Em conversa conduzida por Fernando Vítolo ao lado de Grace Gianoukas, ator defendeu uma televisão capaz de formar pensadores e protagonizou um reencontro emocionante com a família Silva
Há entrevistas que ganham um novo significado com o passar do tempo. Em setembro de 2023, Fernando Vítolo reuniu Roney Facchini e Grace Gianoukas para recordar os bastidores do Rá-Tim-Bum, programa da TV Cultura no qual viveram Luís e Eva, os pais da inesquecível família Silva.
O que era uma conversa repleta de lembranças, risadas e reencontros transformou-se agora também em um importante registro da trajetória de Facchini. O ator e diretor morreu neste domingo, 6 de setembro, aos 73 anos, em São Paulo.
Segundo o marido do artista, João Paulo, Facchini sofreu um mal súbito dentro do carro, logo após deixar a garagem do prédio onde morava. O Samu foi acionado e o ator foi levado ao Hospital Oswaldo Cruz, mas não resistiu. A causa médica específica da morte não foi divulgada.
Publicada no canal New Rádio, a conversa com Vítolo é, até onde a reportagem da Younik conseguiu apurar em fontes abertas, a última entrevista pública conhecida de Roney Facchini.
Um reencontro depois de dez anos
Logo no início da entrevista, Roney e Grace revelam que não se encontravam havia aproximadamente dez anos. A intimidade, porém, reaparece rapidamente.
Entre provocações bem-humoradas e histórias dos bastidores, os dois recordam a rotina de gravações da família Silva. No programa, Luís e Eva eram os pais de Ivo, interpretado por João Victor D’Alves, e Lia, vivida por Pam Domingues.
A família funcionava como uma ponte entre a realidade das crianças e o universo imaginativo apresentado pelo Rá-Tim-Bum. Roney e Grace lembraram que os pequenos atores chegavam para as gravações depois da escola e nem sempre estavam dispostos a trabalhar.
“Criança quer brincar, quer ser feliz e nem sempre estava a fim de gravar”, recordou Roney.
Grace contou que, enquanto ela procurava manter a disciplina necessária para que o trabalho avançasse, Facchini estabelecia uma relação mais brincalhona com as crianças. Ele próprio se definia mais como um amigo de Ivo e Lia do que como uma figura paterna.
A surpresa que emocionou a família Silva
Durante a entrevista, Fernando Vítolo preparou uma surpresa para os convidados: exibiu um vídeo gravado por Pam Domingues e João Victor D’Alves especialmente para os dois.

Na mensagem, os antigos “filhos” agradeceram pelo carinho, pela paciência, pelos ensinamentos e pelas lembranças construídas durante as gravações. Também pediram desculpas, em tom de brincadeira, pelo trabalho que teriam dado quando crianças.
A reação de Roney foi imediata:
“Eu teria muito orgulho de ser pai natural desses dois.”
“Eu também”, completou Grace.
O momento, que já era emocionante quando o episódio foi exibido, adquiriu um significado ainda maior depois da morte do ator. Ao comentar a homenagem publicada por Fernando Vítolo nas redes sociais, Pam Domingues recordou justamente a oportunidade que tiveram de expressar esse carinho:
“Que notícia triste, meu amigo… ❤️ Ainda bem que tivemos a chance de dizer pra ele quanto os momentos de vivência juntos foi importante nessa vida! Que sua passagem seja tranquila e a família confortada. Guardaremos boas lembranças! 😢❤️”
“Não te torna um consumidor, te torna um pensador”
Mais do que relembrar histórias curiosas, Roney aproveitou a entrevista para explicar por que considerava o Rá-Tim-Bum um dos trabalhos mais importantes de sua carreira.
Para ele, o diferencial estava na maneira como o programa tratava seu público.
“É um projeto que trata a criança como ser pensante, como ser em formação. A ideia é acrescentar conteúdo para que ela tenha ferramentas para a vida. Não te torna um consumidor, te torna um pensador”, afirmou.
Facchini também destacou o trabalho do diretor Fernando Meirelles, dos roteiristas, dos pedagogos e de toda a equipe da TV Cultura. Segundo o ator, os episódios eram avaliados antes da estreia e, quando os profissionais identificavam algum conteúdo que ainda precisava ser abordado, novas gravações eram realizadas.
“Além de estarmos a serviço do entretenimento, também estávamos a serviço da educação. E eu acho que toda televisão feita para criança deveria ter esse princípio.”
Na avaliação de Roney, a TV Cultura daquele período estava inserida em um verdadeiro projeto de país, comprometido com a educação e com a formação de indivíduos capazes de pensar.
Da engenharia para o teatro
Na conversa, Facchini também contou como abandonou a engenharia civil para se tornar ator.
Depois de se formar, ele viveu durante dois anos em Londres, onde intensificou sua relação com o teatro e outras manifestações artísticas. Ao retornar ao Brasil, passou a trabalhar na construtora da família, mas percebeu que aquela não era a vida que desejava.
Roney relatou ter enfrentado uma depressão profunda naquele período. Durante a terapia, falou sobre sua paixão pelo teatro e ouviu do profissional que deveria procurar o caminho artístico.
Foi então atrás de Miriam Muniz, atriz que o havia impressionado profundamente no palco. Segundo Roney, ela o aconselhou a aprender fazendo: no teatro amador, no teatro infantil e, principalmente, em cena.
Pouco tempo depois, Flavio de Souza o convidou para participar de sua primeira montagem profissional. A peça permaneceu mais de um ano em cartaz e abriu definitivamente as portas para a carreira que Facchini construiria no teatro, no cinema e na televisão.
Ao longo das décadas seguintes, participou de produções como Malhação, A Diarista, Bang Bang, Caras & Bocas, Cheias de Charme, Macho Man e Pé na Cova. No cinema, esteve em filmes como Cilada.com, Vai que Dá Certo, Meu Amigo Hindu e Polícia Federal: A Lei é Para Todos.
As homenagens
Grace Gianoukas também se despediu do amigo e companheiro de cena por meio das redes sociais:
“Roney Facchini, nosso amor, respeito e admiração serão eternos. Agora você é energia em expansão. Obrigada por tudo. Meu profundo carinho pra todos os familiares e amigos. Força, João. Estou aqui.”
Na noite anterior à morte, Roney havia ido ao Teatro Vivo assistir à peça Inter Alia, protagonizada por Drica Moraes e Caco Ciocler. Depois do espetáculo, jantou com o marido e os amigos Marília Toledo e Emílio Boechat. Sua última noite, portanto, foi passada entre o teatro, o amor e os amigos.
Talvez não pudesse haver despedida mais coerente para alguém que trocou a engenharia pelos palcos e dedicou a vida a contar histórias.
Em sua última entrevista conhecida, Roney Facchini deixou uma definição que também pode ser entendida como parte de seu legado: a boa televisão não deveria apenas conquistar audiência ou formar consumidores. Deveria ajudar a formar pensadores.
Assista à entrevista completa de Roney Facchini e Grace Gianoukas.










