O Brasil de 2026 está quebrando em escala industrial. Não é força de expressão.
Desde 2020, mais de duas dezenas de companhias dos setores de energia, transportes, mineração, petroquímica, cimento e engenharia recorreram à recuperação judicial ou extrajudicial, acumulando aproximadamente R$ 183 bilhões em passivos.
Entre elas estão nomes que fazem parte do cotidiano de milhões de brasileiros, como Braskem, Raízen, Casas Bahia, Mobly, Tok&Stok, GPA, Marabraz e Grupo Genius, dono da rede Habib’s.
Segundo Monitor RGF-BIZDOC, o Brasil já ultrapassa 6.300 empresas em recuperação judicial em 2026.
Números assim impressionam, mas o que mais impressiona é o que eles escondem.
Por que Tantas Empresas Estão em Recuperação Judicial ao Mesmo Tempo
A culpa não é só dos juros
A explicação mais fácil para esse cenário é a taxa de juros. E ela faz parte da história, mas não conta a história toda.
Segundo especialistas ouvidos pela CNN, o cenário resulta da combinação de elevada alavancagem financeira acumulada, aumento do custo do capital, maior dificuldade de refinanciamento, redução de margens, alterações regulatórias e choques setoriais específicos, de modo que os juros funcionaram como acelerador de problemas que já existiam, não como causa isolada.
Em outras palavras, muitas dessas empresas já carregavam um endividamento que não sustentavam. Os juros apenas apressaram o que era inevitável.
O que Casas Bahia, Braskem e Habib’s têm em comum com a sua empresa
Nada, talvez. Ou quase tudo.
O porte é diferente, o acesso a crédito é diferente, a estrutura jurídica é diferente, mas o mecanismo que transforma uma crise empresarial num problema pessoal do sócio é exatamente o mesmo, independentemente do tamanho da empresa.
O Risco que Ninguém Calcula: Quando a Dívida da Empresa Vira Dívida Sua
O que é desconsideração da personalidade jurídica
Existe um mecanismo jurídico previsto no artigo 50 do Código Civil chamado desconsideração da personalidade jurídica. Por meio dele, a Justiça pode ignorar a separação entre a empresa e o sócio e cobrar as dívidas da pessoa jurídica diretamente do patrimônio pessoal do empresário.
Ele é aplicado quando há abuso da personalidade jurídica, desvio de finalidade ou confusão patrimonial entre os bens da empresa e os bens pessoais do sócio, ou seja, misturar contas, usar o CNPJ para cobrir gastos pessoais do sócio, transferir bens sem justificativa, retirar recursos em prejuízo dos credores. Todas essas condutas abrem essa porta.
Por que a blindagem patrimonial não pode esperar a crise chegar
Aqui está o ponto que mais pessoas descobrem tarde demais. A proteção do patrimônio pessoal só funciona quando feita antes da crise.
Depois que a empresa enfrenta dificuldades financeiras sérias, qualquer transferência de bens ou reorganização patrimonial pode ser caracterizada como fraude à execução ou fraude contra credores. Nesse caso, os atos podem ser anulados pela Justiça e o patrimônio transferido volta a responder pelas dívidas.
Braskem, Raízen e Casas Bahia têm equipes jurídicas robustas e acesso a instrumentos sofisticados de reestruturação. O empresário médio, em geral, não tem essa reserva. Ou seja, quando a crise chega sem planejamento prévio, o patrimônio pessoal é o primeiro a ser atingido.
O que esse Cenário Ensina Sobre como Proteger Patrimônio Pessoal de Dívidas da Empresa
Casos que superaram a recuperação judicial
O movimento não significa que todas as empresas permaneçam em recuperação. Samarco, Triunfo e Concessionária Rodovias do Tietê passaram por processos de reestruturação e posteriormente os encerraram.
Recuperação judicial não é necessariamente o fim. No entanto, o caminho de volta é longo, caro e desgastante, tanto para a empresa quanto para os sócios que não se protegeram antes.
A pergunta que todo empresário deveria fazer agora
Se a sua empresa enfrentasse uma crise severa amanhã, o seu patrimônio pessoal estaria em risco?
A resposta honesta para essa pergunta vale mais do que qualquer análise de balanço. Isso porque a crise não avisa e quando ela chega a Justiça não distingue o que é da empresa do que é seu, a menos que essa separação já esteja clara, documentada e estruturada com antecedência.
O recorde de recuperações judiciais de 2026 não é só uma estatística econômica. Pode ser um lembrete de que blindagem patrimonial é planejamento e que planejamento tem prazo certo.
Quando a crise bate à porta, o momento já passou.

Ricardo De Carli é advogado, especialista em proteção de patrimônio familia, Pai de família, ciclista de estrada e convicto de que o bom senso resolve mais do que qualquer parágrafo de lei. @ricardo.decarli / www.decarli.adv.br









