Milhões de seguidores, poucos diplomas: quem está formando a opinião dos brasileiros?
Durante décadas, a informação esteve concentrada nas mãos de poucos grupos de comunicação. Grandes emissoras de televisão, jornais e revistas funcionavam como verdadeiros filtros do que chegava ao público.
Havia críticas legítimas a esse modelo. Muitos apontavam a existência de um oligopólio da informação, onde poucos decidiam quais assuntos ganhariam destaque e quais seriam ignorados. Então veio a internet. E ela fez algo extraordinário.
Pela primeira vez na história, qualquer pessoa com um celular conectado poderia produzir conteúdo, criar uma audiência e disputar atenção com os maiores veículos de comunicação do país. A informação foi democratizada. Mas junto com essa conquista surgiu um paradoxo.
Nunca tivemos tanto acesso à informação. E, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão desinformados.
Antes da internet, existia uma figura muito comum: o leitor de manchetes. A pessoa passava em frente à banca de jornal, lia as chamadas estampadas na capa e acreditava estar informada sobre os acontecimentos do dia. Muitas vezes sequer comprava o jornal ou lia a reportagem completa.
Hoje, esse comportamento não desapareceu. Ele apenas ganhou escala. Milhões de pessoas leem apenas os títulos dos portais de notícias, assistem a vídeos de 20 ou 30 segundos nas redes sociais ou consomem cortes de entrevistas fora de contexto e acreditam que compreenderam assuntos complexos.
O aprofundamento foi substituído pelo consumo rápido. A reflexão perdeu espaço para a velocidade. E a atenção virou a moeda mais valiosa da sociedade digital.
Nesse cenário surgem os novos formadores de opinião. Não são necessariamente professores, pesquisadores, jornalistas ou especialistas. São influenciadores. Pessoas que acumulam milhões de seguidores e exercem enorme impacto sobre hábitos de consumo, comportamento, linguagem, valores e até posicionamentos sociais.
O levantamento publicado pela Veja Gente por Valmir Moratelli chama atenção para um dado curioso: boa parte dos maiores influenciadores do Brasil não possui formação superior e alguns sequer concluíram a educação básica.
| Nome | Seguidores | Formação |
|---|---|---|
| Virginia Fonseca | 53,7 milhões | Ensino Médio via EJA |
| Zé Felipe | 33,9 milhões | Não concluiu o Ensino Fundamental |
| Felca | 18,7 milhões | Sem formação superior |
| Hytalo Santos | 17 milhões (Instagram) | Sem formação superior |
| Camila Coelho | 10,4 milhões | Curso profissionalizante de maquiagem |
| Malu Borges | 3,1 milhões | Não concluiu Nutrição |
| Bianca Andrade | 19,2 milhões | Curso de maquiagem no SENAC |
| Mari Maria | 21,7 milhões | Formada em Estética e Cosmetologia |
| Whindersson Nunes | 57 milhões | Não concluiu o Ensino Médio |
| Carlinhos Maia | 36 milhões | Sem formação superior |
| Anitta | 63,2 milhões | Técnica em Administração |
É importante deixar algo claro. O problema não é a ausência de diploma. A história está cheia de empreendedores, artistas e inovadores brilhantes que não passaram pela universidade. Da mesma forma, possuir diploma não transforma ninguém automaticamente em uma pessoa ética, inteligente ou capaz. A verdadeira questão é outra.
Estamos confundindo influência com autoridade. Uma pessoa pode ser extremamente talentosa para entreter, comunicar ou vender produtos sem necessariamente possuir conhecimento aprofundado sobre os temas que aborda. Ao mesmo tempo, muitos especialistas, pesquisadores e profissionais que dedicaram décadas ao estudo de determinado assunto encontram dificuldades para competir com a lógica dos algoritmos.
A internet democratizou a voz. Mas não democratizou o conhecimento. Ela permitiu que qualquer pessoa falasse para milhões. Porém, não criou mecanismos para que o público diferencie popularidade de credibilidade. Os algoritmos não premiam profundidade. Premiam engajamento. Não vence quem estudou mais. Vence quem prende mais atenção.
E isso ajuda a explicar por que vídeos curtos, opiniões simplificadas e frases de efeito frequentemente alcançam mais pessoas do que análises completas e contextualizadas. Vivemos a era da abundância de informação e da escassez de atenção. Nunca tivemos tantos conteúdos disponíveis, tantos cursos, tantos livros digitais, tantos podcasts e tantas fontes de consulta.
Mas também nunca consumimos informação de forma tão fragmentada. Muitos sabem um pouco sobre tudo e quase nada em profundidade. É uma geração que frequentemente confunde exposição à informação com conhecimento.
Assistir a um vídeo de 30 segundos não equivale a estudar um tema. Ler uma manchete não equivale a compreender uma reportagem. Ouvir a opinião de um influenciador não substitui a análise de especialistas.
Talvez o grande desafio da nossa época não seja produzir mais conteúdo. Conteúdo já existe em excesso. O desafio é reconstruir o valor da profundidade em uma cultura que recompensa a superficialidade.
Porque uma sociedade que passa a admirar mais quem chama atenção do que quem produz conhecimento corre o risco de trocar sabedoria por entretenimento, estudo por opinião e reflexão por impulsos.
A internet libertou a informação dos antigos monopólios. Agora precisamos aprender a lidar com uma pergunta ainda mais difícil: Como transformar informação em conhecimento em um mundo onde a atenção dura apenas alguns segundos?
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










