Especialistas defendem que acolher mulheres na perimenopausa e menopausa não é apenas uma questão de saúde, mas também de estratégia para retenção de talentos, produtividade e liderança.
Durante muito tempo, falar sobre menopausa no ambiente corporativo parecia um tabu. Enquanto temas como saúde mental, diversidade e inclusão ganharam espaço nas empresas, uma realidade que afeta milhões de profissionais permaneceu praticamente invisível.
No podcast CLT 4.0, apresentado por Sólon Cunha, a CEO do Instituto Ybi e especialista em liderança feminina Renata de Paula trouxe um alerta importante: ignorar a menopausa significa deixar de cuidar de uma parcela significativa da força de trabalho justamente no momento em que essas mulheres ocupam posições estratégicas de liderança.
Muito além de um assunto de saúde
Ao longo da conversa, Renata explica que a menopausa não é apenas o período em que a mulher deixa de menstruar. Na prática, existe uma fase anterior, conhecida como perimenopausa, que pode durar cerca de dez anos e provocar mudanças hormonais profundas.
Entre os sintomas estão:
- insônia;
- lapsos de memória;
- irritabilidade;
- dificuldade de concentração;
- fadiga intensa;
- ondas de calor;
- ressecamento das mucosas;
- alterações emocionais.
O problema é que, muitas vezes, esses sinais são interpretados como estresse, ansiedade, falta de organização ou até incompetência profissional.
“O cérebro precisa aprender a funcionar em um novo ambiente hormonal”, explica Renata durante a entrevista.

Quando experiência encontra um desafio invisível
Existe um paradoxo nas empresas. É justamente entre os 40 e 60 anos que muitas profissionais atingem o auge da carreira. São executivas, diretoras, gestoras e líderes que acumulam conhecimento, repertório e capacidade de decisão.
Ao mesmo tempo, muitas enfrentam alterações hormonais importantes sem sequer reconhecer sua origem. Segundo Renata, a falta de informação faz com que inúmeras mulheres procurem diferentes especialistas antes de receberem o diagnóstico correto.
Em alguns casos, chegam a acreditar que estão desenvolvendo problemas cognitivos ou psicológicos, quando, na realidade, estão vivendo os efeitos da transição hormonal.
O impacto direto nas empresas
Durante o episódio, Sólon Cunha chama atenção para uma questão importante: se organizações investem em diversidade, saúde mental e longevidade, por que ainda evitam falar sobre menopausa?
A resposta, segundo Renata, passa pela ausência de informação e pelo receio das próprias mulheres de sofrerem preconceito.
Ela cita dados preocupantes:
- uma em cada dez mulheres pensa em pedir demissão devido à intensidade dos sintomas;
- cerca de 45% consideram a jornada de trabalho mais difícil durante esse período;
- empresas podem registrar queda de produtividade quando o tema não recebe atenção adequada.
Mais do que uma questão individual, trata-se de gestão de pessoas.
O preconceito ainda existe
Um dos pontos mais marcantes da entrevista é quando Renata relata que muitas mulheres evitam comentar sobre a menopausa por medo de serem vistas como menos competentes.
Enquanto alterações hormonais durante a gravidez costumam ser compreendidas e acolhidas, na menopausa a percepção frequentemente é diferente.
Em vez de empatia, surgem julgamentos. Isso faz com que muitas profissionais escondam sintomas, deixem de pedir ajuda e até desistam de oportunidades de crescimento.
Informação antes de intervenção
Ao ser questionada sobre o papel das empresas, Renata não defende políticas invasivas nem obrigatoriedade de autodeclaração. O caminho, segundo ela, começa pelo reconhecimento. Entre as ações sugeridas estão:
- promover palestras educativas;
- treinar líderes e gestores;
- incluir o tema em programas de saúde corporativa;
- criar grupos de afinidade;
- incorporar a menopausa às iniciativas de diversidade, longevidade e bem-estar.
A ideia é construir um ambiente onde falar sobre o assunto seja natural, sem estigmas.
Um investimento que retorna
A especialista também destaca estudos internacionais que apontam retorno financeiro para organizações que investem em programas de apoio à menopausa.
Além da redução do turnover, empresas tendem a registrar ganhos em produtividade, engajamento e retenção de talentos.
Em um cenário em que cada vez mais organizações disputam profissionais experientes, perder mulheres altamente qualificadas por falta de acolhimento representa um custo elevado.
Uma conversa que está apenas começando
Nos últimos anos, a discussão sobre saúde feminina começou a ganhar espaço no ambiente corporativo. O reconhecimento da menopausa como condição contemplada pelo Código Internacional de Doenças (CID) também contribuiu para ampliar o debate e incentivar novos estudos.
Para Sólon Cunha, o desafio agora é transformar informação em cultura organizacional. Afinal, empresas que desejam construir ambientes verdadeiramente inclusivos precisam olhar para todas as fases da vida profissional.
E isso inclui compreender que cuidar da menopausa não é apenas cuidar da saúde das mulheres — é preservar conhecimento, fortalecer lideranças e valorizar um dos ativos mais importantes de qualquer organização: as pessoas.
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