Quando eu era criança, uma vizinha decretava, todo começo de agosto:
— Cuidado! É o mês de cachorro louco!
Eu morria de medo.
Havia também a carrocinha, que recolhia cães soltos pelas ruas. Para uma criança, ela fazia parte do cenário de agosto e despertava apreensão. Pela transmissão ininterrupta da “rádio infância”, que circulava na escola e na vizinhança, sabíamos que os animais levados para o canil dificilmente teriam um bom destino se ninguém os procurasse.
Fui várias vezes com minha mãe buscar meu cachorro, um fugitivo contumaz, no canil municipal. Eu saía de lá chorando. Queria levar todos os cães para casa.
Qualquer mordida — e até um arranhão de um cachorro desconhecido — era motivo de preocupação. Falava-se nas temidas “injeções na barriga”, tratamento que marcou a memória de muitas gerações e simbolizava o medo da raiva, uma doença quase sempre fatal quando não tratada a tempo.
Hoje, quase não pensamos nisso.
Ainda bem.
Esquecemos porque campanhas de vacinação, atendimento às pessoas expostas ao vírus, vigilância sanitária e políticas públicas transformaram uma ameaça frequente em uma situação rara.
Há um paradoxo nisso. Quando uma vacina funciona, ela acaba vítima do próprio sucesso. Como a doença desaparece, muita gente passa a acreditar que a vacina já não é necessária.
Não é só a vacina contra a raiva. A vacinação acompanha toda a vida. Algumas vacinas são destinadas à infância, outras à adolescência, à vida adulta e à velhice. Nessa fase, vale lembrar, por exemplo, da vacina contra o herpes-zóster, que pode prevenir uma doença muito dolorosa e complicações que comprometem a qualidade de vida. É uma vacina que, na minha opinião, deveria integrar de forma ampla a oferta pública para a população idosa.
Vivemos um tempo em que doenças antes controladas voltam a preocupar porque a cobertura vacinal caiu. É um alerta para não esquecermos o que as vacinas conquistaram.
Talvez a maior vitória de uma vacina seja justamente esta: fazer a doença desaparecer a ponto de quase esquecermos que ela existiu.
E é exatamente por isso que ela continua sendo necessária.
Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.









