Mundo Real

“Bom dia, meu São Paulo, terra da garoa!”

Quem viveu na cidade há algumas décadas talvez ainda ouça essa frase na memória. Ela abria um programa de rádio logo cedo e parecia combinar perfeitamente com as manhãs paulistanas.

Na escola, eu achava curiosa a história de cidades brasileiras onde as pessoas marcavam compromissos para antes ou depois da chuva. Em São Paulo, isso parecia estranho. Conhecíamos as tempestades de verão e a garoa, que fazia parte da paisagem.

A gente saía de blusa de lã e guarda-chuva. Eu tinha até um mantô para enfrentar o inverno. Minha mãe reclamava da roupa que nunca secava direito e enchia os sapatos de jornal para absorver a umidade.

Hoje, quando conto isso aos mais jovens, parece exagero.

Não é saudade. É memória de uma cidade que mudou. E de uma mudança que nós vimos acontecer.

Derrubamos florestas, canalizamos rios, cobrimos o solo de asfalto e concreto. Depois nos espantamos com enchentes, deslizamentos de encostas e cidades cada vez mais vulneráveis.

Ao mesmo tempo, as mudanças climáticas intensificam secas prolongadas, incêndios devastadores, ondas de calor e chuvas que parecem dilúvios.

Hoje, quase tudo entra na conta do El Niño, da La Niña ou de outros fenômenos climáticos. Eles existem há muito tempo. A pergunta é outra: seriam tão devastadores se tivéssemos feito a lição de casa? Se tivéssemos protegido melhor nossas florestas, cuidado dos rios, planejado as cidades e levado mais a sério os alertas da ciência?

Nós, velhos e velhas, acompanhamos essa transformação. Não para carregar culpas, mas para reconhecer que ainda temos responsabilidades. Envelhecer também tem uma vantagem: lembrar que nada disso aconteceu de repente. Foi acontecendo, aos poucos, diante dos nossos olhos.

Ainda há como participar.

Votando também com o clima em mente. Prestando atenção em quem promete e em quem entrega.

Acompanhando como nossos representantes votam quando o assunto é meio ambiente. Cobrando políticas públicas de prevenção e adaptação. Defendendo a ciência. Conversando com filhos e netos sobre o mundo que desejamos deixar. E recusando a ideia de que tudo isso seja apenas obra do destino.

Velhos e velhas, uni-vos.

Ainda temos voz. E talvez nunca ela tenha sido tão necessária.

Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco  décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.