Em entrevista a Heródoto Barbeiro no Jornal NovaBrasil, o cardiologista e eletrofisiologista Alexander Dal Forno explica como o dispositivo funciona, desfaz mitos sobre a cirurgia e afirma que a maioria dos pacientes pode retomar o trabalho e as atividades físicas depois da recuperação.
Para muita gente, ouvir do médico que será necessário implantar um marca-passo soa como duas notícias ruins ao mesmo tempo: a de que o coração deixou de funcionar sozinho e a de que, dali em diante, a vida será cercada por limitações.
Nenhuma dessas conclusões corresponde necessariamente à realidade.
Em entrevista a Heródoto Barbeiro no Jornal NovaBrasil, o cardiologista e eletrofisiologista Alexander Dal Forno explicou que boa parte do medo relacionado ao marca-passo nasce de ideias antigas ou de uma compreensão equivocada sobre o funcionamento do dispositivo.
O marca-passo é um pequeno aparelho eletrônico usado para ajudar o coração a manter uma frequência adequada. Ele monitora os batimentos e, quando identifica que estão lentos demais, envia impulsos elétricos para estimular o músculo cardíaco. Não substitui o coração nem permanece obrigatoriamente comandando todos os seus batimentos: atua de acordo com a necessidade de cada paciente.
O aparelho não torna o coração dependente
Segundo Dal Forno, um dos mitos mais comuns é o de que a pessoa se torna dependente porque colocou o marca-passo.
Essa ideia exige uma distinção importante. Existem pacientes cujo coração precisa frequentemente dos estímulos enviados pelo aparelho. Nesses casos, porém, a necessidade é provocada pelo problema elétrico que levou ao implante — e não pelo dispositivo. O marca-passo não enfraquece o coração nem cria a doença; ele compensa uma alteração que já existia.
“Ele está ali para ajudar o batimento cardíaco a voltar aos valores normais”, explicou o médico.
O objetivo é permitir que o organismo volte a receber sangue e oxigênio de maneira compatível com suas necessidades. Para quem sofria com frequência cardíaca muito baixa, a diferença pode ser percebida na disposição para caminhar, trabalhar e realizar atividades que antes provocavam cansaço.
É preciso abrir o peito para colocar um marca-passo?
Outra imagem que costuma assustar os pacientes é a de uma cirurgia cardíaca de grande porte, com a abertura do tórax. No implante convencional, isso geralmente não acontece.
O procedimento costuma ser realizado por meio de uma pequena incisão na região abaixo da clavícula. O gerador fica alojado sob a pele, enquanto os eletrodos são conduzidos por uma veia até o interior do coração. O posicionamento é acompanhado por imagens de raio X, técnica conhecida como fluoroscopia.
De acordo com Dal Forno, muitos pacientes recebem alta no dia seguinte. O tempo de internação e a recuperação, porém, podem variar conforme o quadro clínico, o tipo de dispositivo e a orientação da equipe responsável.
A descrição coincide com a da American Heart Association, que define o marca-passo como um dispositivo pequeno, alimentado por bateria e normalmente implantado sob a pele por uma pequena incisão.
Quanto tempo dura a bateria?
A bateria não precisa ser trocada todos os anos. Segundo o cardiologista, sua duração pode variar de oito a 15 anos, dependendo do modelo, da programação e da frequência com que o aparelho precisa estimular o coração.
O paciente passa por acompanhamentos periódicos nos quais a equipe verifica o funcionamento dos eletrodos, a programação e a quantidade de energia disponível. A substituição, portanto, é planejada antes que a bateria termine.
Quando chega o momento da troca, geralmente é substituído o gerador — a parte que contém a bateria e os componentes eletrônicos. Os eletrodos podem permanecer no lugar se estiverem funcionando adequadamente. A American Heart Association também destaca que a troca costuma ser menos complexa do que o primeiro implante.
Quando o marca-passo é indicado?
Dal Forno explica que uma das principais indicações ocorre quando há um comprometimento do sistema elétrico natural do coração, provocando uma redução excessiva dos batimentos. Essa condição pode se manifestar por sintomas como tontura, desmaios, fraqueza ou cansaço durante esforços.
Esses sinais, isoladamente, não significam que uma pessoa precisa de marca-passo. Eles podem ter diferentes causas e devem ser investigados por um médico. A indicação depende da avaliação clínica e de exames capazes de registrar o ritmo cardíaco.
Em algumas situações, o implante é necessário para evitar riscos graves. Em outras, pode ser indicado para reduzir sintomas e melhorar a qualidade de vida. Dal Forno acredita que, no Brasil, o dispositivo ainda é lembrado principalmente nos casos de risco de morte e poderia ser considerado com maior frequência em pacientes que têm sua rotina comprometida pela lentidão dos batimentos.
O acesso ainda é um desafio no Brasil
Dados do Censo Mundial de Marca-passos e Desfibriladores de 2019, citados pelo médico, estimavam que cerca de 300 mil brasileiros utilizavam o dispositivo e que aproximadamente 49 mil novos implantes eram realizados por ano.
Para Dal Forno, esses números permanecem abaixo do observado proporcionalmente em outros países, o que sugere a existência de pessoas que poderiam se beneficiar do tratamento, mas não chegam ao implante.
O marca-passo convencional está disponível pelo Sistema Único de Saúde. O protocolo do Ministério da Saúde determina que pacientes com indicação sejam encaminhados a centros de referência em alta complexidade cardiovascular. O desafio, portanto, não envolve apenas o preço do aparelho, mas também diagnóstico, encaminhamento e acesso aos serviços especializados.
É possível voltar a trabalhar e praticar exercícios?
Passado o período inicial de recuperação, o paciente pode retornar gradualmente às atividades habituais. Dal Forno menciona um intervalo em torno de 30 dias para a cicatrização e a fixação adequada do sistema, mas o prazo e as restrições devem ser definidos individualmente pela equipe médica.
Depois da liberação, a maioria dos pacientes pode voltar ao trabalho, aos exercícios e às tarefas cotidianas. Algumas modalidades esportivas ou atividades com risco de impacto direto sobre o aparelho podem exigir cuidados específicos.
Ter um marca-passo também não significa, por si só, que a pessoa esteja condenada a uma vida sedentária ou que não possa fazer esforço. Em muitos casos, era justamente a frequência cardíaca baixa que impedia o paciente de se movimentar normalmente.
O dispositivo não deve ser visto como o anúncio de que a vida precisará diminuir. Para quem convivia com tonturas, desmaios, cansaço ou falta de disposição provocados por um problema no ritmo cardíaco, ele pode representar exatamente o contrário.
O marca-passo não substitui o coração. Ele devolve ao coração o estímulo de que precisa — e, muitas vezes, devolve ao paciente a possibilidade de retomar a própria vida.










