A violência sexual contra crianças pode deixar consequências que se estendem muito além do momento da agressão. E o sofrimento pode ser agravado quando os adultos responsáveis não escutam ou não protegem a vítima. Em entrevista ao Dr. David Wilson, no programa Veredas Treinamentos, Jorgelina Burgos, da organização Dignitate Brasil, falou sobre abuso infantil, exploração sexual, tráfico de pessoas e o papel das famílias, escolas e comunidades na prevenção.
A entrevista reúne histórias difíceis, acompanhadas por Jorgelina ao longo de seu trabalho humanitário, e uma pergunta que atravessa toda a conversa: como proteger uma criança quando o perigo pode estar justamente em ambientes nos quais ela deveria se sentir segura? A convidada defende que prevenção exige mais do que campanhas de conscientização. É necessário reconhecer vulnerabilidades, criar formas de escuta e agir quando surgem sinais de violência.
O episódio que levou Jorgelina Burgos ao combate à exploração sexual
Jorgelina contou que seu primeiro contato com a exploração sexual aconteceu ainda na adolescência. Aos 12 ou 13 anos, uma colega de escola pediu ajuda depois de sofrer abusos. A família de Jorgelina e a direção da escola tentaram intervir, mas, segundo ela, não conseguiram afastar a menina daquela situação. As duas perderam contato.
Anos depois, já adulta, a entrevistada presenciou outra situação de vulnerabilidade envolvendo uma mulher em um país no exterior. Foi quando começou a entender que estar em posição de ajudar também implicava responsabilidade. Em 2011, passou a se reconhecer como ativista e a estudar mais diretamente o tráfico de pessoas e as diferentes formas de exploração.
Hoje, ela atua na Dignitate Brasil, organização que trabalha com conscientização, acolhimento e apoio a pessoas afetadas por tráfico humano, abuso e exploração. A entidade informa que reúne uma rede de voluntários e busca contribuir para a reintegração social e a recuperação da dignidade de sobreviventes.
Como o abuso na infância pode afetar as relações na vida adulta
Uma das preocupações de Jorgelina é o efeito prolongado de experiências de negligência, violência e exploração. Na avaliação da entrevistada, algumas vítimas crescem sem referências consistentes de cuidado e passam a interpretar comportamentos abusivos como parte normal das relações.
Ela descreveu situações em que crianças receberam atenção e aprovação apenas em contextos de violência. Mais tarde, já adultas, algumas dessas pessoas tiveram dificuldade para reconhecer limites, identificar relações perigosas ou imaginar alternativas à exploração. São observações baseadas em sua experiência de campo, não uma regra que se aplica a todas as vítimas.
Ao conversar com David Wilson sobre saúde mental, Jorgelina também destacou que o resgate de uma situação de exploração não encerra automaticamente o sofrimento. Dependendo da experiência e do acesso a apoio, a pessoa pode precisar de acompanhamento prolongado para lidar com trauma, medo, culpa, vergonha ou dificuldades de relacionamento.
A recuperação, no entanto, não segue um roteiro único. Sofrer abuso não determina o futuro de uma criança, e o acolhimento adequado, a proteção e o cuidado especializado podem fazer diferença em seu desenvolvimento.
Por que informar sobre o tráfico de pessoas não basta para prevenir
Para Jorgelina, existe uma diferença entre conscientizar alguém sobre um crime e oferecer condições reais para que essa pessoa não fique exposta a ele. A entrevistada citou três tipos de vulnerabilidade recorrentes no trabalho que acompanha: econômica, emocional e relacionada a gênero.
Ela explicou que uma pessoa pode reconhecer os riscos de uma oferta suspeita e, ainda assim, considerar aceitá-la quando não tem comida, moradia, apoio familiar ou outra alternativa de sobrevivência. O relato é um alerta para que ações de prevenção incluam assistência social, proteção de crianças e adolescentes, fortalecimento de vínculos e acesso a serviços públicos.
A entrevistada também pediu maior participação de instituições presentes na comunidade, como escolas, igrejas, clubes e organizações sociais. Para ela, esses espaços precisam saber como reconhecer situações preocupantes e a quem recorrer, em vez de limitar a resposta a conversas informais.
Abusadores nem sempre correspondem ao estereótipo de uma pessoa perigosa
Outro ponto forte da conversa foi a advertência contra a ideia de que a aparência ou o comportamento social permitem identificar facilmente quem comete violência. Jorgelina relatou casos em que pessoas aparentemente respeitáveis ocupavam posições de confiança junto às famílias.
