Economia ao Natural

Segundas Chances: Histórias de Quem Escolheu Reescrever a Própria Vida

Maria Atili fala sobre reconstrução humana e o poder das segundas chances no Roda de Significado

“Todo ser humano tem essência. As situações levam para diversos caminhos, mas ela continua ali dentro.” Com essa reflexão, Maria Atili, assistente social do Instituto Recomeçar, participou de mais um episódio do programa Roda de Significado, apresentado por Fernando Vítolo, e emocionou o público ao compartilhar histórias de transformação, esperança e reconstrução de vidas.

No encontro, Maria falou sobre o trabalho realizado pelo Instituto Recomeçar, organização criada por um ex-egresso do sistema prisional com o propósito de apoiar pessoas que deixam a prisão e desejam construir uma nova trajetória. Atualmente, o instituto já atendeu mais de 13 mil pessoas, oferecendo suporte para que homens e mulheres reencontrem oportunidades, dignidade e propósito.

Segundo ela, um dos maiores desafios enfrentados pelos egressos é justamente a combinação entre a falta de oportunidades e a perda de sentido de vida.

“Eles saem querendo fazer diferente, mas muitas vezes não encontram quem acredite neles. Quando a oportunidade não aparece, o sentido também se perde”, explicou.

A Escola de Oportunidade como ferramenta de transformação

Durante a conversa, Maria destacou os resultados da aplicação da metodologia da Escola de Oportunidade junto aos participantes do projeto Recomeçar para Liderar. Inicialmente aplicada à equipe do instituto, a metodologia passou a ser utilizada também com os egressos, promovendo reflexões sobre valores, propósito, percepção e intenção. O impacto, segundo ela, foi quase imediato.

“A rapidez da transformação me surpreendeu. Já no segundo encontro percebemos mudanças na postura, no comportamento e nas falas das participantes. Elas começaram a enxergar coisas que estavam escondidas dentro delas.”

Maria explicou que muitos dos participantes sequer conseguem identificar seus próprios valores quando são questionados sobre o tema. No entanto, ao longo das atividades, passam a reconhecer qualidades e princípios que sempre estiveram presentes, mas haviam sido ofuscados pelas circunstâncias da vida.

“Quando começamos a falar sobre respeito, honestidade, responsabilidade, eles percebem que esses valores também fazem parte da história deles. E o mais interessante é que respeito e honestidade aparecem quase sempre entre os valores mais importantes para eles.”

A história que nunca saiu da memória

Um dos momentos mais emocionantes do episódio aconteceu quando Maria compartilhou uma história que marcou profundamente sua trajetória profissional. Ela relembrou o atendimento a um homem recém-saído do sistema prisional que, durante uma entrevista inicial, começou a chorar de forma incontrolável. Após alguns minutos em silêncio, ele finalmente conseguiu dizer algo que Maria jamais esqueceu:

“A senhora não tem ideia do que fez por mim. A senhora me ajudou a tirar os monstros de dentro de mim.”

O homem posteriormente conseguiu emprego, foi promovido e iniciou uma nova fase da vida.

“Foi uma sensação indescritível. O mérito é dele, mas saber que você ajudou alguém a reencontrar o caminho não tem preço”, contou.

Muito além do passado

Ao longo da conversa, Maria destacou que a sociedade costuma olhar para o erro antes de enxergar o ser humano. Para ela, a reconstrução começa quando alguém decide acreditar que existe muito mais em uma pessoa do que o seu pior momento.

“A gente não muda ninguém. Mostramos o caminho, oferecemos apoio e levamos até a porta. Quem atravessa e permanece nela é a própria pessoa.”

Ela também ressaltou que o trabalho da Escola de Oportunidade ajuda os participantes a resgatarem a própria essência.

“Às vezes aquela chama está apagada. A pessoa nem sabe que existe um propósito dentro dela. Quando começamos as reflexões, ela percebe: ‘Eu tenho isso. Isso faz parte de mim’. E então aquilo começa a transbordar.”

O desafio de olhar para o outro como um universo

Inspirada pelos princípios do Instituto Economia ao Natural, Maria defendeu a importância de substituir o julgamento pela compreensão. Segundo ela, a sociedade foi ensinada a competir, apontar erros e rotular pessoas. O desafio agora é desaprender esse comportamento e desenvolver um novo olhar.

“Vamos começar a olhar para o outro e entender que ele é um universo de oportunidades. Quando enxergamos isso, tudo muda.”

Ao final do episódio, Maria deixou uma mensagem tanto para quem está recomeçando quanto para a sociedade. Para os egressos, reforçou que ainda existe esperança:

“Não perca a esperança. Você tem virtudes, competências e uma essência que talvez esteja apagada, mas continua aí. E é possível reacender essa luz.”

Já para a sociedade, fez um convite à empatia:

“Vamos ajudar a fazer brilhar essas estrelas que estão apagadinhas.”

Mais do que uma conversa sobre reinserção social, o episódio se transformou em uma reflexão profunda sobre dignidade humana, propósito e a coragem necessária para recomeçar. Uma lembrança poderosa de que ninguém pode ser definido apenas pelo seu passado e que toda transformação começa quando alguém decide acreditar.

Assista ao episódio completo: