A história de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho – o Boni – tem uma riqueza de trabalhos fascinantes. Por isso, os pesquisadores da era da internet se darão por satisfeitos com seu período na TV Globo. No entanto, a vida pregressa do redator de rádio e TV, do publicitário, do produtor musical, do autor de jingles comportou todos os cargos e funções desta frase.
O humor e a música ocuparam um espaço importante no coração do futuro Boni da Globo. Seu pai, falecido precocemente, era violonista. O rádio, veículo de origem do profissional paulistano, em seu tempo exibia conjuntos e cantores atuando à vista dos auditórios, ao vivo. A nascente e ainda mambembe televisão brasileira dos anos 1950 e 60 também levou essas atrações para os programas.
Sua mãe ou sua avó conhecem Moacyr Franco, um sobrevivente do showbiz nacional. Quem deu a primeira chance de exibição do mineiro num palco de TV? O personagem principal desta resenha. E quem escreveu a contracapa da estreia de Juca Chaves em disco? O mesmo personagem. Que deu a oportunidade do surgimento e florescimento da carreira de Moacyr e Juca, dois showmen do humor e da música.
Em 1960, a gravadora RGE lançou As Duas Faces de Juca Chaves. O titulo do disco brincava com a característica do vinil: trazer um “lado A” e um “lado B”, geralmente com 6 músicas cada. Para degustar o conteúdo, o potencial ouvinte tinha que cumprir um ritual: colocar o LP na vitrola mais próxima, repousar a agulha na primeira faixa, aguardar o passeio dela até que se tocasse a última, virar o disco e repetir o procedimento anterior.
E antes do assunto seguinte, que remete ao papel de Boni na estreia de Juca, registre-se o seguinte. O Menestrel do Brasil tinha formação musical erudita, um cabedal literário de poeta parnasiano, um sarcasmo afiado. Da safra inaugural de composições, a modinha “Por quem sonha Ana Maria” transcendeu o tempo, ao lado da sátira “Presidente Bossa Nova”. Num lado do disco, apenas as modinhas, bucólicas e lânguidas. Do outro, somente as sátiras, verdadeiras charges musicadas.
E onde entra o Bonifácio nessa história, a história do Chaves brasileiro? No elepê inteiro, produzido pelo futuro pai do Boninho do BBB. Não satisfeito com o feito – mas ficou, e muito! – o fiador do abre-alas do cancionista ainda escreveu o texto de apresentação da obra. Um em cada lado, cada face do disco.
Sobre o lado-menestrel de Juca, assim Boni se expressou: “Cantando modinhas suas, atuais, mas impregnadas do mesmo sentimentalismo, Juca Chaves compra-briga com o público masculino. Ele passa a ser um rival sussurrando baixinho no ouvido de tôdas as enamoradas do Brasil”. A respeito do lado-humorista do músico, o produtor sentenciou: “Na música de todo o mundo são raríssimos os compositores que conseguem manejar a a difícil arte de fazer sátira. Juca Chaves é um mestre do gênero”.
O homem que construiu a amada-odiada Rede Globo de Televisão desde sempre construiu pessoas e carreiras. O amor pelos humores diversos da arte o fez eternizar o coração do Brasil. Que o digam os Jucas e Moas da vida.










