As eleições terminaram, mas basta abrir uma rede social para perceber que parte dos brasileiros continua em campanha. Em vez de discutir propostas, decisões de governo e resultados concretos, muita gente prefere defender sua versão dos acontecimentos e atacar quem não concorda. O problema é que a política virou uma disputa de narrativas, e os eleitores, torcedores de seus políticos de estimação.
Tenho a sensação de que as eleições de 2026 ainda não acabaram. As urnas foram apuradas, o resultado foi anunciado, os candidatos fizeram seus discursos e, mesmo assim, uma multidão continua se comportando como se o segundo turno fosse acontecer amanhã. É uma disputa interminável em que quase ninguém parece interessado em conversar sobre o que realmente importa: as decisões tomadas por quem governa, o trabalho de quem legisla e as consequências dessas escolhas para a população.
Se um político diz alguma coisa, seus defensores correm para explicar por que ele estava certo. Se ele se contradiz, encontram uma interpretação alternativa. Se uma medida funciona, os adversários procuram motivos para diminuir o mérito. Se dá errado, os aliados culpam a imprensa, a oposição, o governo anterior ou alguma conspiração conveniente. Há sempre uma justificativa pronta. Raramente há disposição para avaliar o fato sem antes consultar o lado para o qual se torce.
É como acompanhar um campeonato em que os torcedores decidiram que seu time jamais comete falta. O árbitro está sempre comprado, o adversário sempre trapaceia e a derrota só pode ter acontecido por uma injustiça. A diferença é que, na política, o resultado dessas decisões afeta salários, hospitais, escolas, empresas e a vida de milhões de pessoas. A conta não termina quando acaba a partida.
Narrativa não é a mesma coisa que política
Narrativas fazem parte da política desde muito antes da internet. Candidatos e partidos escolhem palavras, exemplos e imagens para explicar a realidade a partir de determinado ponto de vista. Isso é inevitável. O problema aparece quando a narrativa deixa de ser uma forma de interpretar os fatos e passa a substituí-los. Nesse momento, o compromisso já não é descobrir o que aconteceu, mas proteger a história que favorece o próprio grupo.
Discutir política exige perguntas que podem ser desconfortáveis para qualquer lado. Qual projeto foi aprovado? Quanto custou? De onde veio o dinheiro? Quem ganhou, quem perdeu e quais resultados foram medidos? A promessa de campanha foi cumprida? O que dizem os dados? Houve erro de planejamento ou uma decisão deliberada? Muitas dessas respostas não cabem em um vídeo de quinze segundos. E, pior, podem nos obrigar a reconhecer que o político de quem gostamos cometeu um erro.
Discutir narrativa, por outro lado, é mais rápido. Basta escolher um herói, um vilão e uma explicação capaz de confirmar aquilo em que já acreditamos. Nem precisamos ler a notícia inteira. Uma manchete conveniente ou um corte de vídeo é suficiente para compartilhar uma opinião definitiva, de preferência acompanhada de alguma ofensa a quem discorda.
Por que defender um político se tornou tão pessoal?
Porque, para parte dos eleitores, a preferência política deixou de ser somente uma escolha eleitoral e passou a fazer parte da identidade. O candidato vira um símbolo dos valores, dos medos e das esperanças de quem o apoia. Criticá-lo é interpretado como uma agressão ao próprio eleitor. A discussão deixa de ser sobre a decisão do governante e passa a ser sobre a dignidade de quem votou nele.
Pesquisadores chamam esse fenômeno de polarização afetiva: a tendência de gostar cada vez mais do próprio grupo político e rejeitar emocionalmente o grupo adversário. Um levantamento publicado em 2026 pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo mostrou que a parcela de brasileiros classificados nesse padrão passou de 19% em 2006 para 31% em 2026. É um crescimento preocupante. Mas há outro dado que merece atenção: 69% dos entrevistados não se enquadravam nesse tipo mais intenso de polarização.
Isso significa que a sociedade não pode ser reduzida a dois exércitos igualmente fanáticos. Muita gente está cansada das brigas, desanimada com os partidos ou simplesmente preocupada com problemas mais imediatos. O barulho das redes nem sempre representa a opinião de todos. Mas quem grita mais acaba ocupando uma parte desproporcional da conversa pública.
Quando a narrativa sai do celular e atinge o trabalho
O que poderia ser apenas uma discussão desagradável se tornou, em muitos casos, uma ameaça concreta. O Ministério do Trabalho e Emprego informou ter recebido aproximadamente 4.305 denúncias de assédio eleitoral no ambiente de trabalho entre 28 e 30 de outubro de 2026, poucos dias depois do segundo turno. São registros que estão sujeitos a apuração, não casos automaticamente comprovados, mas o volume revela uma situação preocupante.
O Ministério Público do Trabalho também registrou relatos de ameaças de demissão, recusa de contratação e represálias vinculadas ao voto ou à preferência política. Em reportagens sobre os dias seguintes à eleição, apareceram manifestações nas redes incentivando demissões e listas de boicote a empresas associadas a determinado candidato. Escolher de quem comprar é um direito do consumidor; ameaçar trabalhadores e organizar perseguições por suas convicções políticas é outra coisa.
O caso mostra como a idolatria política pode corroer relações que deveriam funcionar independentemente de eleição. Um funcionário não deveria precisar votar como o patrão para preservar o emprego. Um comerciante não deveria ser ameaçado por ter uma preferência partidária. Ninguém deveria ser obrigado a declarar sua posição política para merecer respeito.
E se o objetivo das redes sociais não for nos fazer concordar?
A internet nos deu acesso a mais informações e a mais pessoas. Mas isso não garante que estejamos aprendendo a compreender opiniões diferentes. Plataformas organizadas para estimular curtidas, comentários, compartilhamentos e permanência diante da tela podem favorecer publicações que despertam reações intensas. Indignação é uma reação intensa. Medo também. E o desejo de humilhar quem pensa diferente costuma produzir bastante movimento.
Isso não significa que toda rede social tenha sido desenhada para promover violência, nem que um algoritmo seja o único responsável pela polarização. O comportamento humano também importa. Seguimos páginas que confirmam nossas opiniões, interagimos com conteúdos que nos provocam e, aos poucos, podemos criar a impressão de que os únicos cidadãos razoáveis são aqueles que pensam como nós.
Uma pesquisa qualitativa divulgada pela Agência Brasil em junho de 2026 ouviu 24 jovens de diferentes regiões e identificou, entre os participantes, efeitos de isolamento e personalização da política associados às redes sociais. Por se tratar de uma amostra pequena e qualitativa, seus resultados não podem ser generalizados para todos os brasileiros. Eles ajudam, porém, a ilustrar como a experiência política pode ficar cada vez mais concentrada nas telas e nos personagens que as dominam.
A política transformada em campeonato de versões
A campanha presidencial de 2026 forneceu bons exemplos desse mecanismo. Um relatório do Instituto Democracia em Xeque, publicado durante a reta final do segundo turno, mostrou que o debate nas redes girava em torno da disputa pela abertura de sigilos, de acusações de corrupção, da manutenção de programas sociais e de questionamentos ao Judiciário. Cada campo procurava enquadrar os fatos de modo a fortalecer seu candidato e enfraquecer o outro.
Esses assuntos poderiam produzir debates legítimos e importantes. Afinal, transparência, integridade das instituições e políticas sociais precisam ser discutidas. Mas o problema aparece quando o assunto interessa menos do que a vantagem discursiva que ele proporciona. A pergunta deixa de ser “qual é a verdade e qual a melhor solução?” e se transforma em “como posso usar isso para provar que o meu lado está certo?”.
O Ministério Público Federal informou ter atuado em mais de 43 mil procedimentos relacionados às eleições de 2026. Parte expressiva dizia respeito a registros de candidaturas e propaganda, mas cerca de 5,4 mil processos sobre propaganda eleitoral envolviam postagens em redes sociais. Não é uma contagem de discursos de ódio, e seria incorreto apresentá-la dessa forma. O dado mostra, ainda assim, a dimensão que o ambiente digital adquiriu na disputa política e na fiscalização eleitoral.
Político de estimação não precisa de defensor. Precisa de cobrança.
Não vejo problema em admirar um presidente, um governador, um deputado ou um prefeito. É natural reconhecer qualidades em pessoas públicas e apoiar propostas com as quais concordamos. Mas há uma diferença enorme entre admirar e idolatrar. O admirador consegue reconhecer um erro. O idólatra procura uma explicação para transformá-lo em acerto.
A relação entre o cidadão e o político deveria ser a de quem contrata alguém para exercer uma função pública, não a de um fã diante de um artista. Quem ocupa um cargo tem responsabilidades, recebe recursos públicos, toma decisões e deve prestar contas. Não precisa de uma torcida organizada disposta a atacar qualquer pessoa que faça uma pergunta incômoda.
Isso vale para Lula, para Bolsonaro, para os filhos de Bolsonaro, para os aliados de Lula e para qualquer figura que venha a ocupar o poder. Um governante pode acertar hoje e errar amanhã. Podemos concordar com uma decisão e rejeitar a seguinte. Nenhuma dessas mudanças exige que troquemos de identidade política ou que peçamos autorização ao nosso grupo.
Por que estamos ficando tão agressivos?
Talvez porque seja mais fácil atacar alguém do que aceitar uma dúvida. Uma discussão baseada em políticas públicas permite que duas pessoas discordem e, ainda assim, reconheçam pontos válidos no argumento uma da outra. Uma discussão baseada em identidade transforma qualquer concessão em sinal de fraqueza. Admitir que o adversário acertou alguma coisa parece uma traição. Reconhecer o erro de um aliado soa como oferecer munição ao outro lado.
A violência verbal cresce quando começamos a tratar pessoas como representantes de uma categoria odiada, e não como indivíduos. Não interessa quem é aquele colega, vizinho ou parente. Basta descobrir em quem votou para decidir que ele é ignorante, perigoso ou indigno de confiança. É uma forma preguiçosa de enxergar o mundo, mas extremamente eficiente para produzir ressentimento.
Também precisamos reconhecer a responsabilidade de comunicadores, influenciadores e veículos de imprensa. Criticar com firmeza é legítimo. Investigar irregularidades é indispensável. Mas transformar cada notícia em instrumento de hostilidade permanente pode render audiência à custa da qualidade da conversa pública. Quem trabalha com informação tem o dever de separar fato, análise, acusação e opinião.
Quando a eleição acaba, o cidadão deveria voltar a ser prioridade
A eleição serve para escolher representantes, não para dividir a população em vencedores moralmente superiores e derrotados que precisam ser punidos. O presidente eleito deve governar para todos; a oposição deve fiscalizar; os eleitores devem cobrar. Essa divisão de responsabilidades é muito mais importante do que qualquer meme de vitória ou provocação publicada depois da apuração.
Eu gostaria de ver mais brasileiros discutindo os indicadores da educação, a situação da saúde pública, a eficiência dos gastos, as oportunidades de trabalho e a segurança das cidades. Gostaria de ver pessoas defendendo uma proposta mesmo quando ela vem do partido adversário e rejeitando uma decisão ruim mesmo quando foi tomada por seu candidato favorito. Isso seria política. O restante, muitas vezes, é apenas uma briga por pertencimento.
Antes de compartilhar a próxima acusação, vale fazer algumas perguntas. Sei de onde veio essa informação? Li o conteúdo inteiro? Estou reagindo ao fato ou apenas ao nome de quem está envolvido? Se o mesmo comportamento fosse praticado pelo político que apoio, eu faria a mesma crítica? Essa última pergunta talvez seja a mais reveladora.
Não precisamos abandonar nossas convicções políticas. Precisamos abandonar a ideia de que elas nos obrigam a defender pessoas incondicionalmente. Enquanto continuarmos mais preocupados em vencer discussões do que em cobrar resultados, os políticos terão torcedores, mas o Brasil continuará precisando de cidadãos.
Fontes e referências
FESPSP: pesquisa nacional sobre polarização afetiva, junho de 2026; Ministério do Trabalho e Emprego: denúncias após a eleição; Folha de S.Paulo: assédio eleitoral e boicotes; Agência Brasil: estudo qualitativo sobre redes e política; Instituto Democracia em Xeque: narrativas da reta final de 2026; Ministério Público Federal: ações relacionadas às eleições de 2026.
Fernando Vítolo é comunicador, jornalista, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










