Millôr Fernandes é o humorista que gerações de brasileiros acompanharam. Primeiro na revista O Cruzeiro, com a seção O Pif Paf, que convivia na publicação dos Diários Associados com o cartum semanal do Amigo da Onça, de Péricles. Este, aliás, ilustrou inicialmente a página dupla do jovem, que assinou o espaço inicialmente como Emanoel Vão Gogo. Como se Millôr não se parecesse com um pseudônimo. O carioca do Méier observou seu registro manuscrito de nascimento, onde “Milton” mais parecia Millôr, e adotou oficialmente a nova alcunha.
Nos anos 1970, Millôr assumiu o cargo de editor do lendário jornal O Pasquim. No período apelidado como “gripe” por seus envolvidos, o já lendário escritor, dramaturgo, jornalista e cartunista atuou para que o jornal não deixasse de circular nem por uma única semana. O estado-maior do Pasquim foi encarcerado pela ditadura daqueles tempos. E o hebdomanário saiu ostentando conteúdos de colunistas convidados – Glauber Rocha e Chico Buarque entre eles – além de cartuns e charges de Ziraldo e Jaguares-cover, criados por Henfil e um iniciante Miguel Paiva.
Décadas após o episódio, em 2008, a imprensa traz à tona uma bomba de efeito moral. A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça indeniza alguns presos do Pasquim naquela ocasião. Considerados anistiados políticos pela Comissão, Ziraldo e Jaguar recebem expressivas quantias, entre pensões mensais e indenizações. O autor do Menino Maluquinho é questionado publicamente pelo colega mais velho, com quem inclusive tinha trabalhado na revista O Cruzeiro: “Quer dizer que aquilo não era ideologia, era investimento?”
Millôr Fernandes faleceu em 2012. Ziraldo Alves Pinto em 2024, Sérgio Jaguaribe no ano seguinte. Mas os homens de valor são eternos.
Calógeras Pantocrator é escritor, pensador e observador contrariado da condição humana. Suas opiniões são próprias, suas certezas são muitas e sua paciência é pouca.










