Poucas empresas representam tão bem a evolução da tecnologia quanto a General Electric. Fundada por um dos maiores inventores da história, Thomas Edison, a companhia ajudou a popularizar a eletricidade, transformou a indústria, revolucionou a aviação, tornou-se referência em equipamentos médicos e chegou a ser considerada uma das maiores corporações do planeta.
Mas a trajetória da GE também mostra que nem mesmo os gigantes estão imunes às mudanças. Se, em diversos momentos, a empresa foi responsável por quebrar paradigmas, em outros precisou lidar com tecnologias que colocaram em xeque os próprios produtos que a tornaram famosa.
Esse é o ponto central do episódio do NEH! Podcast, em que Fernando Vítolo e Heródoto Barbeiro utilizam a história da companhia para discutir um tema recorrente no mundo dos negócios: a necessidade permanente de adaptação.
A origem da empresa remonta a 1878, quando Thomas Edison criou a Edison Electric Light Company. Naquele momento, a iluminação pública das grandes cidades era feita, principalmente, por lampiões a gás. Ruas, praças e estabelecimentos comerciais dependiam de uma tecnologia que exigia infraestrutura complexa, manutenção constante e apresentava riscos de incêndio.
Foi nesse cenário que Edison desenvolveu a lâmpada incandescente de uso comercial, capaz de durar centenas de horas. Mais do que criar um novo produto, ele ajudou a construir uma nova indústria. A eletricidade deixava de ser uma curiosidade científica para se tornar parte da vida cotidiana.
Não por acaso, a empresa cresceu rapidamente e, após a fusão com outra companhia do setor, passou a se chamar General Electric, nome que se tornaria sinônimo de inovação durante boa parte do século XX.
Durante o episódio, Heródoto Barbeiro lembra que Edison era conhecido não apenas por sua genialidade, mas também pela disciplina. Uma frase frequentemente atribuída ao inventor resume bem sua filosofia: “O sucesso é 1% inspiração e 99% transpiração”. Independentemente da porcentagem exata, a ideia traduz a visão de que grandes transformações dependem de muito trabalho, além de boas ideias.
A lâmpada foi apenas o começo.
Ao longo das décadas, a GE expandiu sua atuação para praticamente todos os segmentos ligados à eletricidade e à engenharia pesada. Passou a fabricar motores elétricos, geradores para usinas hidrelétricas, turbinas para produção de energia, equipamentos industriais, motores aeronáuticos e uma infinidade de soluções tecnológicas.
A empresa também se consolidou na área da saúde. Milhões de pessoas já realizaram exames em aparelhos de tomografia, ressonância magnética e outros equipamentos médicos produzidos pela General Electric, tornando a marca presente em hospitais do mundo inteiro.
Essa diversificação transformou a companhia em um verdadeiro conglomerado global. Em diferentes momentos de sua história, a GE atuou simultaneamente nos setores de energia, aviação, petróleo e gás, equipamentos médicos, transporte, software, pesquisa, serviços financeiros, iluminação e energias renováveis.
Durante muitos anos, parecia impossível imaginar que uma empresa desse porte pudesse perder protagonismo.
Mas foi exatamente isso que aconteceu.
Um dos exemplos mais simbólicos está justamente no produto que deu origem ao império de Edison: a lâmpada.
As primeiras lâmpadas incandescentes consumiam muita energia e tinham vida útil relativamente curta. Com o avanço da tecnologia surgiram as lâmpadas fluorescentes, que passaram a oferecer maior eficiência e durabilidade. Depois vieram as lâmpadas eletrônicas compactas e, mais recentemente, os LEDs, capazes de consumir uma fração da energia elétrica e durar dezenas de milhares de horas.
A consequência foi inevitável. O produto que durante décadas simbolizou a General Electric tornou-se tecnologicamente ultrapassado.
No Brasil, inclusive, a fabricação e comercialização das lâmpadas incandescentes comuns foram gradualmente descontinuadas como parte de políticas voltadas à eficiência energética. A mudança reduziu significativamente o consumo de eletricidade e contribuiu para aliviar a demanda sobre o sistema elétrico nacional.
Para Heródoto Barbeiro, esse é um exemplo clássico de quebra de paradigma. A mesma empresa que revolucionou a iluminação viu sua principal inovação ser substituída por tecnologias mais eficientes.
A história da GE também oferece uma importante lição sobre liderança.
Na década de 1980, a companhia enfrentava desafios para manter sua competitividade quando nomeou Jack Welch como presidente. Conhecido por seu estilo de gestão rigoroso, ele promoveu uma profunda reestruturação na organização, simplificando operações, vendendo unidades consideradas pouco competitivas e concentrando investimentos nos negócios em que a GE pudesse ocupar posições de liderança.
Seu discurso direto ficou famoso dentro da empresa. Segundo Heródoto, Welch costumava dizer que a companhia precisava ser líder em seus mercados; caso contrário, mudanças seriam inevitáveis. A postura gerava controvérsias, mas marcou uma das fases mais conhecidas da administração moderna e transformou Welch em uma das principais referências mundiais em gestão empresarial.
Ao mesmo tempo, sua trajetória também mostra como as teorias de liderança evoluem. Estratégias consideradas eficazes há algumas décadas hoje são analisadas sob novas perspectivas, que valorizam aspectos como colaboração, cultura organizacional e desenvolvimento de pessoas.
Outro ponto interessante levantado no episódio é que nenhuma inovação permanece dominante para sempre.
Fernando Vítolo lembra que, no setor audiovisual, estúdios de televisão utilizavam refletores equipados com lâmpadas incandescentes extremamente potentes, que consumiam milhares de watts e geravam calor intenso. Além do alto consumo de energia, exigiam cuidados constantes durante a operação.
Hoje, praticamente toda essa estrutura foi substituída pela iluminação em LED, que oferece maior eficiência, menor aquecimento e qualidade superior de imagem.
A mudança aconteceu em poucos anos e alterou completamente a rotina de quem trabalha com produção audiovisual.
Esse processo ajuda a explicar por que empresas precisam estar preparadas para abandonar tecnologias que elas próprias ajudaram a criar.
Ao longo de sua história, a General Electric fez exatamente isso diversas vezes. Deixou de ser apenas uma fabricante de lâmpadas para se tornar uma gigante da engenharia, da saúde, da aviação e da energia. Em outros momentos, precisou reduzir operações, reorganizar negócios e redefinir prioridades para continuar competitiva.
A principal mensagem do episódio é justamente essa: inovação não é um destino, mas um processo permanente.
Nenhuma empresa está protegida apenas porque foi inovadora no passado. O mercado muda, novas tecnologias surgem e aquilo que ontem parecia revolucionário pode se tornar obsoleto em pouco tempo.
A General Electric ajudou a iluminar cidades, impulsionou a industrialização e participou de alguns dos maiores avanços tecnológicos dos últimos 150 anos. Ainda assim, precisou aprender a conviver com mudanças capazes de transformar seus próprios produtos.
No fim das contas, talvez essa seja a maior lição deixada por sua história: no mundo dos negócios, quebrar paradigmas é importante. Estar preparado para quando quebrarem os seus é ainda mais.
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