Economia

Ainda existem comunistas?

Karl Marx olha um smartphone diante da bandeira vermelha da China, em ilustração editorial.

Entre a China que disputa mercados, os bilionários de um país governado pelo Partido Comunista e os militantes que não abrem mão do iPhone, uma pergunta parece cada vez mais pertinente: o comunismo ainda existe ou virou uma ideologia que funciona melhor no discurso do que na prática?

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Se Karl Marx ressuscitasse em 2026, provavelmente teria algumas dificuldades para reconhecer o comunismo que leva seu nome.

Imagine o filósofo alemão desembarcando na China, país governado pelo Partido Comunista desde 1949. Em vez de encontrar uma sociedade sem classes, ele se depararia com grandes empresas, milionários, marcas disputando consumidores, publicidade, investimentos internacionais e uma corrida tecnológica que faria qualquer empresário do Vale do Silício prestar atenção.

Talvez Marx perguntasse onde foi parar a revolução. E alguém responderia que ela está funcionando muito bem. Inclusive, aceita cartão de crédito.

A ironia revela uma questão interessante: ainda existem comunistas de verdade?

A resposta depende do que estamos chamando de comunismo. Pessoas que defendem as ideias de Marx continuam existindo. Mas, se procurarmos uma sociedade que tenha colocado integralmente em prática o comunismo descrito pela tradição marxista, a busca fica bem mais complicada.

A China comunista que descobriu as maravilhas do capitalismo

A China talvez seja o maior exemplo das contradições do comunismo contemporâneo. O país é governado por um partido que se declara comunista, mantém forte controle político sobre a sociedade e considera o socialismo parte fundamental de sua identidade. Mas sua economia não cabe facilmente nos discursos tradicionais.

A China fabrica produtos para o mundo inteiro, disputa consumidores internacionais, investe em inteligência artificial, desenvolve veículos elétricos, produz equipamentos eletrônicos e abriga empresas que competem em preços, tecnologia e qualidade. E faz isso muito bem.

Durante décadas, os produtos chineses foram associados principalmente aos preços baixos. Hoje, muitas empresas do país disputam liderança tecnológica com algumas das maiores marcas internacionais.

O detalhe curioso é que tudo isso acontece sob o comando do Partido Comunista Chinês.

Em abril de 2025, a China aprovou uma lei específica para promover o setor privado, que entrou em vigor em 20 de maio daquele ano. Segundo dados oficiais divulgados pelo governo chinês, empresas privadas respondiam por mais de 60% do PIB e por 80% dos empregos urbanos.

Vale repetir: mais de 60% da economia de um país governado pelo Partido Comunista está associada à atividade privada, de acordo com os próprios números do governo.

É quase como se o capitalismo tivesse sido contratado para administrar a economia enquanto o comunismo permanecesse responsável pelo departamento político.

O capitalismo chinês tem um chefe

Antes de decretar que a China se tornou capitalista, precisamos reconhecer uma diferença importante: a economia chinesa não funciona como um mercado inteiramente livre.

O Estado mantém empresas estratégicas, interfere em setores econômicos, estabelece prioridades industriais e exerce forte influência sobre o sistema financeiro. Sua Constituição reconhece a propriedade privada e os negócios particulares, mas também estabelece a liderança do Partido Comunista, o papel central da propriedade pública e a chamada economia socialista de mercado.

É uma combinação peculiar. O empresário pode abrir uma empresa, contratar funcionários, disputar clientes e acumular patrimônio. Mas precisa operar dentro dos limites estabelecidos por um Estado cuja direção política não está aberta à competição entre partidos em eleições nacionais.

A economia pode competir. O poder político, muito menos.

Em relatório divulgado em fevereiro de 2026, o Fundo Monetário Internacional destacou distorções ligadas a políticas industriais e defendeu reformas que favoreçam concorrência e mecanismos de mercado.

Os defensores do modelo chinês o apresentam como uma etapa do desenvolvimento socialista. Críticos enxergam a contradição: o partido preserva a identidade comunista enquanto a economia utiliza mecanismos associados ao capitalismo.

Uma coisa parece evidente: a China utiliza competição, investimento e lucro como instrumentos importantes para gerar riqueza. Mesmo quando quem está no comando carrega uma bandeira vermelha.

