Dei uma palestra sobre sexualidade na velhice em um congresso da área.
Surpreendi-me com o interesse dos profissionais mais jovens. As perguntas foram muitas, e a conversa continuou mesmo depois do encerramento.
A surpresa aumentou quando, dias mais tarde, um psicólogo destacou a palestra em uma rede social ao resumir os principais temas do evento. Percebi que o assunto mobilizava muito mais gente do que eu imaginava.
E não deveria ser uma surpresa.
Vivemos em um país que envelhece rapidamente — e que ainda sabe muito pouco sobre a própria velhice. Cada vez mais pessoas chegam aos 60, 70, 80 anos querendo preservar vínculos, intimidade, afeto e prazer. Isso faz parte da qualidade de vida, tanto quanto cuidar da saúde física ou manter a autonomia.
Ao mesmo tempo, poucos temas reúnem tantos tabus quanto esse. A sexualidade ainda provoca constrangimentos. A velhice também. Quando as duas se encontram, o silêncio costuma ser ainda maior.
Esse silêncio tem consequências. Pessoas mais velhas deixam de fazer perguntas, evitam falar sobre dificuldades, sentem vergonha de expressar dúvidas ou desejos. E muitos profissionais, por falta de formação ou constrangimento, também evitam tocar no assunto. O resultado é que uma dimensão importante da vida acaba sendo ignorada justamente quando poderia receber acolhimento e orientação.
Há ainda o medo do julgamento. Expressões como “velha assanhada” ou “velho sem-vergonha” parecem brincadeiras, mas ajudam a ridicularizar o desejo na velhice e reforçam a ideia de que envelhecer seria abrir mão da vida afetiva e sexual.
Talvez seja por isso que ainda persista a ideia de que envelhecer é entrar numa fase em que o desejo desaparece e a intimidade deixa de fazer sentido. Como se a velhice fosse uma espécie de terra arrasada da vida afetiva e sexual.
Não é.
A sexualidade muda ao longo da vida, como mudam o corpo, as prioridades e as formas de amar. Para algumas pessoas, ocupa menos espaço. Para outras, torna-se mais livre, mais tranquila ou mais inventiva.
Falar sobre sexualidade na velhice não é incentivar comportamentos nem oferecer receitas. É reconhecer que mulheres e homens continuam sendo pessoas inteiras, com histórias, desejos, limites e possibilidades.
Talvez o interesse daqueles jovens profissionais revele justamente isso: estamos começando a olhar para uma realidade que sempre existiu. O silêncio nunca significou ausência. Apenas fez de conta que a sexualidade desaparecia quando a velhice chegava.
Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.









