Entretenimento

Existe uma empresa real dos Caça-Fantasmas

Criada pela Sony, a produtora colocou Ivan Reitman e Dan Aykroyd — o próprio Ray Stantz — no comando de uma operação dedicada exclusivamente a manter vivo o universo de “Ghostbusters”

Nos filmes, os Caça-Fantasmas são donos de uma pequena empresa instalada em um antigo quartel de bombeiros de Nova York. Eles atendem telefonemas, enviam equipes para capturar aparições e tentam impedir que criaturas sobrenaturais destruam a cidade.

Fora das telas também existe uma empresa dedicada exclusivamente aos Caça-Fantasmas.

Ela não captura espíritos, não utiliza mochilas de prótons e provavelmente não atenderá caso um fantasma apareça em sua sala. Mas é responsável por administrar tudo o que envolve a franquia: filmes, séries, animações, jogos, produtos, experiências e novas histórias.

Seu nome é Ghost Corps.

E o detalhe mais curioso é que ela não foi criada apenas por executivos interessados em explorar uma marca famosa. Entre seus fundadores estão Ivan Reitman, diretor dos dois primeiros filmes, e Dan Aykroyd, cocriador da história original e intérprete de Ray Stantz.

Ou seja: um dos verdadeiros Caça-Fantasmas ajudou a comandar a empresa real dos Caça-Fantasmas.

Uma franquia famosa, mas sem rumo

O primeiro “Os Caça-Fantasmas”, lançado em 1984, foi um fenômeno. A mistura de comédia, ficção científica, terror e aventura deu origem a uma das marcas mais reconhecidas da cultura pop.

O conceito inicial nasceu da fascinação de Dan Aykroyd pelo paranormal. O ator escreveu uma história ambiciosa sobre equipes que atravessavam diferentes dimensões para enfrentar ameaças sobrenaturais.

Ivan Reitman percebeu o potencial da ideia, mas considerou aquela primeira versão complexa e cara demais. Harold Ramis foi então chamado para trabalhar no roteiro, ajudando a construir os personagens, os diálogos e o tom de comédia.

A parceria resultou no filme estrelado por Bill Murray, Dan Aykroyd, Harold Ramis e Ernie Hudson. Cinco anos depois, o grupo voltou em “Os Caça-Fantasmas II”.

Apesar da popularidade, a franquia permaneceu décadas sem uma verdadeira continuação cinematográfica. Projetos para um terceiro filme surgiram repetidamente, mas esbarraram em problemas de orçamento, roteiro, agenda e na resistência de Bill Murray em retornar.

A morte de Harold Ramis, em fevereiro de 2014, tornou uma reunião completa definitivamente impossível.

Ao mesmo tempo, Hollywood entrava na era dos grandes universos compartilhados. O sucesso da Marvel mostrou aos estúdios que uma propriedade conhecida poderia gerar não apenas continuações, mas também séries, derivados, animações, jogos e uma quantidade quase infinita de produtos.

A Sony possuía uma marca gigantesca. Faltava uma estrutura dedicada a administrá-la.

Nasce a Ghost Corps

A criação da Ghost Corps foi anunciada em março de 2015. Instalada dentro do complexo da Sony Pictures, em Culver City, na Califórnia, a empresa nasceu como uma subsidiária da Columbia Pictures.

Segundo a definição oficial da Sony, a missão da Ghost Corps é expandir a marca por meio de filmes, animações, televisão, produtos licenciados e novas experiências de entretenimento.

O projeto foi estruturado por Ivan Reitman e Dan Aykroyd, com a participação de Tom Pollock e Joe Medjuck, parceiros de Reitman na produtora Montecito Picture Company.

A ideia era criar uma espécie de central de comando para tudo relacionado aos Caça-Fantasmas. Em vez de permitir que cada filme, jogo ou produto fosse desenvolvido isoladamente, a Ghost Corps passaria a supervisionar o crescimento daquele universo.

A empresa é real, possui sede dentro do estúdio da Sony e funciona como guardiã criativa e comercial da franquia. Mas ela não é uma companhia independente pertencente aos atores: continua subordinada à Columbia Pictures e, consequentemente, à Sony.

Mesmo assim, ter Ivan Reitman e Dan Aykroyd na estrutura representava algo incomum. Os criadores não estavam apenas concedendo entrevistas ou fazendo participações nostálgicas. Eles ocupavam um lugar dentro da operação responsável pelo futuro daquilo que ajudaram a inventar.

