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O JOGO SÓ ACABA QUANDO TERMINA

Em um dos vídeos mais emocionantes de sua trajetória, Lito Sousa fala sobre fé, família, amizade, gratidão e o desejo de ver seu conhecimento continuar transformando vidas

Há vídeos que a gente assiste. E há vídeos que nos obrigam a parar.

Nesta quarta-feira (26), Lito Sousa publicou no canal Aviões e Músicas um relato difícil, emocionante e profundamente humano. Ao lado da esposa, Mila Seidl, ele falou sobre a doença rara que enfrenta, as limitações que começaram a surgir e as incertezas em relação ao futuro.

Mas seria injusto reduzir aqueles 30 minutos a um vídeo sobre uma doença.

O que Lito entregou foi uma reflexão sobre aquilo que realmente importa quando tudo o que parecia urgente perde a importância. Ele falou sobre legado, amizade, família, gratidão e fé. Falou sobre a vida com a serenidade de quem olha para trás e reconhece que valeu a pena.

E, apesar da gravidade do momento, fez questão de deixar uma porta aberta para a esperança:

— O jogo só acaba quando termina.

Lito lembrou que é um homem de ciência, mas também um homem de fé. Disse acreditar que milagres acontecem e que ninguém sabe o que ainda pode vir pela frente. Em vários momentos, mencionou a possibilidade de gravar uma segunda parte daquele vídeo.

Não era apenas uma maneira de aliviar a tensão. Era a decisão consciente de não entregar o resultado antes do apito final.

O conhecimento como legado

Quem acompanha o trabalho de Lito conhece sua paixão pela aviação e sua capacidade de transformar assuntos técnicos em explicações que qualquer pessoa consegue compreender.

Ao longo dos anos, ele analisou acidentes, explicou procedimentos, combateu informações equivocadas e ajudou muita gente a superar o medo de voar. Milhões de pessoas aprenderam com seus vídeos, cursos, livros, palestras e projetos educacionais.

No novo vídeo, porém, ele deixa claro que nunca desejou apenas construir uma audiência. Seu objetivo sempre foi compartilhar conhecimento.

Essa talvez seja uma das formas mais poderosas de legado. Conhecimento compartilhado não termina na pessoa que o ensina. Ele continua nas decisões tomadas por quem aprendeu, nos profissionais formados, nos acidentes evitados e nas vidas preservadas.

Lito fala com orgulho da escola que construiu, da formação de novos mecânicos e dos projetos que ainda estão sendo desenvolvidos. Também reconhece que nada disso foi realizado sozinho. Faz questão de agradecer à esposa, à equipe e às pessoas que transformaram suas ideias em realidade.

Em determinado momento, corrige a própria frase:

— O meu legado, o nosso legado.

A mudança de uma palavra diz muito. Nenhum legado verdadeiramente grande é construído por uma pessoa só.

Os amigos que permanecem

Lito também fala sobre amizade. Recorda os amigos que conheceu quando o canal ainda era pequeno, em um antigo fórum de aviação, e que continuaram ao seu lado mesmo depois que o Aviões e Músicas ultrapassou a marca de milhões de seguidores.

Um deles, segundo conta, sempre destacou que Lito tratava as pessoas com o mesmo respeito quando possuía 1.500 seguidores e depois de alcançar 3,6 milhões.

É uma lembrança aparentemente simples, mas que revela muito sobre caráter. Crescer sem deixar de reconhecer quem caminhava ao nosso lado antes do reconhecimento talvez seja uma das maiores provas de integridade.

Agora, essa amizade retorna em forma de cuidado.

Amigos, parceiros e outros criadores de conteúdo estão se mobilizando para manter o canal ativo, preservar o alcance do projeto e proteger o trabalho de uma equipe da qual também dependem outras famílias.

Amizade não é apenas estar por perto nos momentos de celebração. É ajudar a sustentar aquilo que o outro construiu quando ele precisa se afastar.

O amor que aparece na presença

As passagens mais difíceis do vídeo são aquelas em que Lito fala sobre a esposa e o filho.

Ele diz não ter medo de morrer. Afirma que viveu uma vida boa, foi feliz e está em paz com a própria trajetória. O que realmente o assusta é imaginar a saudade que poderá deixar nas pessoas que ama.

Ao falar sobre o filho, Lito se emociona. Diz que gostaria de ter mais tempo para brincar, jogar futebol e “tomar muita caneta” do menino. Recorda ainda a maneira como ele atende ao telefone dizendo: “Oi, papai”.

Nesse instante, desaparecem o especialista em aviação, o palestrante, o escritor e o criador de um dos maiores canais brasileiros do segmento. Fica apenas um pai que gostaria de ter mais tempo com o filho.

Ao olhar para Mila, Lito não fala somente da esposa que permanece ao seu lado durante o tratamento. Ele fala da companheira com quem construiu uma vida.

Recorda que, quando um dos dois apresentava uma ideia, o outro apoiava. Os projetos deram certo porque existia parceria. A escola, as palestras, os cursos e tantas outras iniciativas também carregam o trabalho e a presença dela.

Legado não é apenas aquilo que uma pessoa deixa. É também aquilo que duas pessoas construíram juntas.

A gratidão em meio à dor

Talvez uma das maiores lições do vídeo esteja na maneira como Lito escolhe olhar para a própria história.

Ele não esconde a dor. Não minimiza o diagnóstico. Não finge que o momento é fácil. Ainda assim, consegue agradecer.

Agradece pela vida que viveu, pelas viagens, pelos amigos, pela carreira, pela família e até pela oportunidade de ainda estar consciente e poder conversar com as pessoas que ama.

Em vez de perguntar “por que eu?”, prefere reconhecer tudo o que recebeu durante a caminhada.

Gratidão, nesse caso, não significa ignorar o sofrimento. Significa não permitir que o sofrimento apague toda a beleza que existiu antes dele — e que continua existindo ao redor.

Lito também diz não guardar mágoas. Reconhece erros, perdoa quem o magoou e demonstra estar em paz com aquilo que construiu.

É difícil assistir a esse relato sem pensar em quanto tempo gastamos acumulando ressentimentos, adiando conversas, perseguindo coisas que pouco importam e deixando para agradecer quando talvez já seja tarde.

Ainda esperamos a parte dois

Esta não é uma matéria de despedida.

O próprio Lito fez questão de lembrar várias vezes que a história ainda não terminou. Ele continua acreditando, tomando decisões, acompanhando seus projetos e esperando por um milagre.

Por isso, sigo em oração por ele.

Oro para que Deus fortaleça Lito, Mila, o filho e toda a família. Oro para que os caminhos necessários se abram e para que ele ainda tenha muito tempo para viver, ensinar, brincar com o filho e gravar a tão desejada parte dois.

Também quero registrar minha gratidão aos amigos, parceiros, profissionais e integrantes da equipe que estão se empenhando para manter vivo o trabalho que Lito construiu. E, de maneira muito especial, à Mila, que permanece ao lado dele e agora carrega também a responsabilidade de proteger e dar continuidade a tantos sonhos.

O vídeo de Lito fala sobre uma doença, mas, acima de tudo, fala sobre a vida.

Uma vida não é medida apenas pelo tempo que dura, mas pelos vínculos que cria, pelo conhecimento que compartilha, pelas pessoas que transforma e pelo amor que consegue deixar pelo caminho.

Continuamos em oração, com fé e esperando a próxima parte.

Porque, como ele mesmo nos lembrou, o jogo só acaba quando termina.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo

ASSISTA AO RECADO COMPLETO DO LITO NO CANAL AVIÕES E MÚSICA: