Quando se fala em violência contra a mulher, em quem você pensa?
Provavelmente não em uma mulher velha.
No entanto, a violência não desaparece quando os cabelos embranquecem. Muitas vezes, ela apenas muda de forma e se torna menos visível.
Há a violência física. A psicológica. A patrimonial, quando alguém controla a aposentadoria ou os bens da mulher. Há a negligência. A humilhação. E o tratamento infantilizado, como se ela já não pudesse decidir sobre a própria vida.
Existe também o isolamento.
Impedir que mantenha contato com amigos, controlar suas saídas, afastá-la da convivência, fazer com que passe dias sem uma conversa ou sem uma visita não é apenas tristeza. Quando isso decorre de abandono, controle ou negligência, também é uma forma de violência.
A solidão nem sempre é violência. Há quem escolha viver só e viva bem. Mas o isolamento imposto, o abandono e a invisibilidade social ferem profundamente.
Muitas mulheres carregam histórias de violência desde a juventude. Outras passam a vivê-la na velhice, justamente quando se tornam mais dependentes de familiares ou cuidadores. Há ainda as que convivem com o mesmo agressor há décadas. Apenas envelheceram.
A violência contra mulheres velhas ainda recebe pouca atenção. Muitas vezes, elas se tornam invisíveis justamente quando mais precisam ser vistas, ouvidas e protegidas.
Neste Agosto Lilás, talvez seja hora de ampliar nosso olhar.
As mulheres velhas continuam sendo mulheres.
Também precisam de proteção, respeito, autonomia e voz.
Porque a violência nem sempre deixa hematomas.
Às vezes, ela atende pelo nome de silêncio.
Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.