Isso não significa tratar qualquer adulto como suspeito. Significa não usar prestígio, parentesco, posição religiosa ou boa reputação como razões para ignorar um relato, desconsiderar sinais de alerta ou dispensar procedimentos de proteção.
Na entrevista, ela defendeu que instituições que recebem crianças adotem regras claras de supervisão, critérios adequados de seleção de colaboradores e canais seguros para comunicar suspeitas. Os procedimentos devem respeitar a legislação e as atribuições dos órgãos responsáveis.
Como ouvir uma criança que relata abuso sexual
Jorgelina insistiu na importância de ouvir as crianças com atenção. Nem sempre elas conseguem nomear o que aconteceu ou apresentar um relato organizado como o de um adulto. Uma fala aparentemente confusa pode merecer acolhimento e avaliação da rede de proteção.
As orientações oficiais de proteção de crianças e adolescentes recomendam que o adulto mantenha a calma, escute sem interromper, diga que a criança não tem culpa e não faça um interrogatório para obter detalhes. Não se deve prometer segredo absoluto, confrontar o suspeito ou tentar realizar uma investigação particular.
O Guia de Escuta Especializada do Ministério dos Direitos Humanos recomenda preservar a privacidade e evitar perguntas repetitivas que possam constranger a vítima ou prejudicar seu acolhimento. A apuração deve ficar com profissionais habilitados e autoridades competentes.
O cuidado também precisa continuar depois do primeiro relato. Crianças que viveram violência podem necessitar de atendimento médico, psicológico e assistência social, sempre conforme suas necessidades e a avaliação das equipes responsáveis.
Famílias, escolas e comunidades podem ajudar a prevenir abusos
Na parte final do encontro, David Wilson perguntou que atitudes concretas poderiam ser tomadas por pais, vizinhos, líderes comunitários e profissionais que convivem com crianças. Jorgelina respondeu que a proteção começa pelo cotidiano: atenção às mudanças de comportamento, respeito ao corpo da criança e abertura para conversas difíceis.
Ela defendeu que crianças sejam ensinadas, de maneira adequada à idade, a reconhecer limites corporais e a comunicar situações que as deixem desconfortáveis. Também recomendou atenção à exposição de imagens pessoais nas redes sociais e às interações digitais de crianças e adolescentes.
Em escolas, clubes, igrejas e outras instituições, o cuidado envolve criar protocolos para registrar preocupações, orientar equipes, encaminhar denúncias e evitar situações de isolamento sem supervisão. Nenhuma medida isolada garante que uma violência nunca acontecerá, mas práticas consistentes podem reduzir riscos e facilitar uma resposta rápida.
Como denunciar uma suspeita de abuso infantil
A entrevista termina com um recado direto: é possível pedir ajuda mesmo quando ainda não há certeza sobre o que ocorreu. Quem recebe a informação não precisa provar o crime nem investigar pessoalmente; cabe aos serviços de proteção e às autoridades avaliar a situação.
No Brasil, o Disque 100 recebe gratuitamente, 24 horas por dia, denúncias de violações de direitos, inclusive abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. Também é possível procurar o Conselho Tutelar. Em situação de perigo imediato, deve-se acionar a Polícia Militar pelo 190. O atendimento de saúde deve ser buscado sem demora quando há suspeita de violência sexual recente.
Ao informar uma suspeita, o mais útil é relatar objetivamente o que foi visto ou ouvido, quando aconteceu, onde ocorreu e se há risco atual para a vítima. Não é necessário expor publicamente a identidade da criança ou compartilhar imagens e detalhes íntimos em redes sociais.
A omissão de quem deveria proteger pode aprofundar a dor
Ao encerrar a conversa, David Wilson retomou uma das conclusões mais marcantes do relato de Jorgelina: além da violência sofrida, algumas vítimas carregam a sensação de terem sido abandonadas por quem deveria protegê-las.
Para a ativista, o cuidado não pode depender exclusivamente dos pais. Professores, familiares, profissionais de saúde, vizinhos e pessoas que convivem com crianças têm responsabilidade em observar, acolher e comunicar riscos. Diante de uma suspeita, agir por meio da rede de proteção pode ser decisivo para interromper uma situação de violência.
Assista à entrevista completa com Jorgelina Burgos
Na entrevista da Veredas Treinamentos, o Dr. David Wilson conversa com Jorgelina Burgos sobre abuso sexual infantil, tráfico de pessoas, danos emocionais, acolhimento de vítimas e prevenção da violência. Confira o episódio completo no vídeo abaixo.