O comunista de iPhone chegou à revolução

No Brasil, a contradição ganha contornos ainda mais divertidos. Existe uma figura bastante conhecida no debate político: o famoso comunista de iPhone.

Ele aparece nas redes sociais criticando o capitalismo, denunciando o consumismo, condenando grandes empresas e defendendo profundas transformações na organização econômica da sociedade. Tudo isso, naturalmente, publicado em um smartphone de última geração, desenvolvido por uma das empresas mais valiosas do planeta.

A publicação recebe curtidas, comentários, compartilhamentos e, dependendo do sucesso, pode até render oportunidades comerciais. A revolução, afinal, também precisa de engajamento.

Mas existe uma distinção importante: ter um iPhone não torna uma pessoa menos comunista.

Marx e Engels não defendiam simplesmente que as pessoas fossem proibidas de possuir roupas, objetos pessoais ou bens de uso cotidiano. A crítica central do comunismo marxista dirige-se à propriedade privada dos meios de produção e às relações que permitem a proprietários do capital obter ganhos a partir do trabalho assalariado. Essa distinção pode ser conferida no Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848.

Portanto, utilizar um produto fabricado por uma empresa capitalista não constitui, por si só, uma contradição lógica. Quem deseja modificar um sistema econômico precisa continuar vivendo dentro dele enquanto a mudança não acontece.

O problema começa em outro lugar.

A propriedade privada é um problema. Principalmente a dos outros?

Imagine uma pessoa que defende publicamente profundas restrições à propriedade privada dos meios de produção e à acumulação de riqueza. Ela critica empresários, condena privilégios econômicos e argumenta que a sociedade deveria funcionar de maneira mais coletiva. Até aí, temos uma posição política legítima, concordemos ou não com ela.

Mas suponha que essa mesma pessoa seja proprietária de empresas, acumule patrimônio por meio das relações econômicas que condena e não aceite aplicar a si mesma os princípios que exige dos demais. Nesse caso, surge uma contradição que merece ser questionada.

Não por possuir uma casa ou um celular, mas por tratar como condenável nos outros aquilo que considera perfeitamente aceitável para si.

E isso não acontece exclusivamente entre comunistas. O empresário que defende o livre mercado, mas corre para pedir subsídios, proteção estatal e restrições aos concorrentes quando seus negócios enfrentam dificuldades, também merece participar dessa conversa.

A incoerência ideológica é bastante democrática. Talvez seja uma das poucas coisas que conseguem unir pessoas de esquerda e de direita.

O problema não está em possuir bens ou utilizar serviços de empresas capitalistas. Está na distância entre os princípios anunciados e as práticas efetivamente defendidas. É relativamente fácil propor uma sociedade ideal quando os sacrifícios necessários ficam sempre na conta de terceiros.

Mas, afinal, o que seria o comunismo de verdade?

Na tradição marxista, o comunismo representa uma sociedade sem divisões de classe, baseada na propriedade comum dos meios de produção e que, em sua fase plenamente desenvolvida, não dependeria de um Estado coercitivo como o conhecemos.

Essa proposta se diferencia tanto do capitalismo quanto das experiências históricas de governos dirigidos por partidos comunistas. E aqui aparece uma das maiores ironias da história.

Regimes que chegaram ao poder prometendo construir uma sociedade sem classes frequentemente desenvolveram estruturas políticas extremamente centralizadas, com uma poderosa burocracia estatal.

A União Soviética, por exemplo, existiu de 1922 a 1991. Durante boa parte desse período, sua economia foi organizada por planejamento central e propriedade estatal. Mas o Estado não desapareceu. Pelo contrário, tornou-se dominante na vida política, econômica e social.

A China seguiu outro caminho, sobretudo depois das reformas econômicas iniciadas em 1978. Em vez de eliminar os mecanismos de mercado, passou a incorporá-los ao seu projeto de desenvolvimento.

Para os defensores do modelo chinês, instrumentos de mercado fazem parte de uma estratégia socialista de longo prazo. Para seus críticos, a experiência revela que o sistema precisou recorrer justamente a mecanismos que pretendia superar.

O debate continua. O que não se pode afirmar é que a China contemporânea representa uma sociedade comunista plenamente realizada nos termos da teoria marxista.

O comunismo pode ter virado uma identidade?

Quando alguém afirma ser comunista, o que exatamente está dizendo? Que deseja abolir a propriedade privada dos meios de produção? Que defende uma sociedade sem classes? Que considera a luta de classes o principal motor da história? Ou simplesmente que se identifica com determinadas pautas da esquerda política?

Essas posições não são equivalentes. Defender escolas públicas, saúde universal, direitos trabalhistas, tributação progressiva ou políticas de redução da desigualdade não transforma automaticamente alguém em comunista. Países capitalistas também adotam essas políticas.

Da mesma forma, criticar grandes empresas ou defender a atuação do Estado na economia não significa necessariamente rejeitar o capitalismo. Há socialistas democráticos, social-democratas, marxistas, comunistas revolucionários e correntes políticas que discordam profundamente entre si.

Chamar todos de comunistas pode funcionar como provocação nas redes sociais, mas não ajuda muito a compreender o debate. Em determinadas discussões brasileiras, basta defender uma política social para receber o rótulo. Em outras, basta criticar uma política social para ser chamado de fascista.

É um método bastante econômico de discussão: dispensa leitura, argumento e, frequentemente, qualquer contato mais profundo com a realidade.

O capitalismo venceu? Talvez a pergunta seja outra

Seria tentador concluir que o capitalismo venceu definitivamente porque a China incorporou mecanismos de mercado e a União Soviética deixou de existir. Mas a história não costuma oferecer respostas tão simples.

O capitalismo enfrenta problemas reais, como concentração de riqueza, crises financeiras, desigualdade e dificuldades de acesso a bens essenciais. Esses problemas alimentam a permanência de movimentos socialistas e comunistas.

Portanto, ideias comunistas não desapareceram simplesmente porque experiências históricas fracassaram, mudaram de direção ou adotaram práticas diferentes das previstas originalmente.

O que merece discussão é a capacidade das propostas de funcionar na prática. Uma teoria política pode apresentar objetivos desejáveis, como reduzir a pobreza e combater desigualdades, mas precisa ser avaliada também pelos resultados, pelos mecanismos que utiliza e pelas liberdades que preserva ou restringe.

Boas intenções não garantem bons governos. E uma sociedade não se torna justa simplesmente porque seus governantes afirmam governar em nome do povo.

Então, ainda existem comunistas?

Sim. Existem pessoas, partidos e movimentos que continuam defendendo o comunismo como projeto político e econômico. O que não encontramos é uma grande sociedade contemporânea que tenha realizado integralmente o ideal marxista de uma organização sem classes, sem Estado e baseada na propriedade comum dos meios de produção.

A experiência chinesa é particularmente reveladora. O país manteve um partido comunista no poder, mas construiu uma economia que depende fortemente de empresas privadas, comércio internacional, investimentos e competição.

Enquanto isso, no Brasil, parte da discussão ideológica continua acontecendo em smartphones caros, plataformas comerciais e redes sociais controladas por grandes corporações. Nada disso impede alguém de defender o comunismo. Mas deveria incentivar uma reflexão sobre a diferença entre criticar um sistema, propor sua substituição e demonstrar como a alternativa funcionaria.

No fim das contas, talvez a pergunta mais interessante não seja se ainda existem comunistas. A pergunta é por que, depois de tantas experiências históricas, continua sendo tão difícil encontrar o comunismo funcionando exatamente como seus defensores imaginaram.

Marx dedicou boa parte da vida a criticar o capitalismo. Quase dois séculos depois da publicação do Manifesto Comunista, o sistema continua sendo criticado, combatido, reformado e utilizado, inclusive por países governados por partidos comunistas.

A ironia é irresistível. O capitalismo, que deveria ser superado, encontrou maneiras de participar até da construção de seus adversários.

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Fernando Vítolo é comunicador, jornalista, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo

Fontes consultadas

Governo da China: aprovação da lei de promoção do setor privado e dados sobre o peso da atividade privada (2025).
Constituição da República Popular da China: princípios da economia socialista de mercado e propriedade privada.
Fundo Monetário Internacional: avaliação da economia chinesa e recomendações (fevereiro de 2026).
Marx e Engels: Manifesto do Partido Comunista (1848).