O Caça-Fantasma que virou executivo da própria franquia

Dan Aykroyd não entrou na Ghost Corps apenas porque interpretou Ray Stantz.

Ele foi a pessoa que teve a ideia original de “Ghostbusters”. Sua história familiar ligada ao espiritualismo, seu interesse por parapsicologia e sua crença pessoal em fenômenos sobrenaturais forneceram boa parte da mitologia da franquia.

Foi Aykroyd quem imaginou os equipamentos, os uniformes, os veículos e a existência de profissionais especializados em capturar fantasmas. Harold Ramis ajudou a transformar essa imaginação em uma história cinematográfica mais viável, enquanto Ivan Reitman encontrou o tom ideal para filmá-la.

Por isso, Aykroyd ocupa uma posição singular: é criador, roteirista, ator, produtor e participante da empresa responsável pela continuidade da marca.

Em 2024, ele revelou à People que ainda mantinha dois escritórios ativos: um relacionado aos Blues Brothers e outro aos Ghostbusters. A declaração mostra que sua ligação com os Caça-Fantasmas não se limita às aparições nos filmes.

Ray Stantz pode ser um personagem, mas o interesse de Dan Aykroyd pelo sobrenatural é absolutamente verdadeiro.

O primeiro grande teste da empresa

O primeiro filme lançado sob a nova estrutura foi o reboot de “Caça-Fantasmas”, em 2016, dirigido por Paul Feig e protagonizado por Kristen Wiig, Melissa McCarthy, Kate McKinnon e Leslie Jones.

A proposta era criar uma realidade diferente, sem ligação direta com os acontecimentos de 1984 e 1989. Os atores originais fizeram participações especiais, mas interpretando outros personagens.

A produção acabou se transformando em uma batalha cultural antes mesmo de chegar aos cinemas. Parte das críticas era abertamente machista e racista, especialmente contra Leslie Jones. Mas também existia uma insatisfação legítima dos fãs com a decisão de abandonar a continuidade original.

O filme arrecadou aproximadamente US$ 229 milhões, mas havia custado cerca de US$ 144 milhões, sem contar toda a divulgação. O resultado não foi suficiente para tornar o projeto lucrativo, e estimativas da indústria apontaram um prejuízo superior a US$ 70 milhões.

A experiência ensinou à Ghost Corps uma lição importante: o nome, o logotipo e os equipamentos não eram suficientes. Para boa parte do público, os Caça-Fantasmas também eram aqueles personagens e aquela história iniciada em 1984.

A empresa criada para expandir a franquia precisaria primeiro compreender o que não poderia ser descartado.

A família Reitman assume o volante da Ecto-1

A mudança começou com Jason Reitman, filho de Ivan Reitman.

Quando criança, Jason frequentava os bastidores dos filmes dirigidos pelo pai. Décadas depois, ele apresentou uma ideia que transformava a própria ausência de Harold Ramis no centro da história.

Em vez de apagar o passado, “Ghostbusters: Mais Além”, lançado em 2021, seria uma continuação direta dos filmes de 1984 e 1989.

A história acompanha a filha e os netos de Egon Spengler, que descobrem a verdadeira identidade do avô e encontram os antigos equipamentos dos Caça-Fantasmas. Paul Rudd interpreta Gary Grooberson, um professor fascinado pelos acontecimentos sobrenaturais do passado.

O filme recupera a Ecto-1, as armadilhas, as mochilas de prótons e a mitologia original. Bill Murray, Dan Aykroyd, Ernie Hudson, Annie Potts e Sigourney Weaver voltam a interpretar seus antigos personagens.

Até Harold Ramis retorna simbolicamente.

No final, Egon aparece por meio de uma cuidadosa recriação digital. O ator Bob Gunton realizou a interpretação corporal, enquanto o rosto foi reconstruído com efeitos visuais e material fornecido pela família de Ramis. Jason Reitman consultou os familiares do ator antes de utilizar sua imagem, conforme revelou a Vanity Fair.

Mais do que colocar um personagem morto novamente na tela, a cena permitiu que os Caça-Fantasmas e o público se despedissem de Egon.

Foi também a confirmação de uma mudança na Ghost Corps: a empresa deixava de tentar reiniciar a franquia e passava a trabalhar com a ideia de legado.

Dos criadores aos herdeiros

“Mais Além” foi dirigido e escrito por Jason Reitman em parceria com Gil Kenan. Depois do lançamento, os dois assinaram um acordo geral de produção com a Sony Pictures.

A transição ganhou ainda mais significado após a morte de Ivan Reitman, em fevereiro de 2022.

Se a Ghost Corps havia nascido sob a liderança de Ivan Reitman e Dan Aykroyd, sua nova fase criativa passaria a ser conduzida principalmente por Jason Reitman e Gil Kenan — com Aykroyd permanecendo como elo entre a origem e o futuro da marca.

Kenan dirigiu “Ghostbusters: Apocalipse de Gelo”, lançado em 2024, enquanto Jason permaneceu como roteirista e produtor.

O filme levou a família Spengler para o quartel de bombeiros de Nova York, transformou Paul Rudd definitivamente em um Caça-Fantasma e ampliou a participação dos veteranos. Dan Aykroyd, Bill Murray, Ernie Hudson e Annie Potts voltaram aos seus personagens, enquanto William Atherton reapareceu como o burocrata Walter Peck.

A estratégia ficou evidente: não substituir os antigos Caça-Fantasmas, mas construir uma equipe nova ao redor deles.

Muito mais do que uma produtora de filmes

Apesar de os longas-metragens serem sua parte mais visível, a Ghost Corps foi criada para atuar em diferentes frentes.

A empresa participa do desenvolvimento e da supervisão de produtos licenciados, brinquedos, colecionáveis, jogos, experiências de realidade virtual, ações com fãs, projetos beneficentes e produções audiovisuais.

Sua continuidade já está garantida além dos cinemas. Em 2026, Jason Reitman e Gil Kenan foram apresentados como produtores executivos da Ghost Corps na divulgação de “Ghostbusters: Night Shift”, nova série animada desenvolvida com a Sony Pictures Animation para a Netflix e prevista para 2027.

A empresa também mantém uma relação próxima com grupos de fãs que, em várias cidades, criaram suas próprias equipes de Caça-Fantasmas. Nos últimos anos, a marca passou a apoiar campanhas beneficentes organizadas por essas comunidades.

A ficção, curiosamente, completou o círculo: aquilo que começou como uma empresa inventada para o cinema acabou se transformando em uma companhia verdadeira, cercada por equipes reais de fãs uniformizados.

Quem comanda a Ghost Corps atualmente?

A Ghost Corps não apresenta publicamente uma estrutura administrativa detalhada como uma empresa convencional. Ela funciona como uma unidade da Sony e da Columbia Pictures dedicada à franquia.

Historicamente, seus nomes centrais foram Ivan Reitman e Dan Aykroyd. Na fase atual, Jason Reitman e Gil Kenan aparecem como os principais responsáveis criativos pelos novos projetos, enquanto Aykroyd continua sendo a grande ligação viva com a criação original.

Tom Pollock, um dos parceiros envolvidos na formação da empresa, morreu em 2020. Ivan Reitman morreu em 2022. Joe Medjuck, produtor dos filmes clássicos e sócio de longa data de Reitman, também participou da estrutura que originou a Ghost Corps.

Harold Ramis não chegou a integrar a empresa. O ator e roteirista morreu em 2014, um ano antes de sua fundação. Ainda assim, Egon Spengler tornou-se justamente o elemento emocional que permitiu à nova fase reencontrar o caminho da franquia.

A empresa que impede os Caça-Fantasmas de virarem fantasmas

A Ghost Corps nasceu para transformar “Ghostbusters” em um universo comparável às grandes franquias de Hollywood. Sua primeira tentativa não alcançou o resultado esperado, mas a empresa conseguiu corrigir a rota.

Em vez de apagar o passado, passou a utilizá-lo como fundação.

Hoje, os Caça-Fantasmas não são apenas personagens de dois filmes clássicos. Formam uma propriedade que atravessa gerações, mídias e mercados. Por trás de cada novo uniforme, veículo, animação ou longa-metragem existe uma companhia real decidindo o que deve ser preservado, modificado ou apresentado a uma nova geração.

Na ficção, Peter, Ray, Egon e Winston criaram uma empresa para proteger Nova York dos fantasmas.

No mundo real, Ivan Reitman, Dan Aykroyd e a Sony criaram outra empresa para impedir que os próprios Caça-Fantasmas desaparecessem.