Quando celebramos a pessoa idosa, estamos falando de quem?
De alguém da nossa família? Da mãe, do pai, da avó, do amigo, que amamos e queremos proteger?
Ou conseguimos olhar para pessoas idosas que não conhecemos como gente que tem o mesmo valor que as que amamos?
A pergunta não é tão abstrata quanto parece.
Na pandemia de Covid, os idosos estavam entre as principais vítimas. Muitos morreram. Vimos na televisão pessoas sufocando, hospitais lotados, falta de oxigênio.
Ao mesmo tempo, houve quem relativizasse a gravidade da doença porque ela atingia sobretudo pessoas idosas e pessoas com doenças preexistentes. Houve resistência à vacinação, justamente quando as vacinas poderiam salvar vidas.
A pandemia não inventou o desprezo pela velhice. Mas tornou algumas coisas impossíveis de esconder.
É fácil dizer que respeitamos nossos velhos.
Mais difícil é reconhecer valor na vida de uma velha ou de um velho que não conhecemos.
Em outubro, vamos às urnas. Escolheremos pessoas que farão leis, administrarão recursos e decidirão prioridades.
Também decidirão, direta ou indiretamente, que lugar as pessoas idosas ocuparão na sociedade.
Transporte público. Calçadas. Moradia. Saúde. Cultura. Acessibilidade. Combate à violência e ao isolamento. Tudo isso também é política para a velhice.
Por isso, talvez o Dia da Pessoa Idosa não seja apenas uma data para receber flores, ouvir homenagens e publicar fotografias de nossos pais e avós.
Pode ser uma oportunidade para perguntar aos candidatos o que pretendem fazer por quem envelhece.
Não pelos nossos pais.
Não pelos nossos avós.
Por nós.
Porque celebrar a pessoa idosa, de verdade, é reconhecer que a vida de uma pessoa velha tem valor mesmo quando ela não é ninguém para nós.
E que esse valor não diminui quando chega a urna.
Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.









