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Juridiquês pode impedir cidadão de exercer seus direitos, alerta advogada

A dificuldade para compreender a linguagem do Direito pode ir muito além de uma simples barreira de comunicação. Para a advogada Kaian Drey, especialista em Direito Previdenciário, o chamado “juridiquês” pode fazer com que pessoas deixem de exercer direitos por não entenderem quais são as garantias que possuem.

O tema foi discutido durante entrevista com Heródoto Barbeiro no Jornal NovaBrasil. Segundo a advogada, é comum receber clientes que chegam ao escritório sem compreender orientações que já receberam de outros profissionais.

“Existe uma mística de que quem fala complicado tem mais capacidade técnica”, afirmou Kaian. Na avaliação dela, essa percepção contribui para afastar o cidadão da informação de que precisa para tomar decisões sobre sua própria vida.

Quando a falta de informação vira uma barreira

Para Heródoto Barbeiro, a falta de compreensão sobre direitos também pode ser entendida como uma forma de violência contra o cidadão.

Kaian concordou com a avaliação. Segundo ela, quando uma pessoa deixa de exercer um direito por desconhecimento ou desinformação, existe uma consequência concreta provocada pela falta de acesso à informação.

A questão ganha ainda mais importância no Direito Previdenciário, área em que Kaian atua. Aposentadorias, pensões e outros benefícios envolvem conceitos e procedimentos que nem sempre são fáceis de compreender para quem não está familiarizado com a linguagem jurídica.

“Eu vejo muitos clientes que chegam até mim sem entender os termos”, relatou.

O desafio de traduzir o Direito

A linguagem jurídica tradicional possui uma longa história marcada pelo uso de termos técnicos e, durante muito tempo, até mesmo expressões em latim fizeram parte do cotidiano dos profissionais da área.

Embora o uso dessas expressões tenha diminuído, Kaian avalia que o Direito ainda está distante de uma linguagem plenamente acessível à população.

Para ela, o advogado precisa desenvolver a capacidade de transitar entre dois universos: dominar a linguagem técnica necessária ao processo judicial e, ao mesmo tempo, saber explicar o problema ao cliente de maneira que ele realmente compreenda.

“Eu acredito que a gente ainda tem que construir essa forma de falar com o cliente de uma maneira simples, de uma maneira que ele entenda”, afirmou.

A própria experiência profissional, segundo a advogada, reforça essa necessidade. Kaian contou que atende muitos agricultores e procura adaptar a comunicação à realidade dessas pessoas.

“Existe uma barreira linguística no Brasil ainda muito grande”, disse.

Simplificar também dentro dos processos

A busca por uma linguagem mais objetiva não precisa ficar restrita à conversa entre advogado e cliente. Na avaliação de Kaian, o próprio Judiciário também vem caminhando para uma comunicação mais direta.

Ela citou como exemplo petições que, em determinados casos, poderiam ser reduzidas de 20 para dez páginas, utilizando uma linguagem mais objetiva sem perder o conteúdo necessário.

A simplificação, nesse sentido, não significaria abandonar a precisão técnica do Direito, mas eliminar aquilo que não contribui para a compreensão da questão.

Para Kaian, essa mudança também pode tornar o trabalho do Judiciário mais eficiente, especialmente em um cenário em que os processos precisam ser cada vez mais céleres.

Inteligência artificial: ferramenta, não substituta do pensamento

A entrevista também abordou o impacto da inteligência artificial sobre a comunicação jurídica.

Para Kaian, a tecnologia pode ajudar bastante, principalmente nas tarefas rotineiras. Mas existe uma condição: o profissional precisa continuar exercendo seu próprio julgamento sobre aquilo que a ferramenta produz.

“Ela pode ser uma boa ferramenta para terceirizar aquela rotina do dia a dia, mas não para terceirizar o pensamento e muito menos a mensagem”, afirmou.

A preocupação é que a inteligência artificial seja utilizada não apenas como ferramenta de apoio, mas como substituta da elaboração intelectual do profissional.

Na visão da advogada, a tecnologia tende a beneficiar principalmente aqueles que souberem utilizá-la de maneira consciente, mantendo o olhar crítico e a responsabilidade sobre o conteúdo produzido.

Direito que não é compreendido não chega ao cidadão

A discussão levantada por Heródoto Barbeiro e Kaian Drey toca em uma questão que ultrapassa o universo dos advogados: de pouco adianta um direito existir formalmente se a pessoa não consegue compreender que ele existe ou como pode exercê-lo.

Nesse contexto, tornar o Direito mais acessível não significa necessariamente abandonar os termos técnicos. Significa saber quando utilizá-los e, principalmente, saber traduzi-los para quem precisa tomar uma decisão.

Afinal, conhecimento jurídico que permanece preso ao “juridiquês” pode continuar sendo inacessível justamente para quem mais precisa dele.