Em 2022, não ter nascido em São Paulo era motivo para desqualificar Tarcísio. Em 2026, os mesmos grupos apoiam Simone Tebet e Marina Silva — enquanto o governador carioca descobre, convenientemente, as virtudes do bairrismo.
São Paulo, ao que tudo indica, criou uma nova modalidade de cidadania: a naturalidade por conveniência eleitoral. Funciona assim: quando o candidato de fora é o seu adversário, ele é “forasteiro”, “paraquedista” e não conhece o estado. Quando está na sua chapa, passa a representar a diversidade, a capacidade de acolhimento e a grandeza paulista. A certidão de nascimento não muda. Muda apenas o palanque.
Em 2022, Tarcísio de Freitas chegou à disputa pelo Governo de São Paulo com um pequeno problema geográfico: era carioca, havia construído a carreira pública principalmente em Brasília e não tinha trajetória política no estado que pretendia governar. Seus adversários perceberam a oportunidade e transformaram o mapa do Brasil em peça de campanha.
Márcio França, então pré-candidato ao governo, dizia que abriria um eventual debate perguntando a Tarcísio para qual time ele torcia. A resposta — Flamengo — deveria funcionar como uma espécie de teste de imigração política. Fernando Haddad foi além. No debate da Globo, afirmou: “Você não conhece São Paulo. Você não conhece nem a capital, nem o interior, nem o litoral. Você mudou seis meses para cá”. Em outro debate, ironizou a diferença entre “bolacha” e “biscoito”, como se o destino de milhões de paulistas pudesse ser decidido no corredor de um supermercado. O PSOL também questionou o domicílio eleitoral do candidato, alegando que ele não morava no estado. O pedido, porém, não prosperou na Justiça Eleitoral. (Folha de S.Paulo, UOL, Gazeta do Povo)
O próprio Tarcísio colaborou com a comédia. Durante a campanha, afirmou que São Paulo precisava ser governado por um “forasteiro”. Depois reconheceu que havia “pisado na bola” e disse que a frase fora descontextualizada. Quatro anos mais tarde, aparentemente recuperado da contusão, decidiu calçar a mesma chuteira. (Terra)
Agora, em 2026, Simone Tebet e Marina Silva concorrem ao Senado por São Paulo. Simone nasceu em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. Marina nasceu em Rio Branco, no Acre. Diante disso, aliados de Tarcísio passaram a dizer que as duas não são daqui, não conhecem o estado e estariam usando São Paulo como atalho eleitoral.
O governador entrou pessoalmente na discussão. Disse que elas “não começaram a fazer política em São Paulo”, que não escolheram o estado para servir e que receberam “cartão vermelho” nos lugares de origem. Segundo ele, se concorressem lá, não seriam eleitas — e aqui também não seriam. (UOL)
É uma cena admirável. O carioca que venceu uma eleição defendendo o direito de um brasileiro de fora governar São Paulo agora fiscaliza a procedência das candidatas ao Senado. Talvez o Palácio dos Bandeirantes tenha uma máquina de naturalização política no subsolo. O sujeito entra flamenguista, governa por quatro anos e sai autorizado a distribuir passaportes paulistas.
Do outro lado, a conversão não é menos milagrosa. Márcio França, que em 2022 queria usar o futebol para medir a legitimidade de Tarcísio, foi justamente quem convidou Simone Tebet para migrar de partido e disputar uma vaga por São Paulo. Haddad, que dizia que Tarcísio não conhecia nem a capital, nem o interior, nem o litoral, passou a sustentar que Simone tem mais raízes no estado do que o governador.
Em fevereiro, a Folha de S.Paulo já havia registrado a contradição: aliados de Lula que atacaram o “forasteiro” Tarcísio agora defendiam a candidatura paulista de Tebet. Quatro anos foram suficientes para a geografia mudar de lado. (Folha de S.Paulo, UOL)
Simone reagiu com uma resposta feita sob medida para a política paulista: “Sou corintiana, não flamenguista, e pago imposto em São Paulo há dez anos. Não precisei dar endereço alheio para me candidatar”.
É uma boa frase. Só não resolve inteiramente a questão que seus próprios aliados ajudaram a criar. Se torcer para um clube paulista e pagar impostos no estado bastam para estabelecer pertencimento político, talvez seja prudente instalar um posto da Justiça Eleitoral na Neo Química Arena. (CartaCapital)
Há, contudo, uma diferença importante entre as duas candidatas — e ignorá-la seria trocar o sarcasmo pela desonestidade. Simone construiu toda a sua carreira eleitoral em Mato Grosso do Sul: foi deputada estadual, prefeita de Três Lagoas, vice-governadora e senadora pelo estado.
Marina também fez grande parte da carreira no Acre, mas foi eleita deputada federal por São Paulo em 2022, com mais de 237 mil votos, e atualmente representa o estado na Câmara. Portanto, pode-se discutir a profundidade dos vínculos das duas, mas apresentar Marina como alguém que acaba de saltar de paraquedas em São Paulo exige fingir que a eleição de quatro anos atrás não aconteceu. (Senado Notícias, Câmara dos Deputados, UOL)
Marina classificou as críticas como uma “visão misógina” e afirmou que homens de outros estados são recebidos com tapete vermelho, enquanto mulheres são chamadas de forasteiras. Depois, ao responder diretamente a Tarcísio, resumiu a situação como “dois pesos e duas medidas”.
Há fundamento para a crítica quando se observa que a própria vitória de um homem carioca foi celebrada como prova do acolhimento paulista. Ainda assim, o problema não é apenas o gênero: é o uso seletivo de uma régua que todos os lados parecem dispostos a trocar assim que muda a coligação. (UOL, CartaCapital)
O episódio mais involuntariamente engraçado talvez tenha vindo do prefeito de Guarulhos, Lucas Sanches, do PL. Ao criticar as candidaturas, ele disse que havia “duas pessoas que vivem no Maranhão, no Acre” e que não conheciam nada de São Paulo.
Simone é de Mato Grosso do Sul.
Conseguir errar o estado de origem de alguém enquanto se acusa essa pessoa de desconhecer geografia local é um nível de precisão que a sátira dificilmente conseguiria inventar. (UOL)
Legalmente, nascer em São Paulo nunca foi requisito para concorrer pelo estado. A própria jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral considera o domicílio eleitoral mais amplo do que a residência civil e admite vínculos políticos, econômicos, sociais ou familiares. A pergunta política legítima não é onde alguém nasceu, mas que relação mantém com o estado, quanto conhece seus problemas, que trabalho já realizou e o que pretende fazer com o mandato. (Tribunal Superior Eleitoral)
Tarcísio foi submetido às urnas e os paulistas decidiram que sua origem carioca não o impedia de governar. Marina já passou pelo mesmo julgamento para a Câmara. Simone passará agora. É exatamente para isso que serve a eleição: não para emitir certidões de nascimento, mas para escolher representantes.
Se ser de fora é um defeito incontornável, o princípio precisa valer para todos — inclusive para Tarcísio. Se São Paulo é a terra que acolhe gente do país inteiro, essa generosidade também não pode ser reservada aos candidatos do governador ou do presidente.
O que não dá é transformar o bandeirantismo em argumento de ocasião: cosmopolita para os amigos, alfândega para os adversários.
No fim, o “forasteiro” quase nunca é quem nasceu longe. É apenas quem está concorrendo do outro lado.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










