A eleição de 2026 terminou, Lula venceu e Flávio Bolsonaro deixou o Brasil. Mas o adversário continua ocupando espaço no discurso do presidente. O episódio levanta uma questão sobre a maneira como campanhas são construídas e como lideranças políticas podem se beneficiar de manter um inimigo sempre à vista.
Dom Quixote, personagem criado por Miguel de Cervantes, ficou conhecido por investir contra moinhos de vento que imaginava serem gigantes ameaçadores. A literatura transformou essa batalha numa das imagens mais famosas da luta contra inimigos que existem, sobretudo, na interpretação de quem os enfrenta. Não estou dizendo que os adversários de Lula sejam imaginários. Eles são reais, disputam eleições e têm projetos próprios. Mas a metáfora serve para perguntar por que uma liderança que acaba de ganhar uma eleição precisa continuar montada no cavalo, lança em punho, combatendo o derrotado.
Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito em 25 de outubro de 2026, derrotando Flávio Bolsonaro no segundo turno por 51,79% a 48,21% dos votos válidos. Flávio saiu do Brasil dois dias depois, sem cumprir a determinação judicial de entregar seus passaportes, e chegou aos Estados Unidos. A viagem virou assunto político, judicial e jornalístico, por motivos compreensíveis. Ainda assim, a campanha acabou. E quem venceu tem agora outra tarefa: governar.
O adversário foi embora. O discurso ficou.
Em 27 de outubro, Lula criticou publicamente a saída de Flávio Bolsonaro do país e afirmou que o comportamento do senador era vergonhoso. Em 5 de novembro, durante uma transmissão ao vivo ao lado do deputado André Janones, o presidente voltou ao tema. Chamou Flávio de “pé-frio”, associou sua presença nos Estados Unidos às derrotas eleitorais de aliados de Donald Trump e sugeriu que ele teria buscado proteção no exterior. As declarações foram registradas pela imprensa. A situação jurídica do senador merece atenção, mas o que chama a minha atenção aqui é a insistência política no personagem derrotado.
Há uma contradição curiosa. No discurso da vitória, Lula disse que, depois das eleições, não teria mais adversários e que precisava governar para todos os brasileiros. Era a mensagem correta para um presidente de um país dividido. Poucos dias depois, no entanto, o ex-adversário continuava presente nas provocações públicas. Criticar Flávio por uma decisão concreta não é, por si só, incompatível com governar para todos. O problema aparece quando a disputa eleitoral se prolonga como principal linguagem de comunicação de um governo.
Toda eleição de Lula teve um adversário. Mas nem todo adversário virou inimigo.
A trajetória de Lula nas urnas ajuda a enxergar a construção dessas rivalidades. Em 1989, o confronto decisivo foi com Fernando Collor. Em 1994 e 1998, enfrentou Fernando Henrique Cardoso. Em 2002, derrotou José Serra. Em 2006, venceu Geraldo Alckmin. Depois vieram Jair Bolsonaro, em 2022, e Flávio Bolsonaro, em 2026. São sete campanhas presidenciais com o petista como candidato, entre derrotas e vitórias, cada uma marcada por um contexto político e econômico diferente.
É claro que toda eleição tem adversários. Dizer que Lula precisava enfrentá-los não seria uma descoberta especial: isso vale para qualquer candidato numa democracia. A questão é outra. Nas campanhas recentes, especialmente nos confrontos com o bolsonarismo, a disputa assumiu uma dimensão de ameaça existencial. Para parte do eleitorado, votar num candidato passou a significar principalmente impedir o retorno do outro. É uma lógica que mobiliza, mas também pode aprisionar o debate.
Há um detalhe que torna o assunto ainda mais interessante. Geraldo Alckmin, adversário de Lula em 2006, tornou-se seu vice-presidente e permaneceu ao seu lado na vitória de 2026. Isso prova que rivais políticos não precisam ser inimigos permanentes. As alianças mudam, os interesses se reorganizam e aquilo que ontem parecia uma diferença intransponível pode amanhã ser tratado como uma composição perfeitamente aceitável. Enquanto isso, eleitores comuns continuam discutindo como se cada rivalidade fosse uma guerra definitiva.
Quando o inimigo se torna mais importante do que o projeto
A comunicação política conhece bem a força de um antagonista. É muito mais fácil reunir pessoas contra uma ameaça identificável do que explicar, em linguagem simples, como uma política pública será executada. O inimigo funciona como elemento de união para grupos que talvez discordassem em vários outros assuntos. Em vez de pedir apoio a um conjunto complexo de propostas, pede-se que o eleitor escolha o lado que poderá impedir o pior.
Não é uma tática exclusiva de Lula, do PT ou da esquerda. Jair Bolsonaro também construiu grande parte de sua identidade política em oposição ao PT, a Lula e ao que chamava de sistema. Partidos e líderes de diferentes correntes utilizam o medo do adversário para manter suas bases mobilizadas. Minha crítica, neste momento, é ao presidente que acabou de vencer e que deveria ter menos razões para continuar falando como candidato.
O risco dessa dependência é claro: quando um governo precisa manter o adversário no centro da conversa, os problemas reais do país passam a disputar atenção com uma briga que já deveria ter terminado nas urnas. Educação, segurança, saúde, economia e qualidade dos serviços públicos não podem ser avaliadas exclusivamente pela pergunta “você prefere que o outro volte?”. Governar exige mais do que lembrar ao eleitor o que ele rejeitou.
E daqui a quatro anos, quem será o novo inimigo?
Lula acaba de conquistar o quarto mandato presidencial. A próxima eleição, em 2030, certamente terá novos candidatos e outra disputa pela sucessão. O presidente terá liberdade para apoiar quem desejar dentro das regras eleitorais, e seu partido precisará apresentar uma liderança capaz de concorrer sem depender apenas de sua imagem. O desafio, porém, talvez seja maior: será possível defender a continuidade do projeto político sem escolher alguém para representar o perigo absoluto?
Uma hipótese é que o bolsonarismo continue ocupando esse lugar, mesmo com seus representantes fora da Presidência. Outra é que surja um novo adversário, de outra origem partidária. Não há como afirmar agora quem será o nome ou qual estratégia será adotada. Mas vale observar se, nos próximos anos, o debate político será conduzido pela comparação de propostas ou pela identificação insistente de um inimigo a ser derrotado.
E quanto a Jair Bolsonaro? Ele permanece submetido a decisões judiciais e, conforme registros do Supremo Tribunal Federal, cumpre prisão domiciliar humanitária, após condenação criminal. É possível discutir hipóteses jurídicas para seu futuro, mas não existe fundamento para afirmar que sua eventual soltura seria combinada como parte de uma estratégia eleitoral de Lula ou do PT. Essa possibilidade, levantada como provocação política, não deve ser confundida com uma previsão ou com um fato comprovado. A execução penal precisa obedecer à lei e às decisões judiciais, e não à conveniência de campanhas.
O moinho de vento precisa continuar girando?
A metáfora de Dom Quixote não serve para transformar Lula num personagem ridículo, nem para negar que existem disputas reais. Serve para mostrar como a política pode passar a depender da batalha permanente. Sem um gigante ameaçador à frente, o cavaleiro talvez precise responder perguntas menos espetaculares: qual é o plano, quanto custa, quem executa, como vamos medir os resultados e o que terá melhorado quando o mandato terminar?
Se o governo der certo, terá resultados para apresentar. Se der errado, não deveria bastar apontar para um adversário derrotado e pedir que a população agradeça porque o outro não venceu. O mesmo padrão de cobrança vale para quem estiver na oposição. A democracia não pode funcionar como uma competição interminável para descobrir quem assusta mais.
Depois de uma eleição apertada, a responsabilidade de reconstruir pontes é ainda maior. Não significa deixar de criticar adversários, nem ignorar possíveis ilícitos. Significa reconhecer que o Brasil já escolheu seu presidente e agora precisa avaliar o que ele faz com o poder que recebeu.
Lula venceu Flávio Bolsonaro. Agora precisa vencer os problemas do Brasil. Se daqui a quatro anos o principal argumento para eleger seu sucessor continuar sendo o medo de um novo inimigo, talvez a política brasileira tenha passado mais um mandato lutando contra moinhos de vento.
Fontes e referências
Agência Gov: resultado eleitoral e discurso de Lula após a vitória; CNN Brasil: declarações de Lula na live de 5 de novembro; CNN Brasil: saída de Flávio do Brasil; CNN Brasil: histórico de candidaturas presidenciais de Lula; Supremo Tribunal Federal: prisão domiciliar humanitária de Jair Bolsonaro.
Fernando Vítolo é comunicador, jornalista, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










