Criado por Leone durante a pandemia, canal transforma desenhos animados, quadrinhos e outras memórias afetivas em minidocumentários baseados em entrevistas, livros e publicações de época
Antes de se transformar em vídeos, a história do FREQ! começou com uma curiosidade: descobrir o que existe por trás das obras que fazem parte da vida das pessoas. Para Leone, criador do canal, esse interesse nasceu ainda na infância, com revistas como a Herói, e se aprofundou durante a adolescência, quando passou a acompanhar publicações sobre música e biografias de bandas.
O hábito despertou um interesse permanente por livros de não ficção e documentários. Antes de encontrar seu formato no YouTube, Leone chegou a escrever sobre programas de televisão e quadrinhos em blogs, além de colaborar como editor da Wikipédia. Também iniciou um canal de resenhas de quadrinhos e publicou vídeos nos quais folheava e comentava revistas de sua coleção, inspirado pelo canal norte-americano Comic Tropes.
A ideia que daria origem ao FREQ!, porém, surgiu a partir de outro vídeo. O canal Let’s Get!! havia produzido um conteúdo sobre um jogo que marcou a vida de seu criador. Leone percebeu que poderia fazer algo semelhante com Maui Mallard in Cold Shadow, game que também ocupava um lugar importante em sua memória.
A vontade permaneceu guardada até o período da pandemia. Na época, Leone acompanhava canais como Defunctland e Comic Tropes, dedicados às histórias e aos bastidores da cultura pop. Ainda sem muita confiança para colocar o projeto em prática, recebeu o incentivo da esposa, então namorada, e finalmente produziu o vídeo.
“Gostei do formato de minidocumentário e acabei fazendo mais sobre outros assuntos”, recorda. Com a publicação regular e a participação dos inscritos, os desenhos animados passaram a ocupar cada vez mais espaço no canal.
Pesquisa contra os rumores
Por trás da nostalgia presente nos temas existe um trabalho de investigação. Leone mantém uma lista — descrita por ele como “enorme” — de possíveis assuntos. Depois de selecionar um deles, procura identificar quais fontes estão disponíveis: entrevistas com os criadores, matérias publicadas na época do lançamento, livros e outras referências que possam ajudar a reconstruir a história.
Revistas antigas digitalizadas também cumprem um papel importante. Leone costuma explorar essas publicações e guardar anotações sobre assuntos que poderão se transformar em vídeos no futuro. Muitas vezes, o material impresso ajuda a solucionar conflitos entre diferentes versões de uma mesma história.
“Na internet acontece muita distorção dos fatos sobre temas da cultura pop, entre rumores que saíram de controle e exageros para polemizar”, explica.
Sempre que possível, ele prioriza o depoimento dos profissionais diretamente envolvidos nas produções. No caso de animações das décadas de 30 e 40, grande parte dos artistas já morreu. Para obras mais recentes, entretanto, podcasts e entrevistas permitem consultar criadores que trabalharam nas produções — e que muitas vezes aproveitam essas conversas para desmentir histórias repetidas durante anos.
O próprio testemunho dos envolvidos, contudo, não é tratado como uma verdade absoluta. Leone reconhece que as lembranças também podem ser afetadas pelo tempo, por interpretações pessoais e, em situações extremas, por interesses dos entrevistados. Seu objetivo é confrontar as diferentes versões até chegar o mais próximo possível dos fatos.
Entre o interesse pessoal e o público
Nos primeiros anos do FREQ!, a escolha dos temas seguia principalmente a curiosidade do próprio criador. Hoje, Leone procura equilibrar seus interesses com as sugestões dos inscritos e os assuntos que despertam mais comentários.
Essa relação ajuda a definir o percurso do canal, mas a investigação frequentemente leva a lugares inesperados. A pesquisa sobre Walter Lantz, responsável pelo estúdio que criou o Pica-Pau, revelou uma trajetória muito mais surpreendente do que Leone imaginava.
Outro caso marcante foi o do estúdio canadense Cinar, envolvido em um escândalo que ele descreve como “um poço sem fundo de coisas erradas”. Até mesmo a história do Boneco da Michelin, personagem associado à fabricante de pneus, apresentou acontecimentos inesperados durante a apuração.
Essas descobertas ajudam a explicar por que o canal ultrapassa a simples recordação de programas antigos. A memória afetiva funciona como porta de entrada, mas o objetivo é compreender as pessoas, empresas e circunstâncias existentes por trás daquilo que chegou às telas.
A criação como trabalho humano
Leone espera que o FREQ! contribua para preservar a memória da animação e da televisão. Ao longo da produção dos vídeos, porém, percebeu que existe outra preocupação atravessando seu trabalho: manter viva a ideia da criação humana.
O aspecto que mais o interessa é entender como as ideias surgem, quais experiências e influências alimentam o processo criativo e o que acontece quando a inspiração original precisa atravessar os sistemas de produção e distribuição.
“Gosto principalmente desse aspecto das histórias, de mostrar como ideias se originam na cabeça das pessoas, como suas influências, experiências e a cultura ao redor moldam seus trabalhos”, afirma.
Essa perspectiva também orienta os próximos caminhos do canal. Além de animações, Leone pretende abordar a internet das décadas de 90 e anos 2000. Para ele, já existe distância histórica suficiente para refletir sobre esse período — justamente quando sites, comunidades e registros daquela época desaparecem progressivamente.
Ao recuperar revistas, entrevistas, depoimentos e produções esquecidas, o FREQ! transforma lembranças individuais em documentação acessível. Seus vídeos mostram que revisitar um desenho não precisa significar apenas sentir saudade. Também pode ser uma maneira de compreender como ele foi criado, quem participou dessa criação e por que continua ocupando espaço na memória de tantas pessoas.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










