Podcast

Contratou um famoso mas o público não veio

O erro de acreditar que um nome conhecido pode substituir estratégia, identidade e constância na criação de conteúdo

Há algum tempo, recebi no meu programa um empresário que, depois da entrevista, demonstrou interesse em produzir um podcast e uma série de vídeos de treinamento conosco.

Durante a conversa comercial, ele fez muitas perguntas. Queria entender como o programa havia crescido, de onde vinha nossa visibilidade e o que fazia alguns episódios alcançarem mais pessoas. Em determinado momento, chegou à própria conclusão: nosso crescimento teria acontecido por causa de um convidado famoso que passou por aqui.

Era uma explicação simples. E, justamente por isso, bastante sedutora.

Se a visibilidade vinha de um nome conhecido, bastaria contratar outro nome conhecido. Se um famoso havia funcionado para nós, também funcionaria para ele. O raciocínio parecia fechar — pelo menos no papel.

Ele considerou caro o valor da nossa produção e decidiu não seguir com o projeto. Algum tempo depois, lançou o próprio podcast. Para apresentá-lo, contratou uma personalidade conhecida de um dos programas de humor mais populares do país. O profissional também apareceu em algumas peças de divulgação.

O resultado, porém, foi bem diferente do esperado. Os dois episódios tiveram poucas visualizações e o projeto não continuou.

Não conto essa história para comemorar o fracasso de alguém. Muito menos para dizer que contratar uma pessoa famosa seja sempre uma decisão ruim. Conto porque ela revela um erro comum de quem começa a produzir conteúdo: acreditar que relevância pode ser terceirizada.

Fama chama atenção. Mas atenção não é audiência.

Um nome conhecido pode fazer alguém parar por alguns segundos. Pode despertar curiosidade, gerar um clique ou facilitar a primeira divulgação. Mas isso não significa que o público dessa pessoa se tornará automaticamente o público da marca, do apresentador ou do projeto.

A celebridade pode abrir a porta. Ela não obriga ninguém a entrar — e muito menos a permanecer.

Audiência não é uma mala que o famoso carrega de um trabalho para outro. As pessoas acompanham alguém por razões específicas, em contextos específicos. Gostar de um humorista em determinado programa não significa querer ouvi-lo apresentando qualquer podcast, defendendo qualquer empresa ou falando sobre qualquer assunto.

Existe uma diferença enorme entre ser reconhecido e ser relevante para aquela proposta.

O público percebe quando a fama é apenas um atalho

Quando a presença de uma personalidade tem ligação verdadeira com o tema, com a linguagem e com a identidade do projeto, ela pode potencializar o conteúdo. Mas, quando funciona apenas como um rosto emprestado, o efeito costuma ser curto.

Talvez venha o primeiro clique. Depois dele, surgem as perguntas que realmente importam:

  • Por que eu deveria continuar assistindo?
  • O que este programa entrega que eu não encontro em outro lugar?
  • Quem está por trás dessa conversa?
  • Existe uma ideia clara aqui ou apenas alguém conhecido diante da câmera?

Se o conteúdo não responde a essas perguntas, a fama vira cenário. E cenário, sozinho, não sustenta um programa.

O que faz um projeto crescer quase nunca aparece em um único episódio

É muito fácil olhar para um conteúdo de maior alcance e atribuir todo o resultado ao convidado. O que não aparece são os episódios anteriores, os testes, os erros, a construção de linguagem, a escolha das pautas, a edição, os cortes, as miniaturas, a distribuição e a insistência quando quase ninguém estava assistindo.

Um convidado conhecido pode acelerar algo que já está sendo construído. Mas dificilmente constrói tudo sozinho.

Quem observa apenas o episódio que deu certo pode confundir o pico com a trajetória. É como olhar para o gol e ignorar todo o campeonato.

No nosso caso, pessoas conhecidas contribuíram para ampliar o alcance do programa. Seria absurdo negar isso. Mas elas encontraram um projeto que já possuía proposta, repertório, produção, condução e continuidade. Não colocamos toda a responsabilidade pelo sucesso nas costas de um convidado.

Produção não é apenas colocar câmeras diante de alguém

Também existe outro equívoco nessa história: avaliar uma produção apenas pelo equipamento, pelo estúdio ou pelo número de horas de gravação.

Um projeto de conteúdo envolve decisões que começam antes de a câmera ser ligada e continuam muito depois de ela ser desligada. Posicionamento, formato, pauta, direção, identidade visual, edição, títulos, recortes, publicação, distribuição e leitura dos resultados fazem parte do trabalho.

Quando alguém compara preços sem comparar tudo o que está sendo entregue, pode escolher uma solução aparentemente mais barata — e descobrir depois que pagou por vídeos, não pela construção de um projeto.

Vídeo gravado e conteúdo com propósito não são necessariamente a mesma coisa.

Dois episódios não constroem uma presença

Há ainda um elemento menos glamouroso, mas decisivo: constância.

Quase nenhum projeto nasce com audiência. E, mesmo quando estreia com uma pessoa famosa, o interesse inicial precisa ser transformado em hábito. Isso exige repetição, aprendizado e tempo.

Cada episódio ensina alguma coisa: quais temas despertam interesse, em que momento as pessoas abandonam o vídeo, quais títulos funcionam, quais cortes circulam melhor e que tipo de conversa combina com o público desejado.

Parar depois de dois episódios impede que o projeto amadureça. É como abrir um restaurante por dois dias e concluir que o problema está no cardápio — ou no público — antes mesmo de as pessoas saberem que o lugar existe.

Ninguém pode ser interessante no seu lugar

Talvez essa seja a principal lição.

Você pode contratar uma boa produtora. Pode investir em cenário, câmeras e divulgação. Pode convidar uma celebridade. Tudo isso ajuda. Mas ninguém consegue construir sua identidade no seu lugar.

Se o objetivo é tornar uma empresa, uma ideia ou um profissional mais conhecido, o protagonista precisa ter algo a dizer, saber por que está dizendo e sustentar essa presença ao longo do tempo.

O famoso pode emprestar o rosto. Pode emprestar a voz. Pode até emprestar atenção por alguns minutos.

Mas não pode emprestar relevância.

Relevância não se aluga. Constrói-se.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo