Basta abrir um grande portal de notícias para encontrar uma mistura conhecida: celebridades, separações, crimes, brigas nas redes, tragédias e declarações polêmicas. Em muitos momentos, parece que esses assuntos disputam mais espaço do que educação, ciência e iniciativas capazes de melhorar a vida das pessoas. Mas será que isso diz mais sobre os veículos ou sobre aquilo em que nós escolhemos clicar?
Experimente abrir a página inicial de um portal brasileiro numa manhã qualquer. É bastante provável que você encontre uma notícia sobre a vida amorosa de algum famoso, uma discussão entre influenciadores, um acidente impressionante, uma declaração que provocou revolta e, entre uma coisa e outra, informações sobre economia, política, saúde ou educação. Em poucos segundos, a tela parece reunir as principais preocupações do país. E, se acreditarmos que tudo merece o mesmo destaque, talvez a grande questão nacional seja descobrir quem terminou um namoro e quem respondeu a quem no Instagram.
Trabalho com comunicação e jornalismo há muitos anos. Sei que a função de um veículo é informar, mas também conheço a necessidade de conquistar audiência e manter uma operação comercial funcionando. Minha inquietação começa quando abro esses portais e tenho a sensação de que fofoca, desgraça e polêmica ocupam uma parcela cada vez maior do espaço que deveria ajudar o leitor a compreender o mundo.
A notícia ruim chama atenção. E isso não é apenas impressão.
Em 2023, pesquisadores publicaram na revista científica Nature Human Behaviour um estudo com milhares de experimentos sobre manchetes e consumo de notícias. Eles analisaram mais de 105 mil versões de títulos, expostas centenas de milhões de vezes no site americano Upworthy. O resultado foi claro: uma palavra negativa adicional em uma manchete de tamanho médio aumentou a taxa de cliques em aproximadamente 2,3%. Palavras positivas, na mesma pesquisa, tiveram o efeito oposto.
O estudo oferece uma explicação importante para a escolha de títulos que enfatizam medo, conflito, indignação e surpresa. Se duas manchetes competem pela atenção e uma delas desperta uma reação emocional imediata, ela pode levar vantagem. Pequenas diferenças na taxa de cliques ganham peso quando multiplicadas por milhões de acessos.
Existe também uma razão humana. Precisamos reconhecer ameaças, perceber situações de risco e reagir a acontecimentos que possam afetar nossa segurança. Tragédias e crimes, quando têm relevância pública, devem ser noticiados. A questão não é esconder fatos desagradáveis. É perceber o momento em que a informação necessária começa a disputar espaço com a exploração repetitiva da tragédia.
O portal escolhe o conteúdo ou o público escolhe por ele?
A resposta é uma combinação das duas coisas. A redação decide o que apurar, publicar e destacar. Mas hoje essas escolhas podem ser acompanhadas por indicadores em tempo real: quantas pessoas abriram a matéria, quanto tempo permaneceram nela, quais títulos receberam mais atenção e de onde veio o tráfego. A audiência deixou de ser apenas uma estimativa feita depois da publicação. Ela pode influenciar, minuto a minuto, a decisão sobre o que será promovido na página inicial.
Imagine duas reportagens publicadas no mesmo horário. Uma mostra um projeto educacional de resultados interessantes numa cidade do interior; a outra relata uma briga entre celebridades. A segunda recebe um volume muito maior de acessos e compartilhamentos. No dia seguinte, quando a equipe precisar definir onde investir tempo, é natural que os números entrem na conversa. Isso não demonstra que jornalistas sejam incapazes de reconhecer a relevância da educação. Mostra como incentivos comerciais podem favorecer assuntos que despertam curiosidade imediata.
E é exatamente por isso que também precisamos olhar para o próprio comportamento. Reclamamos que o noticiário só fala de coisas ruins, mas será que clicamos numa reportagem sobre uma pesquisa científica com a mesma facilidade com que abrimos uma notícia sobre uma traição, um escândalo ou uma discussão pública? É uma pergunta incômoda. E vale para quem lê, compartilha e produz conteúdo, inclusive para mim.
O brasileiro gosta mesmo de notícia ruim?
Não seria justo transformar um hábito de consumo em julgamento moral sobre toda a população. O Brasil é grande, desigual e reúne públicos com interesses muito diferentes. Quem lê jornal por assinatura, quem recebe links no WhatsApp, quem assiste a vídeos curtos e quem acessa diretamente um portal podem consumir notícias de formas distintas. Também não há motivo para imaginar que o interesse por tragédias ou celebridades seja uma característica exclusivamente brasileira.
O Digital News Report 2026, do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, da Universidade de Oxford, revelou um paradoxo: 47% dos brasileiros entrevistados afirmaram evitar notícias às vezes ou frequentemente. No mesmo levantamento, a confiança geral nas notícias ficou em 36%, num ambiente em que as redes sociais continuam sendo uma fonte importante de informação.
Ou seja, há pessoas cansadas do noticiário e, ao mesmo tempo, um mercado disputando continuamente sua atenção. Uma manchete excessivamente dramática pode atrair o clique de alguém que, depois de consumir uma sequência de notícias semelhantes, decide se afastar do jornalismo. O resultado pode ser uma relação contraditória: acessamos aquilo que nos incomoda e depois reclamamos que a internet está insuportável.
O relatório global de 2026 do Instituto Reuters identificou ainda que, pela primeira vez na série, redes sociais e plataformas de vídeo superaram sites e aplicativos jornalísticos como forma mais utilizada de acesso às notícias no conjunto dos mercados pesquisados. Isso muda a distribuição da informação. Um portal já não disputa apenas com outro jornal. Disputa com vídeos de humor, influenciadores, mensagens pessoais, jogos e praticamente tudo que aparece na tela.
As redes sociais ensinaram os portais a disputar atenção como influenciadores?
Em parte, os incentivos aproximaram os dois ambientes. Uma reportagem pode chegar ao leitor por meio de uma chamada no Instagram, uma publicação no Facebook, um vídeo no YouTube ou uma recomendação automática. Nesses espaços, o título e a imagem precisam competir com conteúdos concebidos exclusivamente para despertar uma reação rápida. É uma competição desigual quando uma boa apuração exige contexto, nuance e tempo para ser compreendida.
Esse cenário ajuda a explicar o aumento das chamadas que prometem uma revelação, apresentam uma briga ou criam expectativa sobre um detalhe que poderia ter sido explicado no próprio título. Muitas vezes o leitor abre a notícia imaginando que encontrará algo extraordinário e descobre um acontecimento banal. Pode até clicar novamente na próxima manchete, mas sua confiança no veículo não sai necessariamente fortalecida.
O curioso é que os portais tradicionais possuem algo que muitos influenciadores gostariam de conquistar: equipes profissionais, estrutura de apuração, acesso a fontes, histórico e responsabilidade editorial. Quando um veículo se concentra excessivamente na disputa pelo clique imediato, corre o risco de enfraquecer justamente aquilo que o diferencia de uma página de entretenimento.
O que desaparece quando tudo precisa chamar atenção?
Uma parte do país acaba ficando menos visível. Não porque nada importante esteja acontecendo, mas porque muitos acontecimentos não rendem chamadas espetaculares. Uma escola que melhora seus resultados, uma biblioteca comunitária que forma leitores, uma pesquisa que avança lentamente ou uma pequena empresa que cria empregos não costumam oferecer o mesmo conflito de uma celebridade discutindo publicamente com outra.
O jornalista tem a obrigação de cobrar autoridades, investigar problemas e revelar aquilo que alguém talvez preferisse esconder. Mas também pode descobrir iniciativas, explicar soluções, contextualizar dados e contar histórias que ajudem a população a tomar decisões melhores. Esse tipo de cobertura não exige abandonar o senso crítico. Exige ampliar o que entendemos como relevante.
Não defendo transformar portais em murais de boas notícias nem encher a página inicial de histórias otimistas sem interesse público. Isso seria apenas outra maneira de distorcer a realidade. Defendo que notícia boa também seja apurada com rigor, que assuntos complexos recebam explicações acessíveis e que a relevância pública participe da escolha editorial tanto quanto a capacidade de atrair acessos.
E o que nós, leitores, estamos ensinando aos portais?
A pergunta do título talvez devesse ser devolvida a quem está diante da tela. Que tipo de notícia você compartilha? Qual matéria merece seu comentário? Quando encontra uma reportagem importante sobre educação, ciência, cultura ou economia, dedica alguns minutos à leitura ou prefere guardar para depois? E quando surge um escândalo envolvendo alguém conhecido, sente vontade de abrir imediatamente?
Não se trata de exigir que cada pessoa leia apenas reportagens sérias. Todos precisamos de entretenimento, curiosidade e momentos leves. Eu também gosto de humor, histórias curiosas e boas discussões culturais. O problema é quando nosso consumo de informação passa a ser organizado quase exclusivamente pelo que nos assusta, irrita ou desperta vontade de falar da vida alheia.
A responsabilidade editorial continua sendo de quem publica. Um veículo não pode justificar qualquer escolha dizendo que o público pediu. Mas também seria ingênuo imaginar que nossos cliques, comentários e compartilhamentos não tenham influência sobre as decisões de conteúdo. A página inicial é construída por editores, algoritmos, interesses comerciais e hábitos de consumo. Cada um desses elementos participa da resposta.
Talvez não devêssemos perguntar apenas por que tantos portais destacam fofoca, desgraça e polêmica. Deveríamos perguntar o que aconteceria se começássemos a dar a mesma atenção às histórias que ampliam nosso conhecimento, explicam os problemas do país e mostram o que pode ser feito para resolvê-los. Afinal, a notícia que escolhemos consumir hoje ajuda a definir a notícia que alguém vai querer produzir amanhã.
Fontes e referências
Nature Human Behaviour: Negativity drives online news consumption (2023); Instituto Reuters: Digital News Report 2026, Brasil; Instituto Reuters: principais resultados globais de 2026; Instituto Reuters: como os brasileiros consomem notícias (outubro de 2026).
Fernando Vítolo é comunicador, jornalista, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










