No Fique Por Dentro, jornalista reage à declaração de Ivana David e abre debate sobre responsabilidade e exposição pública de autoridades na era das redes sociais
As redes sociais mudaram não apenas a velocidade com que uma declaração se espalha, mas também o destino das frases que, em outros tempos, poderiam desaparecer nos bastidores.
Foi a partir dessa constatação que Heródoto Barbeiro iniciou um episódio do programa Fique Por Dentro. Segundo o jornalista, frases contundentes ou inusitadas antes corriam o risco de cair no esquecimento — ou, quando muito, aparecer no antigo “jornal de tinta e papel”. Hoje, basta uma gravação chegar à internet para ficar ao alcance de qualquer cidadão.
O exemplo escolhido por Heródoto foi uma declaração da desembargadora Ivana David, do Tribunal de Justiça de São Paulo, sobre os efeitos da classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos.
Durante entrevista concedida ao Live CNN, Ivana afirmou que informações obtidas por meio dos serviços de inteligência já indicavam aumento no preço da cocaína. Segundo ela, quanto maiores as dificuldades impostas ao tráfico, mais cara tende a ficar a droga.
Embora a observação tenha sido apresentada como um possível indicador dos efeitos da medida sobre o mercado ilegal, a frase isolada chamou a atenção nas redes sociais — e também de Heródoto.
“Não é o quilo do café. Não é um filão de pão. É a cocaína”, reagiu o jornalista, demonstrando estranhamento diante da naturalidade com que o preço da droga apareceu na declaração de uma integrante do Poder Judiciário.
Heródoto fez questão de afirmar que não pretendia estender sua crítica a todo o Judiciário. O ponto central de seu comentário estava na repercussão pública da fala e no fato de que autoridades, hoje, dificilmente conseguem manter determinadas opiniões ou formulações restritas aos bastidores.
Se antes os cidadãos raramente sabiam o que integrantes dos poderes da República pensavam ou diziam fora dos discursos oficiais, as redes sociais passaram a funcionar como uma espécie de arquivo permanente — sem filtro, sem cerimônia e, muitas vezes, sem o contexto completo.
No encerramento do episódio, Heródoto lançou a pergunta diretamente ao público: uma declaração como essa mereceria algum tipo de repreensão por parte do Conselho Nacional de Justiça?
Mais do que responder, o jornalista deixou aberta uma discussão sobre os limites da comunicação pública de uma autoridade. Afinal, na internet, o contexto pode até explicar uma frase. Mas quase sempre chega depois que ela já ganhou vida própria.










