Nascida durante uma jam despretensiosa em um bar, a banda aposta em releituras que levam músicas conhecidas para lugares inesperados
Na Jack Velvet, uma música conhecida pelo público não representa um ponto de chegada, mas o começo de uma nova experiência. Uma balada pode se transformar em um blues chorado. Uma canção brasileira pode ganhar novas camadas de groove. E um clássico internacional pode reaparecer com uma identidade completamente diferente daquela que o tornou famoso.
Curiosamente, a própria banda nasceu dessa mesma disposição para experimentar. Não houve uma reunião formal, um planejamento detalhado ou a decisão antecipada de criar um novo projeto. Tudo começou durante uma jam despretensiosa, com músicos reunidos em um bar.
O guitarrista Laércio, produtor musical e sideman de diferentes artistas, já estava no palco quando o vocalista Vinícius Camargo apareceu. Com passagens pelas bandas Doutor Saruê e Mamma Arlet, ele recebeu o convite para participar do som. Os dois começaram por um blues de 12 compassos e seguiram por músicas de nomes como Muddy Waters, Stevie Ray Vaughan, Bill Withers e Eric Clapton.
A resposta de quem estava no bar foi imediata.
“A galera simplesmente pirou. No meio daquela noite surgiram contatos, conversas e as primeiras ideias entre mim e o Laércio”, conta Vinícius.
Aquela apresentação improvisada começou, então, a ganhar forma de banda. Laércio convidou Ricardo para os teclados e Filipinho para a bateria. Vinícius trouxe Fernando Lopes para o baixo. Estava formada a Jack Velvet.
Músicas conhecidas, mas não do jeito esperado
Desde o início, a proposta foi conciliar a diversão espontânea daquela primeira jam com a seriedade de um projeto profissional. Em vez de apenas reproduzir músicas consagradas, a Jack Velvet procura transportá-las para o universo do blues e do soul, criando novos arranjos e imprimindo a personalidade de seus integrantes em cada interpretação.
“A gente gosta de pegar músicas conhecidas e levar para um lugar completamente diferente, colocando a nossa assinatura”, explica o vocalista.
Um dos exemplos é “Nada por Mim”. A canção, originalmente marcada pelo formato de balada, ganhou nas mãos da banda a forma de um blues carregado de sentimento. O mesmo processo aparece nas releituras de “Boa Noite”, de Djavan, “Just the Way You Are”, “Mind Trick” e “Palpite”, de Vanessa Rangel.
Mais do que trocar o ritmo ou acelerar uma música, o grupo procura descobrir o que cada composição pode se tornar quando atravessada pelas referências de seus músicos. Foi dessa proposta que nasceu o slogan da banda: “O swing que você achava que não precisava.”
Do rock visceral à música negra
A variedade de referências da Jack Velvet também está presente na formação musical de Vinícius. Nascido nos anos 1980, ele cresceu sob forte influência do rock, especialmente de bandas com uma sonoridade mais pesada e visceral, como o Motörhead. O punk e o caráter contestador de grupos como Rage Against the Machine também fizeram parte de sua descoberta da música.
Seu caminho em direção à MPB, à bossa nova, ao jazz, ao blues e ao soul, porém, começou quase por acaso — e por uma dificuldade.
Vinícius queria aprender a tocar violão, mas não conseguia compreender as tablaturas das revistas de rock. As cifras, por outro lado, pareciam mais acessíveis. Por isso, passou a comprar revistas que traziam músicas de MPB e bossa nova.
“Aquilo foi me levando para outros lugares. Comecei a criar um carinho pela MPB, pela bossa nova, depois pelo jazz, e o jazz acabou me levando também para o blues”, relembra.
Outra influência decisiva foi o Faith No More. A mistura de rock, funk, metal, soul e outras sonoridades mostrou ao então jovem músico que não era necessário permanecer preso a um único gênero. A admiração pelo vocalista Mike Patton também o incentivou a estudar canto.
“Comecei a estudar para tentar chegar pelo menos a uma unha perto do dono das sete mil vozes”, brinca.
A curiosidade abriu caminho para novas descobertas. Vieram Funkadelic, Albert King, Stevie Ray Vaughan, Marvin Gaye, Bill Withers e muitos outros. Aos poucos, Vinícius percebeu a presença fundamental da música negra por trás de grande parte dos sons que já o fascinavam.
Essa trajetória não foi resultado de um roteiro previamente definido. Um artista conduziu a outro, um gênero revelou as origens de outro e cada descoberta despertou uma nova pergunta.
“Eu nunca sentei e falei: ‘Agora vou estudar blues’ ou ‘agora vou estudar soul’. Fui chegando nesses lugares naturalmente, através da curiosidade e da vontade de entender de onde vinham os sons que me fascinavam.”
Deixar a música mostrar o caminho
Essa mesma liberdade que orientou a formação musical do vocalista aparece nos planos da Jack Velvet. A prioridade, neste momento, é continuar reunindo bons músicos, construindo arranjos próprios e levando ao público a sonoridade que o grupo vem desenvolvendo.
A possibilidade de gravar um álbum e produzir músicas autorais existe, mas ainda não foi transformada em uma obrigação. Para Vinícius, tentar definir antecipadamente todos os passos poderia limitar justamente aquilo que tornou o projeto possível: a espontaneidade.
“Acho que a gente tem que deixar o projeto caminhar naturalmente, como uma nascente. A gente sabe de onde ela nasce, mas não precisa decidir exatamente por onde o rio vai passar.”
Se a Jack Velvet começou inesperadamente em uma jam, talvez faça sentido que seu futuro também permaneça aberto às surpresas. Por enquanto, a direção é aquela que acompanha a banda desde a primeira noite: deixar a música mostrar o caminho.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










