História

Sete de Setembro

Quando eu era criança, aprendíamos História do Brasil na escola.


O 7 de Setembro era o grande dia para nós, Dia da Independência, festa nacional. Ensaiávamos o ano todo o Hino Nacional, aprendíamos nomes e datas, desenhávamos a bandeira, com cuidado, seguindo a regra de que as figuras não podiam se tocar.


Muitos de nós vivemos isso na escola. Crianças diferentes, com sotaques diferentes, famílias diferentes, culturas diferentes, num país enorme. Mas aprendíamos algumas coisas juntos.
A bandeira era a mesma. O hino era o mesmo. A história que nos contavam era, em grande parte, a mesma.


De lá para cá, muita coisa mudou. Passamos pela ditadura, pelo AI-5, pela redemocratização e por duas Constituições durante o regime militar, até chegar à Constituição Cidadã de 1988.


Ela estabeleceu direitos, ampliou a cidadania e afirmou a igualdade como princípio.
Ainda estamos longe de realizar tudo o que está escrito nela.


O hino nos une de um jeito curioso. Bastam os primeiros acordes e reconhecemos. Ficamos de pé.
Não porque a história que ele representa seja uma história bonita, dessas que cabem inteiras nos livros escolares. Nossa história é feita de contradições, violências, desigualdades e exclusões. Mas também de gente comum: pessoas que foram escravizadas, trabalharam, migraram, cuidaram dos filhos, construíram cidades, lutaram por direitos, fizeram festas, inventaram modos de viver.


Independência também é soberania: um país poder decidir seus próprios caminhos e se relacionar com as outras nações como igual entre iguais.


E igualdade não é apenas uma palavra. É uma construção permanente. A Constituição de 1988 nos deu um marco para essa construção, mas ainda temos muito a fazer.


Por isso, o Dia da Pátria não é apenas 7 de Setembro.


É todo dia em que cuidamos do país que compartilhamos.


Somos muitos. Falamos diferente. Vivemos diferente. Temos histórias diferentes.


Temos uma história comum que não precisa ser bonita para ser nossa — mas precisa ser conhecida, discutida e transformada por nós.

Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco  décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.