Literatura

Rock é a construção de um país

“O rock é muito mais que música. É a construção de um país”, diz Fabricio Mazocco em novo livro sobre a história do rock brasileiro

Autor de “Esse tal de rock’n’roll” reúne 50 histórias marcantes que ajudam a contar mais de sete décadas da música brasileira

A prisão de Rita Lee durante a ditadura militar enquanto estava grávida. A condenação de Arnaldo Antunes como traficante antes da consagração dos Titãs. O show da Legião Urbana em Brasília que quase terminou em tragédia. A polêmica capa da revista Veja que praticamente antecipou a morte de Cazuza. Essas e muitas outras histórias fazem parte de Esse tal de rock’n’roll, novo livro do jornalista, pesquisador e criador do canal Enigmas do Rock, Fabricio Mazocco.

A obra reúne 50 episódios marcantes que ajudam a compreender não apenas a trajetória do rock nacional, mas também transformações culturais, sociais e políticas do Brasil ao longo de mais de 70 anos.

Segundo Mazocco, a ideia nasceu de uma paixão que o acompanha desde a infância.

“Eu acompanho o rock brasileiro desde criança, no início da década de 80. Nos anos 90 passei a pesquisar, acumular livros, artigos, materiais fonográficos e audiovisuais. Sentia um vazio na literatura. Temos ótimos livros sobre rock brasileiro, mas normalmente focados em uma década específica. Como sempre conto histórias no canal, pensei: por que não reunir algumas das mais marcantes em um livro?”, explica.

A proposta encontrou respaldo na editora Máquina de Livros e deu origem a uma seleção que, segundo o autor, foi muito mais difícil do que parece.

“Quando comecei a organizar o material, tinha cerca de 500 histórias. O rock brasileiro tem muito mais do que cinquenta episódios relevantes”, afirma.

Uma vida inteira de pesquisa

Fabricio Mazocco – Crédito Walter Milanetto

Embora o livro tenha sido escrito recentemente, Mazocco entende que a pesquisa começou há décadas.

“Na verdade, a pesquisa durou quase minha vida toda. Sempre li jornais, revistas, livros e acompanhei a história do rock brasileiro. Isso me ajudou a pensar nessas histórias ao longo do tempo.”

Um dos maiores desafios foi separar fatos comprovados das inúmeras lendas que cercam o universo do rock.

“Só Rita Lee e Raul Seixas teriam mais de cinquenta histórias cada um. Como pesquisador e professor universitário, utilizei métodos que me permitissem abranger diferentes décadas e o maior número possível de artistas.”

Mesmo assim, o autor admite que algumas histórias lendárias mereceram espaço no livro. Entre elas estão o suposto romance entre o cantor Serguei e Janis Joplin e o famoso encontro entre Raul Seixas e John Lennon.

“Trouxe essas histórias como um bônus. Mas toda linha do livro é baseada em referências confiáveis. Não existe ‘achamos’ ou suposições.”

Rock como retrato do Brasil

Ao longo da entrevista, Mazocco reforça uma visão que atravessa toda a obra: é impossível entender o rock brasileiro sem compreender o contexto histórico do país.

“Não tem como separar. A arte retrata um período histórico. Faço questão de trazer essa referência em todas as histórias.”

Para ele, o espírito contestador que costuma ser associado ao rock dos anos 80 já estava presente muito antes.

“Muito se fala da década de 80 porque foi um período de grande exposição midiática. Mas quando vemos Ney Matogrosso à frente dos Secos & Molhados, pintando o rosto e desafiando padrões em plena ditadura militar, fica claro que o espírito roqueiro sempre esteve presente.”

Essa relação entre música e transformação social é um dos fios condutores da narrativa do livro.

Personagens esquecidos da história

Embora artistas como Rita Lee, Raul Seixas, Cazuza, Legião Urbana e Titãs apareçam na obra, Mazocco acredita que muitos nomes fundamentais para a formação do rock brasileiro ainda recebem pouco reconhecimento. Ele destaca especialmente os pioneiros das décadas de 50, 60 e 70.

“As novas gerações precisam conhecer melhor essas fases. A exposição que o rock ganhou nos anos 80 não teria acontecido sem o que veio antes, seja a Jovem Guarda ou a psicodelia dos anos 70.”

Ao falar dos nomes mais importantes para a construção do gênero no país, ele evita eleger apenas um artista.

“Todos tiveram sua contribuição. Mas posso destacar Nora Ney, que gravou o primeiro rock lançado no Brasil, e Cauby Peixoto, que registrou o primeiro rock composto por um brasileiro, ‘Rock’n’Roll em Copacabana’, de Miguel Gustavo.”

O futuro do rock nacional

Questionado sobre o atual momento do rock brasileiro, Mazocco não acredita em uma crise, mas sim em uma transformação do mercado.

“Temos ótimos artistas e bandas produzindo hoje. Talvez o excesso de informação e a facilidade de acesso acabem dificultando a descoberta de novos nomes.”

Por outro lado, ele reconhece que dificilmente o gênero voltará a ocupar o mesmo espaço que teve nos anos 80.

“Naquela época existiam gravadoras e grandes meios de comunicação direcionando o consumo. Hoje temos os algoritmos, que também acabam restringindo a diversidade. Por isso, precisamos procurar, pesquisar e apresentar essa história para as novas gerações.”

Muito mais do que música

Lançamento dia 09/06/2026 – 19h – Livraria da Travessa – Rua dos Pinheiros, 513

Durante a conversa, Mazocco também combate uma ideia que ainda aparece de tempos em tempos: a de que o rock não seria uma expressão genuinamente brasileira.

“Esse talvez seja o maior mito do rock nacional. O futebol também não nasceu no Brasil. O samba também recebeu influências externas. Mas aqui o rock desenvolveu características próprias e se tornou brasileiro.”

Ao ser perguntado qual show gostaria de assistir caso pudesse viajar no tempo, ele não hesita.

“O show dos Secos & Molhados no Maracanãzinho, em 10 de fevereiro de 1974.”

Já sobre a principal lição aprendida após décadas pesquisando o tema, a resposta resume bem a essência do livro.

“Somos um país privilegiado. Nossos artistas usaram o rock como expressão cultural e social. O rock é muito mais do que música. É a construção de um país.”

Com mais de 400 artistas e bandas citados ao longo de suas páginas, Esse tal de rock’n’roll surge não apenas como um livro sobre música, mas como um retrato da própria história cultural brasileira, contada através de guitarras, discos, palcos, rebeldia e personagens que ajudaram a moldar gerações.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo