Saúde

O preço oculto da alta performance

O preço oculto da alta performance: quando o sucesso corporativo cobra a conta da saúde mental

O que acontece quando a busca incessante por resultados começa a empurrar profissionais para o uso de medicamentos como ferramenta de produtividade? Essa foi a provocação central do episódio “O Preço Oculto da Alta Performance”, do podcast CLT 4.0, apresentado por Sólon Cunha, que recebeu a especialista em recursos humanos Daniela Bauab.

Com mais de 25 anos de atuação em RH e autora do livro Doping Corporativo, Daniela trouxe uma reflexão inquietante sobre o ambiente corporativo moderno: até que ponto empresas e culturas organizacionais se tornam “coautoras silenciosas” do uso de medicamentos para melhorar desempenho profissional?

A cultura da performance extrema

Durante a conversa, Daniela destacou que o problema não pode ser analisado apenas como uma escolha individual. Segundo ela, muitas empresas criam ambientes onde metas agressivas, competição interna intensa e pressão constante por resultados acabam incentivando, ainda que de forma indireta, comportamentos perigosos.

“O problema não é buscar performance. O problema é quando o resultado passa a valer mais do que a saúde das pessoas”, afirmou.

Ela explica que o chamado “doping corporativo” acontece quando medicamentos originalmente desenvolvidos para tratar determinadas condições passam a ser utilizados para ampliar foco, concentração, produtividade e resistência emocional no trabalho.

O termo, inclusive, foi inspirado diretamente no universo esportivo.

Um fenômeno silencioso — e cada vez mais normalizado

Um dos pontos mais impactantes do episódio foi a constatação de que o assunto ainda é tratado como tabu dentro das empresas, mesmo envolvendo medicamentos lícitos.

Segundo Daniela, muitos profissionais escondem o consumo por medo de julgamento ou receio de parecerem artificialmente “potencializados”.

Ao mesmo tempo, ela alerta para um fenômeno preocupante: o comportamento já começa muito antes da vida corporativa.

Estudantes em fase de vestibular, por exemplo, também recorrem a medicamentos para aumentar foco e desempenho acadêmico. Para Daniela, isso cria uma geração que pode chegar ao mercado de trabalho já naturalizando o uso dessas substâncias como parte da rotina de produtividade.

Os efeitos invisíveis da alta performance

Embora os resultados imediatos possam parecer positivos, Daniela alerta para os impactos físicos e emocionais associados ao uso indiscriminado dessas substâncias.

Entre os efeitos mais relatados estão:

  • Insônia e alterações severas no sono;
  • Falta de apetite;
  • Irritabilidade constante;
  • Isolamento social;
  • Dificuldade de escuta e convivência;
  • Oscilações emocionais;
  • Exaustão mental.

Segundo ela, existe uma ilusão corporativa perigosa: profissionais hiperprodutivos acabam sendo admirados justamente pelos comportamentos que podem indicar adoecimento.

“Enquanto a empresa enxergar apenas o resultado, ela corre o risco de ignorar sinais claros de desgaste humano”, destacou.

O “herói corporativo” e a meritocracia adulterada

Sólon Cunha levantou uma provocação forte durante o episódio: no esporte, atletas suspeitos de doping perdem reputação. Já no ambiente corporativo, profissionais que entregam resultados extremos muitas vezes são transformados em heróis.

A discussão trouxe à tona um tema delicado: a construção de uma meritocracia baseada apenas em performance quantitativa.

Para Daniela, esse modelo precisa ser revisto. Ela defende que empresas valorizem mais resultados coletivos do que figuras individuais de “super-heróis corporativos”.

“Quanto mais colaborativa for a cultura, menor a chance de criar ambientes que estimulem comportamentos extremos”, explicou.

RH, liderança e cultura organizacional

Ao longo da entrevista, Daniela reforçou que o papel do RH vai muito além de benefícios e políticas internas. Para ela, o RH precisa atuar como “arquiteto da cultura”.

Isso significa alinhar discurso e prática.

Não adianta defender saúde mental em campanhas internas e, ao mesmo tempo, premiar exclusivamente profissionais que trabalham até a madrugada, respondem mensagens sem parar e vivem em hiperdisponibilidade.

Ela também defendeu que empresas criem espaços mais seguros para conversas sobre saúde emocional, pressão por resultados e limites humanos.

Um tema que ainda será muito debatido

O episódio deixa claro que o “doping corporativo” talvez seja apenas um sintoma de uma transformação maior no mundo do trabalho: a obsessão contemporânea por produtividade, velocidade e performance constante.

Mais do que discutir medicamentos, a conversa propõe uma reflexão profunda sobre cultura organizacional, ética, liderança e saúde mental.

E talvez a principal pergunta deixada pelo episódio seja justamente essa:

Até que ponto o sucesso profissional vale o custo invisível que ele pode cobrar das pessoas?

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