História

Por que a Gurgel desapareceu?

Gurgel: a ousadia brasileira que tentou criar uma indústria nacional de automóveis

Muito antes de os carros elétricos ganharem espaço e de a sustentabilidade se tornar pauta frequente, um empresário brasileiro já sonhava em construir automóveis pensados, projetados e desenvolvidos no Brasil. Essa é a história de João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, fundador da Gurgel Motores, empresa que se tornou símbolo de inovação e empreendedorismo nacional.

Durante o NEH! Podcast, apresentado por Fernando Vítolo, o jornalista Heródoto Barbeiro relembrou como a Gurgel surgiu em um cenário dominado por montadoras estrangeiras. Nas décadas de 1970 e 1980, o mercado brasileiro era praticamente controlado por gigantes como Volkswagen, Ford e General Motors, que produziam seus veículos no país, mas com projetos concebidos no exterior.

A proposta de Amaral Gurgel era diferente: criar um automóvel genuinamente brasileiro. Sem possuir fábrica de motores ou chassis, a empresa apostou em soluções criativas. As carrocerias eram produzidas com um material desenvolvido pela própria companhia, chamado Plasteel, composto por fibra de vidro e plástico, tornando os veículos mais leves e econômicos em uma época marcada pelas crises do petróleo e pela alta do preço dos combustíveis.

Os primeiros modelos, inspirados nos jipes, conquistaram admiradores graças à robustez e ao baixo consumo. A empresa também produziu veículos utilitários e chegou a construir uma fábrica em Rio Claro, interior paulista. Em 1979, a Gurgel participou do tradicional Salão do Automóvel de Genebra, um feito raro para uma fabricante brasileira.

Visionário, Amaral Gurgel enxergava além do seu tempo. Ainda nos anos 1980, defendia que o futuro da mobilidade passaria pelos carros elétricos. Foi assim que nasceu o projeto Itaipu, considerado o primeiro veículo elétrico da América Latina, décadas antes de a tecnologia se popularizar.

Entretanto, a falta de fornecedores independentes de motores e componentes, a concorrência das grandes multinacionais e, posteriormente, a abertura do mercado brasileiro aos importados durante o governo Collor tornaram a disputa praticamente impossível. A Gurgel encerrou suas atividades nos anos 1990, mas deixou um legado que ainda desperta admiração entre colecionadores e apaixonados por automóveis.

Para Heródoto Barbeiro, a trajetória da empresa representa uma demonstração de visão empreendedora e coragem. “Ele estava muito à frente do seu tempo”, destacou o jornalista. Embora a Gurgel tenha desaparecido das linhas de produção, sua história permanece como uma das mais ousadas tentativas de construir uma indústria automobilística verdadeiramente brasileira.

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