Microfone Imaginário

Armandinho do Bixiga e o seu Museu de Memórias

Bixiga, se escreva assim, com a letra i, de igreja. Bixiga não é nome, é o apelido de um bairro que se chama Bella Vista, escrito com dois éles.

Seus limites são controversos. Amando Puglisi dizia que o Bixiga começa na Rua Cincinato Braga e termina na Rua Santo Antônio.

Em maio de 1994, o saudoso Diário Popular, revelou que Armando Puglisi, conhecido como Armandinho do Bixiga estava com câncer.

A notícia dava conta que ele estava preocupado, e com razão, com o destino do Museu de Memórias criado e mantido por ele na Rua dos Ingleses.

Formar um museu foi o jeito que o Armandinho encontrou para salvar as lembranças do Bixiga que estavam se perdendo.

Este museu de memórias guarda um acervo de quase 10 mil fotos, nenhuma delas de autoridades, reis ou rainhas. Todas, de lugares e pessoas do bairro.

Há cerca de dois mil objetos que os museólogos chamam de tranqueiras. Ferros de passar roupas com brasas e máquinas manuais de moer carne.

Existem também documentos como carteiras de habilitação para cocheiros, uma exigência para quem conduzia carroças e coisas que ninguém mais usa.

Instalado em um sobrado de 1920 que estava abandonado, Armandinho primeiro invadiu, depois legalizou, instalou e inaugurou seu museu em 1981.

A prefeitura até abraçou a ideia, doou verbas durante algum tempo, mas o lugar agora está fechado e a casa em processo de deterioração.

De lembranças de Armandinho ficaram as lições de respeito aos antepassados e o sentido de preservação da memória que conscientizou muita gente.

Armandinho do Bixiga se foi há mais de 30 anos, ele ensinou que uma metrópole se faz importante também quando valoriza as tradições.

Aquilo que ainda existe nos bairros ajuda a contar um pouco de nossa história, o Museu de Memórias do Bixiga não pode fechar suas portas em definitivo.

Armando Puglisi, que agora está no céu, segue fazendo falta aqui na Terra, especialmente no Bixiga, o bairro que ele tanto amou.

Geraldo Nunes é jornalista profissional, escritor e radialista premiado. Na saudosa Rádio Eldorado, além de repórter aéreo, apresentou o programa São Paulo de Todos os Tempos, onde se fez cronista da cidade, premiado pela APCA e com o Colar Guilherme de Almeida. Da Câmara Municipal recebeu a Medalha Anchieta e o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo. Integra a Academia Paulista de História, Academia Cristã de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, é membro honorário da Força Aérea Brasileira – FAB.