificial, automação e novos modelos de trabalho estão transformando empresas em ritmo acelerado, talento e criatividade continuam importantes, mas o tempo entre perceber uma mudança e efetivamente agir sobre ela tende a ser cada vez menor.

E foi essa talvez a principal lembrança trazida da China: o futuro deixa de parecer tão distante quando alguém começa a colocá-lo em prática.