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Cultura

Quando o humor gráfico troca a banca pelo celular

No podcast CAPIAU, Attílio de Oliveira e Jean Galvão conversam sobre a passagem dos jornais para as redes sociais e sobre o que uma boa ideia precisa para sobreviver a essa mudança.

Durante muito tempo, publicar em um jornal ou revista era uma conquista decisiva para quem vivia de desenho. Hoje, uma tira pode encontrar leitores sem passar por uma redação. Mas o que se ganha, e o que se perde, quando a vitrine cabe na tela do celular? A pergunta, feita por Fernando Vítolo no podcast CAPIAU, conduziu parte da conversa de Érico San Juan com o ilustrador Attílio de Oliveira e o chargista e quadrinista Jean Galvão.

Chargista da Folha de S.Paulo e autor de tiras publicadas por dez anos na revista Recreio, Jean conhece os dois lados dessa mudança. No jornal impresso, ele podia presumir que o leitor já conhecia a notícia por trás de uma charge. Nas redes, o desenho muitas vezes aparece isolado, fora daquele contexto. Até o formato precisou mudar: a personagem Vó, antes publicada em tirinhas, ganhou composição quadrada e letras maiores para ser lida no celular.

A adaptação vai além do tamanho da imagem. Jean conta que publica seus personagens nas redes com a intenção de, depois, reuni-los em livros. É um caminho diferente daquele em que a publicação impressa apresentava a obra ao público pela primeira vez. Para ele, porém, a facilidade de publicar não resolve tudo: o trabalho também disputa atenção em meio a um volume enorme de conteúdo, e curtidas não se convertem necessariamente em remuneração.

Attílio, que ilustrou crônicas da Veja São Paulo durante décadas, vê nas redes a possibilidade de publicar sem depender do espaço que antes era reservado por jornais e revistas. Ele próprio passou a escrever crônicas e acompanhá-las de desenhos. Isso não significa que tenha decifrado a distribuição digital. Na entrevista, conta que um texto no qual apostava pode receber pouca atenção, enquanto outro alcança milhares de pessoas. “Eu não quero entender o algoritmo”, resume.

Apesar das diferenças de trajetória, os convidados voltam várias vezes ao trabalho que acontece antes da publicação. Jean diz que não espera uma ideia surgir pronta: observa, anota, testa versões e insiste até encontrar a solução. “Você cavuca a ideia até conseguir.” Attílio descreve outro ponto de partida: sempre deu mais atenção à estética do desenho, embora tenha encontrado, ao ilustrar crônicas, espaço para criar interpretações tão autorais quanto os textos.

Idealizado e apresentado por Érico San Juan, com Fernando Vítolo como co-host do episódio, o CAPIAU é também um jornal de humor impresso em Piracicaba, com edições disponíveis em PDF. A existência do projeto dá à conversa uma graça particular: enquanto discutem o futuro do desenho no celular, os participantes continuam encontrando motivos para fazê-lo existir no papel.