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Caso Ana Clara: o que Flávio Bolsonaro fez na defesa de policial acusado

Senador integrou equipe jurídica de PM acusado pela morte de menina de 5 anos, em Niterói, e participou de tentativa de reverter decisão que determinou júri popular; julgamento foi adiado para 2027.

A morte de Ana Clara Gomes Machado, de apenas 5 anos, voltou ao centro do debate nacional após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) questionar o senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre sua atuação na defesa de um policial militar acusado de matar a criança durante uma ação policial no Rio de Janeiro.

O episódio ganhou repercussão durante o debate presidencial promovido pela Band em 18 de outubro de 2026. A participação de Flávio na defesa do acusado está documentada em processo analisado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Mais de cinco anos depois da morte da menina, o policial ainda não foi julgado. A nova sessão do Tribunal do Júri está marcada para 5 de maio de 2027.

Como aconteceu a morte de Ana Clara?

Em 2 de fevereiro de 2021, Ana Clara brincava na porta de casa com o irmão, de apenas 2 anos, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Durante uma ação da Polícia Militar, disparos de arma de fogo atingiram a menina, que foi socorrida e levada ao Hospital Estadual Azevedo Lima, mas não resistiu aos ferimentos.

O Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou o então cabo Bruno Dias Delaroli por homicídio qualificado, sustentando que os disparos partiram de seu fuzil, de calibre 7,62 milímetros.

Segundo a acusação, o policial efetuou tiros em direção a uma área residencial, mesmo após moradores alertarem sobre a presença de civis. A Promotoria também afirmou que não existiam evidências de confronto armado no local.

Delaroli contestou a acusação. Em seu interrogatório, declarou que havia reagido contra criminosos armados e negou que o disparo responsável pela morte da criança tivesse partido de sua arma.

O policial foi preso após o episódio, mas teve sua prisão preventiva revogada em novembro de 2021, com aplicação de medidas cautelares. Desde então, responde ao processo em liberdade.

Qual foi o envolvimento de Flávio Bolsonaro?

A participação de Flávio Bolsonaro no caso ocorreu na condição de advogado do policial acusado.

Em 2024, quando já exercia mandato no Senado Federal, seu nome apareceu entre os cinco advogados que atuavam na defesa de Bruno Dias Delaroli em um processo analisado pelo STJ.

A equipe jurídica buscava reverter a decisão que determinava a submissão do policial ao Tribunal do Júri, responsável pelo julgamento de crimes dolosos contra a vida.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o nome de Flávio Nantes Bolsonaro consta no cabeçalho de um acórdão do STJ de abril de 2024.

A defesa argumentava, entre outros pontos, que não havia provas suficientes de intenção de matar e questionava a preservação do local do crime e a qualidade dos depoimentos utilizados pela acusação.

O recurso foi rejeitado por três votos a dois pela Quinta Turma do STJ. A maioria dos ministros não chegou a examinar o mérito da acusação, em razão de questões processuais relacionadas aos fundamentos do recurso.

Posteriormente, outras tentativas da defesa de modificar o encaminhamento do processo também foram rejeitadas. Em agosto de 2025, tornou-se definitiva a decisão de que o policial deveria ser levado ao Tribunal do Júri.

Portanto, Flávio Bolsonaro participou da defesa que tentou afastar o julgamento popular, mas o recurso analisado em 2024 não conseguiu impedir que o caso fosse encaminhado ao júri.

Flávio Bolsonaro foi responsável pela soltura do policial?

Essa é uma distinção importante para compreender o episódio.

A prisão preventiva de Bruno Dias Delaroli foi revogada pela Justiça em novembro de 2021, a pedido da defesa, com parecer favorável do Ministério Público.

A atuação documentada de Flávio Bolsonaro no processo do STJ ocorreu em 2024, aproximadamente três anos depois.

Assim, embora esteja comprovada sua participação na defesa do policial, não há evidências de que tenha sido responsável pela decisão judicial que permitiu ao acusado responder ao processo em liberdade.

Também não é possível atribuir exclusivamente ao senador os sucessivos adiamentos do julgamento, embora sua participação em recursos contra o júri tenha sido objeto de críticas públicas.

O que Lula perguntou e como Flávio respondeu?

Durante o debate presidencial de 18 de outubro, Lula cobrou explicações sobre a participação do adversário no processo e relacionou sua atuação à situação do policial acusado.

Flávio Bolsonaro respondeu defendendo o direito de qualquer acusado à assistência jurídica.

“Você não pode criminalizar a advocacia, Lula. Nem teve julgamento, você já condenou o cara”, afirmou o senador.

O argumento apresentado por Flávio se apoia no direito constitucional à ampla defesa e à presunção de inocência, princípios garantidos a todos os acusados, independentemente da gravidade do crime.

A discussão pública, entretanto, passou a abordar também a decisão de um senador e candidato à Presidência de participar pessoalmente da defesa de um policial acusado de matar uma criança.

O advogado Paulo Klein, que também atuou no processo, declarou à Folha de S.Paulo que a atuação jurídica ocorreu de maneira ética e profissional. Segundo ele, a equipe acredita na inocência do policial e não praticou atos destinados a adiar o julgamento.

Mãe de Ana Clara cobra Justiça após cinco anos

Enquanto o episódio passou a integrar o debate político, a família de Ana Clara continua aguardando o julgamento.

Em entrevista à Agência Pública, publicada em 19 de outubro, Cristiane Gomes da Silva, mãe da criança, relatou as dificuldades emocionais e financeiras enfrentadas desde a morte da filha.

Ela também criticou o fato de o processo ainda não ter sido concluído e afirmou ter ficado frustrada com a resposta de Flávio Bolsonaro durante o debate.

O julgamento estava previsto inicialmente para 14 de abril de 2026, data em que Ana Clara completaria 11 anos. Depois, foi transferido para 21 de outubro e, posteriormente, remarcado para 5 de maio de 2027.

Segundo Cristiane, o último adiamento teria ocorrido por um compromisso da magistrada responsável pelo processo.

A mãe afirma que pretende continuar cobrando a realização do julgamento e a responsabilização de quem a Justiça considerar culpado pela morte de sua filha.

Por que o caso voltou a repercutir?

Além do debate presidencial, a história foi abordada na série jornalística Revelando, no episódio “O Julgamento que Nunca Aconteceu”, narrado pela atriz Camila Pitanga e divulgado em setembro de 2026.

O documentário apresentou a trajetória da família e a demora para a realização do júri popular, além de destacar a participação de Flávio Bolsonaro na defesa do acusado.

Após o confronto entre Lula e Flávio na televisão, pesquisas relacionadas ao caso registraram forte crescimento no Google, e o nome de Ana Clara passou a circular amplamente nas redes sociais.

A repercussão ampliou a visibilidade de uma investigação criminal que permanece sem julgamento definitivo.

O que acontece agora?

Bruno Dias Delaroli continua sendo réu no processo e ainda não foi condenado pela morte de Ana Clara. A responsabilidade criminal deverá ser examinada pelo Tribunal do Júri.

A nova data prevista para o julgamento é 5 de maio de 2027, mais de seis anos depois da morte da criança.

O caso reúne diferentes questões: a apuração da responsabilidade por uma morte durante uma ação policial, o direito constitucional de defesa, a atuação profissional de um representante eleito e a duração dos processos judiciais.

Mas, independentemente da disputa eleitoral, permanece uma realidade: uma menina morreu aos cinco anos, e sua família ainda aguarda uma decisão da Justiça sobre o que aconteceu naquele dia em Niterói.