Mundo Real

Diário de Bordo 04

“Em meio a uma crise, a primeira coisa que se perde é a verdade”

Conselho de Estado! Separação do Brasil!

Querido diário: Ano de 2026 , fim de Agosto, e eu aqui lembrando a histórica Sessão do Conselho de Estado que ocorreu em 2 de setembro de 1822, no Rio de Janeiro.

Vamos a história: Naquele momento crítico, a então Princesa Regente Maria Leopoldina assumia o comando do Brasil devido à viagem de D. Pedro à província de São Paulo. 

Esta reunião foi o verdadeiro marco burocrático e político da separação entre Brasil e Portugal. Quase ninguém dá noticias deste ato!

A reunião de emergência foi motivada pela chegada de notícias alarmantes da Europa. As Cortes de Lisboa haviam enviado novos decretos ao Brasil com exigências hostis, que incluíam:  A anulação dos poderes políticos de D. Pedro;  a exigência do retorno imediato do príncipe a Portugal sob ameaça de envio de tropas e retaliação; o indiciamento e perseguição dos ministros brasileiros (incluindo José Bonifácio), o que representava uma clara tentativa de recolonizar o Brasil e retirar sua recém-conquistada autonomia. Crise politica e ideologica!

Diante da ameaça iminente e com D. Pedro ausente para apaziguar conflitos em São Paulo, Leopoldina usou suas prerrogativas de regente e convocou seus ministros. Mulher de fbra e grande conhecedora da politica nacional.

O encontro foi marcado por um clima de urgência e extrema tensão. Leopoldina presidiu a mesa ladeada por figuras centrais da política da época, principalmente o ministro José Bonifácio de Andrada e Silva, um dos perseguidos por Portugal.

Os relatos e as cartas da época indicam que a princesa tinha total clareza da gravidade do momento. O ambiente no Rio de Janeiro era instável — ou, nas palavras da própria Leopoldina em sua correspondência, “o Brasil está como um vulcão”. A reunião avaliou as cartas vindas de Portugal e o conselho deliberou sobre o destino da nação. Aqui estava a real independencia do Brasil!

O Conselho de Estado chegou a uma decisão unânime: não havia mais como manter os laços de obediência a Portugal. A submissão às Cortes significaria o rebaixamento do Brasil e o risco de uma violenta guerra civil. 

Foi , assim, assinada a Ruptura: Leopoldina assinou o documento/parecer do Conselho que recomendava oficialmente a separação do Brasil de Portugal.  Essa carta histórica redigida pela princesa foi incisiva e definitiva a D. Pedro, aconselhando-o a romper com a metrópole imediatamente. Ela eternizou a metáfora diplomática: “O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrece”. 

O mensageiro Paulo Bregaro foi despachado às pressas para São Paulo levando as decisões do Conselho, as notícias de Lisboa e as cartas de Leopoldina e de José Bonifácio.

Foram exatamente esses documentos, frutos da reunião do dia 2 de setembro, que alcançaram D. Pedro no dia 7 de setembro de 1822, dando-lhe o embasamento político e legal para proferir o tal “Grito do Ipiranga” e oficializar a Independência.

Bom lembrar que naquela manhã de 2 de setembro de 1822, José Bonifácio de Andrada e Silva atuava não apenas como Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, mas como o principal arquiteto político do movimento de separação. Seu papel na Sessão do Conselho de Estado foi decisivo para transformar a crise diplomática em uma ação definitiva.

Enquanto a Princesa Leopoldina presidia a mesa como Regente, coube a José Bonifácio a articulação técnica e política da ruptura.

Foi ele quem leu e interpretou os despachos recém-chegados de Lisboa, deixando claro para os demais ministros que as ordens das Cortes (que exigiam o retorno imediato de D. Pedro e a prisão dos ministros brasileiros) representavam um ato de guerra e a aniquilação da autonomia do Brasil.

Bonifácio estruturou os argumentos jurídicos e políticos que basearam a decisão unânime do Conselho pela quebra dos laços com Portugal.

A Carta a D. Pedro: Além de assinar o decreto do Conselho ao lado de Leopoldina, ele redigiu sua própria carta a D. Pedro, de tom enérgico e dramático, que seguiria com o mensageiro Paulo Bregaro. Nela, escreveu a famosa frase: “Senhor, o dado está lançado, e de Portugal não temos a esperar senão escravidão e horrores”.

A aliança entre a Princesa austríaca e o estadista santista foi o eixo central que sustentou a permanência de D. Pedro no Brasil e a posterior Independência.

Ambos temiam que o Brasil sofresse o mesmo destino da América Espanhola: a fragmentação do território em diversas pequenas repúblicas mergulhadas em guerras civis. Para evitar isso, concordavam que o Brasil precisava manter um poder central forte, liderado por uma monarquia constitucional sob a figura de D. Pedro, mas totalmente independente das amarras reacionárias das Cortes de Lisboa.

Eles agiram em total sintonia durante o ano de 1822. Enquanto Bonifácio organizava a estrutura de governo e a repressão militar às províncias rebeldes, Leopoldina atuava nos bastidores, usando sua influência para apaziguar a impulsividade do marido e convencê-lo de que seu destino como soberano estava no Brasil, e não como um príncipe submisso em Portugal.

Foi essa aliança intelectual e estratégica que culminou na Sessão de 2 de setembro, onde a “cabeça” política de Bonifácio e a “pena” regencial de Leopoldina selaram o fim do domínio colonial.

O que esses dois personagens diriam do Brasil de hoje?

Roberto Coelho é historiador e comunicólogo. No YouTube: Um lugar e suas histórias.