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Humor

Nem todo sorriso revela tranquilidade

“Somos operários do riso”: Marcos Aguena fala sobre a pressão de viver fazendo humor

Quem vê um humorista arrancando gargalhadas do público dificilmente imagina o que acontece quando as luzes do palco se apagam. Existe uma cobrança silenciosa para que essas pessoas sejam engraçadas o tempo todo, como se o bom humor fosse um estado permanente e não uma profissão.

Para o humorista e comunicador Marcos Aguena, conhecido nacionalmente como Japa do Pânico, essa expectativa faz parte da carreira, mas nem sempre é fácil de administrar.

“As pessoas que me conhecem da televisão ou do rádio acham que a gente é engraçado 24 horas por dia. Muitas não entendem que somos trabalhadores, operários do riso”, afirma.

Segundo ele, situações em que alguém insiste para que conte uma piada, faça uma imitação ou interprete um personagem podem se tornar cansativas. Ainda assim, Marcos encara isso como uma consequência natural da exposição.

“Faz parte, entre aspas, do peso da fama. As pessoas não são obrigadas a conhecer os bastidores do nosso trabalho.”

O humor também cuida de quem faz rir

Ao contrário do que muitos imaginam, Marcos diz que nunca sentiu culpa por precisar fazer o público rir em momentos difíceis de sua vida. Pelo contrário. Ele enxerga o humor como uma espécie de terapia.

“Quando vejo uma pessoa rir, sinto que estou cumprindo a minha missão. Isso faz bem para a minha autoestima.”

Essa visão aparece diversas vezes durante a conversa. Para ele, o palco e o microfone funcionam como uma válvula de escape não apenas para quem assiste, mas também para quem vive da comédia.

“O humor deixa a nossa vida mais leve.”

O personagem como proteção

Durante muitos anos, Marcos Aguena foi conhecido principalmente pelo personagem Japa do Pânico. Segundo ele, houve um período em que o personagem acabou escondendo sua própria identidade.

“No começo, o Marcos ficava escondido atrás do Japa. O personagem é uma máscara. De certa forma, ele também protege.”

Ele explica que existe diferença entre quem é no palco e fora dele.

“No palco a gente exagera mais. Existe uma persona. Mas a essência continua sendo a mesma: levar leveza para a vida através do humor.”

Nem todo sorriso significa tranquilidade

Um dos momentos mais reflexivos da entrevista acontece quando Marcos fala sobre saúde mental entre humoristas. Na visão dele, muitos profissionais convivem com ansiedade e depressão.

“Eu acredito que a maioria dos humoristas hoje sofre de depressão ou ansiedade. Para muitos, o palco acaba sendo uma terapia.”

Apesar disso, ele afirma que o humor nunca o machucou emocionalmente.

“Pelo contrário. O humor sempre teve muito mais aspectos positivos do que negativos.”

A internet aumentou a pressão

Se antes o desafio era conquistar a plateia, hoje existe também a busca constante por aprovação nas redes sociais. Marcos reconhece que essa pressão pode ser sufocante.

“Se você não souber lidar com a internet, essa cobrança pode ser muito pesada.”

Por isso, prefere não transformar números em obsessão.

“Eu sei como a internet funciona. Se a gente se cobrar demais, acaba perdendo a saúde mental.”

Ele também admite que o medo do cancelamento influencia o processo criativo.

“O processo acaba ficando mais limitado, mas também mais desafiador. O humorista precisa encontrar novos caminhos para chegar ao mesmo resultado.”

A decisão mais difícil da carreira

Ao ser questionado sobre o momento emocionalmente mais difícil de sua trajetória, Marcos não cita críticas nem fracassos. Ele lembra da decisão de deixar o Pânico. Segundo ele, foi uma escolha tomada para preservar sua saúde mental, apesar do enorme sucesso do projeto.

“O Pânico foi como um filho. Nós construímos aquela transição do rádio para a televisão. Sair foi muito difícil, mas era o momento de seguir outro caminho.”

Entre a nostalgia e a reinvenção

Embora seja lembrado até hoje pelo trabalho que realizou no Pânico, Marcos diz que não se incomoda em ser associado ao passado. Muito pelo contrário.

“É gratificante perceber que deixei uma marca positiva por onde passei.”

Ao mesmo tempo, acredita que viver apenas da nostalgia seria um erro para qualquer comunicador.

“Quem trabalha com comunicação precisa se atualizar o tempo todo. Se não acompanhar as novas tecnologias e as mudanças do mercado, acaba ficando para trás e sendo esquecido.”

Ao longo da entrevista, Marcos Aguena mostra que, por trás do humorista conhecido pelo grande público, existe um profissional que encara a comédia como um ofício. Um trabalho que exige criatividade, adaptação e equilíbrio emocional. Talvez sua definição mais precisa tenha surgido logo no início da conversa.

“Somos operários do riso.”

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo